UNIVERSIDADE DE MACAU UNIVERSITY OF MACAU Este livro foi oferecido por This book is a gift from Escola Secundaria Dom Bosco 21 Junho 1999
H. M. VIZEU PINHEIRO INSPIRAQOES
A m i n h a m u l h e r ,
A m es u f i l h, o s
m e u s i r m a o s ,
PREFACIO dependesse exclusivanientede mim a localizacao destaspalavras nadisposicao geral do opusculo que o men respeitdvel Amigo, Senhor Henrique Manuel Vizeu Pinheiro, da agora a pablicidade, eu certamcnte opinaria que elas aparecessemnaoconio palavras de abertura, mas sim como palavras de fecho; nao como prefdcio do seu pequeno e mimoso relicario de furtivas reminiscencias duma vida intensamente vivida, do ponto de vista sentimental, mas sim como posfacio dessas, para ele, sagradas evocafoes, pletoi ioas dutn subjectivismo sereno e prof undo. Ell explico esta minha quigd estranha mas razodvel preferencia. E que, de nos dois, lido subsiste a mats insignificante duvida de que e ele e ndo eu quern estd indiscutivelmeiite mais hahilitado, por todos OS
motivos, a apresell tar 0 ouiro: jd porque a nossa diferenca de idades nao sa coaduna scnao com 0 men modo de ver; jd porque 0 sea lioro e, priucipalmente, destinado a Macau — terra ondc eu, pelo nada que por ela posso fazer, pouco mais serci, alguma vez, do que um ignoto forastciro, enquanfo ele, corn sobejas raides, a pode considerar como sua segunda terror -natal —; ja, finalrnente, porque aos meus modestos passos nesta tao drclita como sedutora carrcira das letras correspondent as passadas lentas, medidas e experimentadas do delicado auior clas "Inspiragdes", cujo gracioso espirito perpassa em todo o livro com a rogagante Siiavidade dam voo de andorinha em plena primavera da Vida. Von mesmo mais alem. Com perdcio deste melt siit&ero Amigo que e 0 Senhor Vizea Pinheiro, eu abro aqui um convite publico, uma declarada alicia- $3,0 aos nossos comuns Icitores, para que se coloquem chfinitimmente no men, ponto de vista e assim considered que, dos dois textos do presente opusculo, independentemente da ordem por que eles aparecem publicados, o verdadeiro prefdcio — verdadeiro e por mim imerccido'—seja, nao este, mas aquele que saiu da pena do autor deste lioro. Valeut E que so assim eu consigo estar um pouco mais a-vontade para dizer o
que se me oferece solve as "Inspiragocs". E esta, ereiavi, nao e das mais fdceis tarefas a que eu me poderia abalangar, mesmo que so por um grato dever de amizade. Foi sempre condicao sine qua, hdsica, 'para se poder justamente apreciar algo que out rem livesse produzido que 0 indiindno que assume, de vwto-proprio on por incu mbencia alheia, esse papcl rlc . . . critico — seja!— se soubesse e pndesse, antes do maisy colocar no mesmo piano cspiritual do criticado, isto i, se pud,esse i rausferir 'para a posigao do alitor, identificar-se, quanta possivel, com ele, Her como que 11m duplo cspiritual do indvidno cuja ohm se critica, e isto porque "o melhor critico de qualquer obra seria, iiiegavelmente, o proprio autor, no preciso niomento em que, de tudo quanta o ligasse a sua obra, se conseguisse apcnas esquecer, mas esquecer cm ahsoluto, de que fora de si que ela havia saido". Ora aqui, nesta condigao hdsica para a critica, evcontro eu a primeira difiatldade b'isica para criticar, por me reconhecer intciramentc incapaz de me iransfcrir para, a poicao do autor—unia posigdo dc forte suhjectinidade remiuiscente, de interna emotividcule individual rememor ntina, longa de alguns bons anus.
Nao criticarei, portanto. Todavia, como prefaciar (no men caso— insisto—posfaciar) ndo e apenas criticalmas tambem apresentar (as rezes ate, como agora, quem paranada a necessita deoser) e hem gostosamente que eu aqui vcnho tragar, em linhas muito gcrais, a ideia que tenho e mantenho das "Inspirafoes". mas, decerto, compreendera que eu lho observe:Osett opusculo, mais do que lima colcctauea de breves cronieas, surge-me, a principio, como um aliciante salaot vazio de materialismo mas repleto de profunda espiritualidade, em cujas alvas paredes 0 alitor livesse ido pendurando, pela vida for a, OS quadros pessoais, muito pessoais, que dessa mesma vida e atraves dela fox pintando. Um dia, qitando entendeu ter dado OS ultimos retoques ao ultimo dos sens quadros, cheios de uma poesia muito sua por terem sido pintados com as policromas aguarelas de todos OS sens sentimentos mais puros, abriu, pela primeira vez, as portas desse saldoacuriosidade dos outros: OS primeiros a entrar foram, naturalmente, OS seas, a sua familia ; depots vieram OS sens amigos e, dos mais velhos aos mais novos, todos ali compareceram; e, por Jim, entraram tambem todos OS seus conhecidos, dos mais aos menoshabituado sao seu agra-
davel convivio. Como por encanto, entfio, / mesmas essas portcis se entrecerraram. La dentro, dentro desse salao que (' 0 mundo da sua pluraltMica sentimentalidade, ficaram todos OS que o poderiam rompreender, todos OS que 0 poderiam apreciar, pais foi para esses — para nos — principalmente, que ele vein pinfandt), vida em fora, em piriceladas ora alegres como 0 cor-de-rosa, era tristes como 0 violeta, ora irouicas como o escarlate, ora pungentes como 0 azu! — e todas elas ciramente reminiscentes como um disco de Newton jt'i fatigado de tanto radar — as suas emogoes mais estranhas e disparts, desde as puramente amorosas, platonicamente amorosas, UK meramente imaginatiras, fantasistas, relumpagos utopicos dum cerebro que se compraz em idealizar, por vezes, a dogura de uma vida irreal na irrealidade negaceante dum mundo que nao foi dado aos homens porque OS homensonao merecem. E de dentro desse salao que eu escrevo estas palarras mais para OS que estao tambem dentro clele e I/lie podem, em cada quadro que tem putente, apreciar mellior a sinceridade simplista que as ditou. La fora 0 mundo nao tern 0 calor destas paredes e as almas andam, quantas vezes, arredadas desta serenidade quase primitiva, tao moca e remocante, que aqui dentro se vice.
Jiendito, puis, quern proporciona c10 nosso esph'ito limn tan Candida e suave respiracao. Que oatros, mviios oatros1 possam tambem dela usufruir! E estou certo que usufruirao. Hernani Anjos.
PATR I OTOI SM Reacrao provocada pela soberbia de um ingles a quem eu e minha mulher t'omos apresenlados a bordo da "Empress of Canada", quando da viapem a Portugal, era Abril de 1923, tendo aquele cometido a petulancia de jamais nos falir durante a viagem como se fdssemos "desoonhecidos". Quardo longe da Patria se analisam, por rnomentos, as grandezas que foram nossas, sente-se Ulna tristeza bem funda invadir 0 coragao. Ai daquele que se aproveite desta ocasiao melancdlica — qeu represecta 0 verdadeiro sentimentalismo portugues — para, julgando-se superior em raga, nos magoar com um gesto que seja. Entao, sim; entao e que esse alguern se julgari pequeno com um nosso simples "olhar" que lhe dirA : — "Tartufos"? Quem vcs ensinou a conhecer estes mares?! Quem vosdeu as grandezas do vossopafs? Portugal tudo vos deu, e e essa a razao porque ficou pobre, mas grande, enormemento grande e mestre nas licoes que vos deu
e da! Nao esquegais que, ainda ha bem pouco, nuin voo colossal sobre 0 Atlantico, Ele pode, la do Ceu, bem alto, abragar 0 Brasil! Que mais querela? Aprendei, eu sai que sois forte na imitagao, mas 0 que vos assevero e que por lnais que estudeis jamais podereis corresponder a nossa EducagAo e Gentileza. Iaso sao grandezas inigualaveis, verdadoiros dogmas de uma Nagao magnanima, que vos erisinou a ser "alguem". Bordo do "Empress of Canada", Abril de 1923.
A MOR E MUSAI C (Dialogo) Em certo festim, um grupo de belas raparigas, ao canto de uma sala, discutiam, com calor, se a Musics nascera primeiro do que 0 Amor ou este primeiro que a Musica Opinides varias corriam de boca em boca at6 que um gala, intrometendo-se nesse belo rancho, exclamou : — "Deidades, para que tanto discutir? Sabei que a Miisica nasceu do Amor", (apartes):"Ves? Eu nao te dizia?" —Escutai! E que 0 Amor apareceu da Musica! Amor sem Miisica e Musica sem Amor e tao desarmonico como a vossa discussao." (apartea) — "Nada percebemos". — "Escutai, 0 Amor e a Musica nasceram juntos; 0 Amor e a Miisica em silencio; a Musica e 0 Amor inspirado! Um e outro formam um todo, esse todo que muitas vezes nos tem levado aos maiores cometimentos". —- "Obrigado, cavalheiro. Afinal chegamos todas a uma conclusao". " A minha, nao e verdade?" — "Nao, a nossa, que e 0 Amor ter aparecido muito
antes da Musica." — "Como assim?" — "Temos um exemplo bem frisante, que nos nao tinha ocorrido:— nos seis, que formamos a maioria deste grupo, conhecemos certa pessoa, unida pelo matrimonio, que sempre que a mulher se poe a cantar, ferra-lhe uma tremenda sova; dai a conclusao que 0 Amor e a Musica se nao Sao incompativeis, pelo meDOS sao indiferentes". — "Perdao, Deidades, 0 que acala's de dizer so vem a meu favor, poi3 fica mais uma vez provado que a Musica e 0 Amor nasceram juntos, para que este lhe bata . . . 0 comfasso." Bordo do "Empress of Canada", Abril de 1923.
TENT AC AO Foge para longfl, rneu amor, perde-te de mim para que te nao percas! Ceus, para que tanta formosura numa so mulher, e porque so a nos nos quer ? ! Foge para longe, meu amor, perde-me para que te nao pereas! Vai, Deusa da Perfeigao, entregar teu coragao e esse terno olhar a quern, legalmente, te possa amar! A mim, nests sofrimento duplo, pelo amor que sin to e pelo que sinto deste amor, bast I- -me, apenas, i despedida, que me concedas a graga de, num so momento a SOS, te traduzir, nurn unico beijo, 0 idioma daminha Patria, e . . . nao mais, foge para longe, meu amor, perde-me para que nao percas tua pureza, mal segura por tao rara beleza! Bordo do "Empress of Canada", Abril de 1923.
E S T R ESL A H i olhos e olhos; olhos que nada dizem e olhos que dizem tudo! Estes ultimos sao como "carta- -aberta", rielea se le o que existe de mais sublime no coragao; — a "Bondade"! Aqueles a quem e vedado amarem mais de uma vez, como acontece ao autor destas linhas, sentem, quando olhados por olhos tais, uma recordacao infinda do passado! Perdoe a possuidora destes "aut6grafos" a pobreza da frase. Outros cantarao essas estrelas com maior valor, mas nao, por certo, com maior saudade, Bordo do "Empress of Canada", Abril de 1923.
RA S GSO DE H E R O IOS M Sei de muitos rasgos de herolsmo, principalmente na Raga Portuguesa. As nossas descobertas assim 0 assinalam. 0 ultimo feito aereo ao Brasil e prova bastante desse hei'oismo nunca desmentido. Hi , porem, outros nao menos dignos de admiragao e respeito, como 0 voar-se is regioes efcereas dobrado ao ouro duma "velha carcaca". Bordo do "Empress of Canada", Abril de 1923.
0 MUE CAOZOI T Que direi eu do meu caozito ?! Que me deixou bem triste quando dele fiz presente a pessoa amiga. Queria-lhe muito, por muito ser meu amigo. Era v6-lo, depois do banho, como ele agradecia 0 asseio ao seu Undo pelo. 0 instinto, indicando-lhe a hora a que eu chegiva da reparticao, colocava-o, diariamente, ao cimo da escada, a fim de me proporcionar a sua recepcao. A alegria, traduzida nos saltos, que so finalizavam quando me cheirasse 0 rosto, mostrava quanta amizade aque'e pequeno coracao de animal encerrava pelo seu dono ! Com a minha retirada de Macau, em gozo de licenca, tudo se foi : a casa, OS amigos e 0 meu C'Tozito! De tudo e todos eu levo uma saudade que se desvanecera quando de novo me for dado voltar, E 0 meu caozito viverA! Lembrar-se-a do seu dono! Tudo isto me faz meditar e entristecer a ponto de — perdoai a franqueza — me lembrar mais dele; sim,
dele que nao fala e que, portanto, nao pule dizer-me: —"Que ingrato! Nem sequer me levaste na tua C0111panhia!" Bordo do "Montcalm", Maio de 1923.
OS MORSTO Que impress'onaite e, para mim, a visita aos morfcos no dia de finados! Impressionante, pela imponente romaria k Eternidade 1 Com efeito, a qualquer hora deste dia e admiravel ver, por toda a estrada que nos conduz ao "Campo Santo de S. Miguel", o mercado das flores em profusao. La dentro, entao, so tudo isto e admiravel, nao encontro palavras que po?sam exprimir 0 sublime! Gente de toda a condicao soc'al, de alma ajoelhada junto is campas, dd-me a impressao da ressurreicao dos mortos naquela posigao. rezando. Foi entao que, pela primeira vez, ao contemplar este quadro maravilhoso, chorei (e fez-me bem 0 chorar, pois veio a quebrar-se em mim aque la forga que muitas vezes me inibia de me incorporar nos saimentos flinebres) e, curvando-me para OS mortos, disse-lhes: — O Vos todos do "silencio"! Que consolavao eu sinto ao ver este respeito tao fora do vulgar! Aqui, onde se desfazem todas as paixoes e ambigOas de proximo, ao mesmo tempo que se evola
0 amor sublimado dos entes queridos, e comovedor, repito, ver esta espontanea cortesia! Sabei que 0 mundo dos vivos vos presta 0 culfco merecido, e que, desta aorte, ate a morte nos seduz tambem". Macau, Novembro de 1932.
V I C E NE T N I C OUL A DE M E S Q AU I T Nunca e demais avivar os feitos dos nossos herois que contribufram para um Portugal Maior, e, assi • , apesar de ser bem conhecida a heroicidade de Mesquita, apos 0 cobarde assassinato do energico Governador Ferreira do Atnaral, eu desejo, no dia de hoje, realgar, em dois tracos, aquele feito que manteve porfcuguesa esta parcela do Extremo Oriente. Agosto de 1819, dia 25. Ares turvos para 14 das Portas do Cereo, onde em territorio chinds, no forte de "Passaleao", se aglomerava um inimigo nurabrkamente superior a nossa guarnifjao de Macau, ameagande, por massacre, a ocupacao desta Colonia. Vicente Nicolau de Mesquita, duma abnegaijao 0 coragem sam limites, com 32 dos nossos bravos soldados, enfrenti aquela atmosfera pesada, debaixo de um violentiWmo fogo de artilharia. Mesquita avanca sem cessar, ripostando na mesma linguagem de fcrro e fogo, fazendo ir pelos ares 0 referido forte.
Os que escaparam daquela massa sangrenta, fugirarn aterrorizados em todas as direccoes, e foi tal 0 panico levado ate junto das autoridades ehinesas circunvizinhas, que o seu respeito por esta Colonia se manifestou e ainda hoje perdura. Nicolau de Mesquita, glorificado pela Palria, que 0 colocou, em broDze, em frente do Munieipio desto. cidade, ali permanecera para sempre, a mostrar as geragoes que passam como se desembainha uma Espada. Admiral-0 0 gente Lusa! Honra e Gloria a Portugal! Macau, Agosbo de 19-12.
AS G U E RSR A As guerras sao a demonstra^ao maxima de uma "educacao imperfeita" pelo que tem de desumanas. E, assim, elas surgem, porque a diplomacia da3 Nacoes nem sempre e bastante para enfrentar OS governos despoticos, de modo que OS assuntos tendem a cair no campo das suscoptibilidades, provocando eonflitos de natureza vAria, que podem ir ate te grandes becatombes, como a que se esta desenrolando em todo 0 Universo. Se e certo a "Instrucao" caminhar na vanguarda, nao e menos verdadeiro, como e sabido, que a "Educigao" tem ficado para tris, como coisa secundaria, no errado principio de que todo 0 "Homem instruido" tem ja em si 0 grau de educacao necessArio para se fazer conduzir. Dai, uma "educa?ao descurada" que traz OS povos em desassossego. Nao pretendemos dar ensinamentos com este arrazoado, visto ser assonto de mais conhecido. A repulsa por tamanba chacina em pleno seculo XX,
da-nos jus a marbelar nestas verdades, adinirados de que ainda hoje seja permitido ensanguentar 0Mundo para lhe impor novas directrizes. Echama-seaistoCivilizacao!! Uma Civilizagao que nos conduz aos tempos do barbarismo com todo 0 poier combativodasciencias demolidoras do actual seculo!! E 0 Mundo, sem forca para se impor porque ainda nao atingiu a "educagil perfeita", assiste, impavido, sein um protesto, a este horroroso espect&culo, porque . . . sao assim as Leis da Guerra!! Sao assim as Leis da Guerra, desumanas, cruris, derrotistas de toda uma Legislagao em prol da sociedade, porque impera a "maldide dos hoirrns". is preciso cultivar a "Educagao'' ao maximo; tirar ao homem OS instintos de fera; reduz-r a Zero o seu personalismo, onde germina uma Yaidade desmedida, e so entao mostrar-lhe que tudo 0 que ele e e 0 que possui 0 deve a Alguem; a esse Alguem que o fez subir, para, depois da Culminancia, 0 ajudar a descer a Eternidade, pois so assim tera vivido aquela santa paz que 0 Nazareno pregou do alto do seu Calvirio, indispens4vel ao "bem-morrer" da Humanidade. Macau, Novembro de 1942.
A N D O R I NS H A Ja chegaram as andorinhas aos beirais do meu telhado. Mensageiras do Senhor que veem do longlnquo de volta a seus ninhos, verdadeiros lares de amor, de onde surgem seus filhos, que elas, com carinho, criam A sua semelhanca. Naquelas cabegas trtimulas, pequenitas, onde existe todo 0 saber para se conduzirem pela existencia fora, ha privilegios a que nos, homens, cbamamos "instintos aperfeigoados", na impossibilidade de desvendarmos os misterios da Natureza! Sublimes criacoes do Incriado! Quantas vezes me ponho a meditar na vida feliz destes pequenos seres que vivem s&mente do trabalho e nao precisam do " vil metal" para se governarem! E, em contraste, quantos seres humanos trabalham uma vida inteira, vindo, por vezes, a morrer de fome! E assim, meditando, surgem-me diividas se nao serao "ressentimentos" do Senhor para com OS homens, por, naquele tempo, 0 terem vendido por
"fcrinta dinheiros" ?! . . . Impossivel, naquela infinita Bondade nao ha "ressentimentos", tanto mais que a Humanidade sofre desde que 0 Mundo e Mundo, portanto, muito antes da vinda do Senhor. Sao, com certeza outras as causas. Deixemos isso no "Insondavel" porque tudo isto parece girar a volta do principio das "compensates" que mantem 0 equilibrio Mundial. Mas, voltando as andorinhas — que ee servem da navjgacao para, em parte, fazer as suas viagens—que dificuldades nao terao com as guerras em ae fazerem conduzir somenta pelas debeis asas ?! . . . Admirivel e encantador! Ver sempre Deus na Natureza, 6 ter a no?ao completa das realidades desta vida para a enfrentar com calma e alegria. E se e certo que para 0 Alem- -Tumulo existe uma vida melhor, ha que conformarmo-nos com OS reveses, confiando no Salvador, pois, so assim poderemos ser felizes, como felizes sao as andorinhas. Macau, Primavera de 1943.
F E L I C I DE A D C O N J UL G A A felicidade conjugal reside na comunhao de sentimentos e na forma de OS exteriorizar dentro da moral e respeito mutuos. Se a Ciencia — que tantas maravilhas tem dado ao Mundo — fosse permitido descobrir um aparelho de precisao que, antes do Noivado, revelasse a diversidade de sentimentos que se albergam adormecidos nas asas do Amor, para depois, acabado este, se guerrearem, a Humanidade seria sempre feliz no lar e fora dele, por essa felicidade muito contribuir para a pratica do bem em todos os actos da sua existSncia. Macau, Agosto de 1945.
C O M P A OI X A Inspira(• *) provocada pela contemplarfio das fotografias do Livro ''Pictorial History of the Second world War". "Amai-vog uns aos outros" — tais foram as palavras do Nazareno, a bem da Humanidade, ao fechar OS olhos, pregado na Cruz. E 0 mundo revolto, mas cioso de bem cumprir aquela sublime disposi^ao testamentdria do Divino Mestre, levantou Igrejas para que os bcmens se moldassem no Bem. E 0 que vemos? Um mundo esfarrapado, pedinte, cheio de fome e frio, chorando — pelos olhos dos inocentes— a familia e haveres que perdeu nas guerras provocadas pelos que nao honraram Cristo na Sua mais alevantada ideologia do Bem. Em pleno seculo XX e ja tempo para que os homens reconsiderem em seus erros, pondo de parte as guerras. Santa Maria dos Olivais, fazei surgir das ruinas do passado o Templo da Paz, bem vislvel no Univer35
so, encimado, em lefcras de oiro, por aquele derradeiro e santo Amor a humanidade: — "Amai-V03 uns aos outros" —. Macau, Janeiro de 1948.
LUTO Convencionaram OS Povos civilizados exteriorizar 0 "sentimento" pela morte dos componentes da famllia, na indumentaria preta ou simples tira de crepe, a que se chama luto, para que, desta forma, se apercebam do seu "intsrior por essa? ocasioes de angustia Decretaram, assim, OS Povos, como se a "dor-saudade" fosse de medir aos olhos do Mundo! Quantas e quantas vezes somos obrigados, por esta convengao, a usar esse luto por parentes que numa vida inteira nos foram "indiferentes", e quantaa e quantas vezes, pela mesma convengao, nos e vedado proceder desta forma na perda de um Amigo nao parente? 1 IlusSes; 0 verdaieiro "interior", 0 "verdadeiro sentir" so se apercebe no mutismo da ponvivencia por reaches eapontaneas do nosso ser. Querer alterar a Natureza, e ferir OS seus principios de Beleza. Macau, Fevereiro de 1949.
F L O RSE Deus criou asflore se a Mulher para seretri gozadas pelo Hcmem nos jardins do seu Lar, perfumando-lhe acsim as lides da vida neste tumultuoso Mar! . . . Pela existencia fora foram degenerando — as rosas nasceram espinhos, a Mulher picos tambem, de forma que aquele Bem se desfez neste Mai. Mas nem todo 0 Bem se perdeu porque nun todas as flores tem picos, e, assim, e questao desortete te-las da origem-mae, mesmo a mao, bem juntinhas do coracao. Macau, Fevereiro de 1949.
E N C AON T — "Que tens, Cupido, ai estarrecido, de olhos desvendados, fitos no Ceu, de asas encolhidas e de flechas no chao caidas?" Responde-me, Cupido, meio- -embevecido: — "Vim doInfinit odescansar um pouquinho, por onde andei volitando proximo ds uma estrela cativante. — "Porque, Cupido ? Nao sabes que as estrelas sao OS brilhantes de Nossa Senhora, e se lhe boles pode ate perder-se o Universo ?" Nisto, Cupido, trerneu, ficou gelado, e, pousando no meu ombro, segredou-me :—"Guarda contigo, 0 que te digo. Sabes 0 que aconteceu ? Tanto e tao proximo esvoacei da bela estrela que, sem querer, lhe toquei com a asa esquerda. Agora nao sei 0 que foi feito dela, certamente a desloquei." "Vem comigo, lhe disse eu, e se, por acaso, a lobrigares ca na Terra, faz-me sinal, por favor, que eu quero conhece-la." Nisto, num tremor, ele aponta para ti, meu Amor. Macau, Fevereiro de 1949.
H O N E S T IED A D Ja la vai 0 tempo em que a "Honestidade" briIbava pela sua pureza, passando entre Alas de Cortesia Ajoelhada como Senhora da sua d'gnidade. Agora, vai rareando, por consentir que a oposta "Desonestidade" lhe barre caminho para em tudo se confundir com ela- Belos tempos de antanho em que se conliecia a origem das forbunas legalmente adquiridas e se lhes tirava 0 chapeu a sua passagem. 13elos tempos, muito outros, em que se rendiam as mesiuas homenagens a "Honestidade Desafortunada" por se igualar aquela, na sua Nobreza de agir ! Agora, Santo Deus, da vontade de fugir porque . . . 41 vai 0 tempo em que a "Honestidade brilhava pela sua pureza, passando entre Alas de Cortesia Ajoelhada como Senhora da sua dignidade. Macau, Abril de 1919.
OS E L E M ESN T O F OGO Fogo que mata e tambem da vida; que tanto queima como cicatriza; que tanto ere pita como se torna em cinza; que tanto aquece como arrefece as paixSes desta vida! A G UA Agua que mata e tambem da vida; que tanto lava como enegrece; que tanto fura como amolece; qua tanto inspira quando lAgrima sentida da mulher querida! AR Ar que mata e tambem da vida; que moi 0 grao do nosso pao; que tudo arranca em furaeao; que tanto agrada quando halito perfumado da boca da mulher amada!
T E R R A Terra que mata e tambem da vida; que tudo fende quando treme; que tudo arrasa quando em brasa; que nos consome e nos torna em Nada! Macau, Abril de 1949.
MARGARIDA Margarida, meu Amor — "bem-me-queres", minhaflor ? Aceita a interrogagao que efilba do coracao, pois nao sei ao certo por onde comecar a desfolhar tuis pStalas afimde adivinhar se me — "queres-bem" — "mal" — "muito" — "pouco" ou "nada". Desfolhar... desfolhar, pensando bem, nao 0 devo praticar sem primeiro construir 0 nosso Lar! Portanto, diz-me, meu Encanto — "queres-me bem" "mal" — "pouco" — "nada" ou "tanto" ? Margarida, comovida, veio porfima ser vencida, confessando :— As petalas das Margaridas, bem como as mulhere? enamoradas, nem sempre dizem a verdade, mas... seja como quiseres; es verdadeiro ? Tens em mim Amor Primeiro e, portanto: — "bem-me- -queres". Macau, Primavera de 1949. 43
MA GAO Quando hi dias, depois do trabalho, voltava a casa para almogar, seatadas estavam, debaixo da arcida, duas rapariguitas chinesas que me estenderam as maozitas, declarando em portugues esta palavra de arrepiar:— "Fome"! A minha primeira intengao foi fazer-lhes Bem, mas a cabega, sobrepondo-se ao coragao, fez-me esta interpelagao:— "Sabes se, na realidade, tem Fome ? ! . . . " De facto, na China, e frequente comprar-se gente para mendigar em proveito da Ociosidade! . . . Ma's alguns passos dados, estava uma velhinba, tambam sentada, comendo, com sofreguidao, os ultimos bagos de arroz num recipiente velho, enferrujado, que em tempos devia ter servidoa frutas de conserva . . . e entao, contemplando este Quadro, tive a nogao que as tais criangas deviam ter Fome, na real dade. Parei de momento, olhando para tras, mas ja la nao estavam as desgragadas e . . . ficando penalizado por nao ter cumprido 0 primeiro impulso do coracao, disse comigo: — "Nem
sempre se pode fazer a vontade a Razao. Agora 0 que me resta a bem da Conscienc-ia ? Ter paciencia e eaperar que elas voltem a sua pousada, implorando Caridade,.. . se e que nao este,jam ja na Eternidade! . ." Macau, Maio de 1949.
J U V E N TEU D E V E L HEI C —Mae, que e isto que sinto e me leva a ver 0 Cdu e a Terra . . . 0 Mundo, enfim, todo "cor-de- -rosa"? —E o Nascente, o despertar do Dia, meu Amor! Portanto, aproveita e goza! Tambem ja fui assim ! Agora vou caminhando para 0 Poente, e, a medida que se vai aproximando a Noite escura, vou tendo cabelos brancos a mistura para que se apercebam de mim! . . . Macau, Maio de 1949.
B O R B O LAE T Asas transparentes e de po dourado com que enfeitais asflores do prado em beijos permanentes! Asas que tendes 0 condao de pousar nos perfumes da Natureza e de OS levar pelos Campos de Beleza! Dai-me a leveza do vosso pequeno ser, para, qual Mariposa, viver "o dia-da-rosa" em doidice louca, de boca em boca, ate morrer! Macau, Maio de 1949.
S A BRE E S P E R A Saber esperar . . . e meio caminho andado para 0 objectivo almejado. Saber esperar . . . e mais que paciencia, e quase um "Dom" da inteligfincia. Saber esperar no infortunio de uma vida va . . . e fazer 0 possivel por torna-la sa. E assim, espera 0 pobre para que nao tenha menos. 0 rico para que tenha mais. 0 remediado para, com o que tem, viver sossegado! Os noivos esperam pelo dia do noivado! Esperam as Nacoes para que haja Paz em todos OS coragoes, e ate OS Astros esperam a Bonanza depois dos vendavais. Quem hi neste mundo que nao espera por "dias- -mais-felizes ?! . . ." Quem h a . . . So OS que se julgam infelizes! Mas sabsr esperar para fins ma!6ficos... e desagradar aos Ceus, contrariando 0 Dogma; r diminuir- -se perante Deus! Macau, Maio de 1949.
P R EEC nos dar a sua luz suave, com amor! Tu, que tanta mfluencia exerces nos Mares, no Tempo e na Humanidade, faz com que essa luz penetre a lousa fria da campa onde meufilh orepousa desde tenra idade! Uma vez ai, o Lua, da-lhe brilho aos olhos e ao corpo movimento, para que me reconbeca, me abrace e conte OS misterios da Eternidade, a data do meu passamento! . . . Macau, Maio de 1949.
R E F U G IOA D Andando de terra em terra foragido, cansado de viver amedrontado, eis 0 que a minha vida tem sido neste Mundo que se diz:— Civilizado! E nao para aqui 0 meu fadirio por muito "duvidar" do itinerArio. esta Andanga de trouxa As costas pelas encostas?! Mas, pergunto . . . : "que serve bradar no Deserto se a Eternidade esta tao perto?!". . . Macau, Maio de 1949.
CINEMA Ha numa das paredes do meu quarto de dormir, um "Ecran" — casualmente formado pelo reflexo de um caixilho de janela que recebe, do exterior, a luz electrica da iluminagao publica — onde se projectam sombras de arvoredo dum jardirn proximo, que me dao a impressao de imagens em movimento, conforme 0 vento. E, assim, umas vezes, sao cabegas de leoes a morderem-se constantemente; outras, de gente em disputa permanente, e ainda outras, de animais esquisitos, todos brigando, em sentidos diversos. Tudo isto eu vejo ao deitar ate que a retina, cansada do lix.ar. trankere esta sessao para 0 pensamento. Depois . . . adormego para, na noite seguinte, ter 0 mesmo comego. Mas tanto tenho dormido sobre 0 caso, que se me afigura este Cinema de mero "acaso" como realidade vivida do que se passa no "Ecran" da vida: — "Lutas sangrentas para impor a Paz-arinada, porque a outra, a duradoura, ninguem mais a alcanga, por se ter ido, para sempre, de maos-dadas com a Bonanga!" Macau, Junbo de 1949.
NO DAI DSO T ESU A NSO (A minha Filha) Veio hoje ter comigo 0 jardineiro que me disse: — "Sabe Yossa Senhoria que eu entendo a linguagem dasflores do nosso jardim" ?— "Como pode ser, Joaquim ? Isso e fantasia." — "Nao, senhor; tenha a bondade de ouvir: —Ontem, pela tardinba, as nossas flores receberam como de costume, OS ultimos raios solares daquele belo dia ; percebi, naquele momento, que alguma coisa se passava de estranho entre elas, pois todas, ao mesmo tempo, se curvaram inclinadas para 0 Poente como que em Oracao a Deus que as nao cortasse para OS saloes de Vossa Senhoria. Depois percebi tambem que voltavam todas a prumo, natural inente, por terem recebido do Astro Criador qualquer indicacao, qualquer rumo. Entao, escondido no caramanchao, pus-me a escuta e tive a impressao que todas, uma a uma, concordaram em se reunir em ramalhete, como oferenda a algu6m que lhes queria bem! Fiquei confuso. Pode Vossa Senhoria dizer-me
0 que se passa?" — "Olha, Joaquim, pode ser . . . e dai nao me custa acreditar que seja para festejar alguem da familia. Diz-me: quando reparaste nisso ?" —-"Saiba Vossa Senhoria que foi ontem".— "Olha, entao 6 certo, por hoje fazer anos minha Filha, aquele Amor!" — Joaquim, curvando-se : — "Parabens, meu Senhor!" Macau, Junho de 1940.
R E COR D ASCO E Recordar a infancia feliz, nao ha duvida que e viver, por momentos, esses belos tempos de petiz. E assim eu lembro, com saudades, aquela Boneca viva, companheira de minhas irmas, que pouco mais tinha de dez anos de idade e eu outros tantos de vivacidade. Ela vinha, diariamente, a casa de meus Pais, para brincarmos juntos, mas nao sei porque havia entre nos uma certa "atraccao", que nos dava direitos iguais para resolver qualquer questao que surgisse entre OS demais. o tempo foi decorrendo e, com ele, fomos crescendo, ate que a Natureza se encarregou de substituir 0 simples manto de "atracpao" por fortes lacos de "afeigao". Depois . . . ela contmuou a ser a mesma companheira amiga de minhas irmas, enquanto que eu me ausentava para longe a fim de aprender coisas acima das meas. Um dia . . . na escola — de que era aluno interno — recebi, pelo Correio, em fotografia, 0 seu busto
de mulher, cheio de beleza e de frescura! Nao mais estudei, fiquei cheio de ternura a espera das proximas ferias que me dariam 0 prazer de mais perto a tsr. Porfim, quando fantasiavamos a vida conjugal, fomos contrariados por falta de meios para manter 0 Casal. Nunca mais nos vimos. Seguiram-se depois destinos diferentes. Ela veio a casar com cutro que a fez infeliz. Eu vim para 0 Oriento ganhar a vida. Hoje, velhinhos, estou certo que ela tambem ha-de viver mornentos felizes ao recordar aqueles belos tempos de petizes. Macau, Junho de 1949.
C O N F R OSN T O Ha por este mundo tanta miseria vestida de buracos que mal chega a tapar a nudez. De comer . .. isso entao s6 lhe e dado do que sobra aoa caes vadios, pelo chao espalhado. E quanto a agua . . . so quando ha chuvas recolhidas nas sarjetas antes de la chegarem OS desinfectantes e as agulhetas. Que tristeza 0 viver assim! TodOS se afastam e ate mesmo a Assist&ncia nao tem por ela a devida complacencia! De tudo isto 0 Ceu conhece, e, naquele seu mutisino, se compadeca! Por vezes, ponho-me a meditar mais fundo nesta sorte, comparando-a com as grandezas deste Mundo, ante a Morte, e chego, roalmente, a conclusao que a verdadeira Igualdade so se obtem no Campo da Soledade, apodrecido, que seja, 0 caixao 1 Macau, Julho de 1949.
A P A R I CSO E Neste Mundo de incertezas, sem respeito pelo proximo, onde germinain vaidades, ambicoes, invejas, calunias, falsas amizades e ate mesmo perseguicoes em proeesso aviltante, com forma legal, para prejudicar 0 semelhante, tudo sao modalidades que se observam no campo das realidades de uma Civilizacao decaida! E porque assim e, explicada esta a razao por que Nossa Senhora, de tempos a tempos, com seu belo Coratjao e OS pes descalcos, desce ate nos la do Infinito por achar tudo isto muito esquisito, trazendo, no regago, as Rosas-do-Espago, para que seus filhos — tornados do mal — aspirem 0 perfume do Ceu, pondo OS olhos neste Amor Maternal! Macau, Julho de 1949.
A L E GAR I DE V I VRE Alegria de elver vem dos favores de uma boa Estrela que DOS ilumina desde 0 bergo ao tumulo, sem projecgao de sombras nessa Tela; Alegria de river e toda essa luz que brilha e nos conduz por este Mundo fora a toda a hora; Alegria de river e ser-se envolvido pelo manto da Felicidade nos campos da sua actividade; Alegria de river depende, pois, de factorea da sorte que fagam esquecer ate a propria Morbe. Mas inesmo OS "sern-saude" e aqueles que passam uma vida inteira a trabalhar sem conseguir amealhar 0 suficiente para se manfcor, tambsm, por vezes, sentem a Alegria de river que lhes vem da Esperanga de melhores dias ter. Macau, Setembro de 1949.
0 BMO P R E G ARD O 0 bom pregidor e aquele que, com cultura e simplicidade, aproxima mais e mais OSfieis do culto a Divindade. 0 bom pregador e aquele que arrebata as multidoes num impulso tal, que chegam a ver nele 0 seu Fanal. 0 bom pregador e aquele que e capaz de fazer videntes de Cristo na Sua imensidade: —no Templo; no Lar; na Natureza; na Alegria; na Dor; na Eternidade! E porque assim e . . . o, Vidente! o, Lucia! Pede a Deus que de ao Mundo bons pregadores capazes de converter a propria Russia. Macau, Setembro de 1949.
0 V E N COI D Conheci-o na reciprocidade da nossa boa Amizade. Tinha qualidades para ser super feliz e para fazer, dessa Felieidade, eoragoes alegres em sucessivas geragoes! Mas... um dia casou e todo este seu ser se modificou, por mal compreendido e outrasrazoes que muito 0fizeramsofrer! Pobre Amigo meu! Um ano depois do casamento vivia num tormento. A mulher, querendo mosbrar a sua altivez, pretendia, di&riamente, diminul-lo a um grau de inferioridade que nao e dado viver a homens daquele jaez, e, assim, um verdadeiro inferno. Tudo isto ele suportava por bondade e educagao—que nao por outro motivo — com prejuizo do seu nobre coragao em vista do seu genio impulsivo. Os meses for am passando e os anos foram rolando ate que Deus 0 chamou a Si como "Martir-do-Patrimonio", enquanto que a mulher ca ficava para dar contas ao demonio. Macau, Maio de 1950.
S ONOH Sonhei que fora nomeado Embaixador Extraordinario junto do Amor Universal. E que entao, ja sexagenario, longe de ir ate longe, veio esse longe a Portugal! Deste modo, cada Nagao interessada se fez represeDtar, enviando verdadeiros ramalhetes de Mulheres, das mais lindas do seu pais, com 0 fim de conhecerem qual deles era 0 mais feliz no tocante ao conjunto de qualidades das suas Deidades, ate ali ignorado. Ao convite responderam : — A Amirica, a Inglaterra, a Franga, a Espauha, a Italia, a Aleman]I.a, e outras mais, e por fim, a Russia com OS seus anexados, mais ou menos conhecidos como tais ; todas hospedes de Portugal, que tambem concorrera. Como 0fimdesta Embaixada era inquirir do Amor, suns modalidades, para, em relatorio, dar conta ao meu Governo, foram essas Beldades interrogadas ate termo. 0 assunto era palpitante por ser deveras interessante, tendo por base principal inquirir do "Amor- -Mais-Forte", e, deste, 0 de "Melhor-Porte", como
coisa firme, sa, que correspondesse, destarte, A boa Moral-Crista. Seguiu-se, entao, no inquerito, a ordem da chegada destas deputa?5es a Portugal. E, assim, veio primeiro a America demonstrar, com seu cortejo de Divorcios, que 0 seu Amor era forte, mas . . . instivel por apressado, sendo, portanto, de prever que mais tarde seja mecanizado. A Inglaterra, devido, talvez, a sua posicao geogrAfica, tinha 0 Amor-Frio, por vezes "bem-pensante", mas humido, sem Sol que 0 aquecesse e lhe desse brilho, para assim prosseguir seu trilho. A Franga, sim, a Franca, que outrora tanto amou, estava cansada mas . . . ainda era a Franc a ! . . . Que hoje, 0 seu Amor tinha ainda ardor; contudo, devido a ideologias varias — 0 que era not6rio — tendia a perder toda aquela pureza de que reza a historia. A Espanha, essa, entao, tinha o Amor cheio de Sol e de rebolico, talvez de mais, que lhe dava vida, e certo, mas tinha um fraco, por excesao, pela "Arte- -de-montes", esquecendo assim, por vezes, outras fontes de vital atraccao, com prejuizo do seu grande e alegre Coracao.
A. Italia1 como pais de arte e de vulcoes, tinha seu Amor elevado, mas tremido. Em suma, muito ali se amava com "inppiragao" na Musica e no Canto, 0 que fazia desto Amor um verdadeiro "Encanto". A Alemanha, pobre Nagao, tendo sido grande em "Amor-ci"ncia", derrotada pelas guerras, sofreu e sofre ainda, estando hoje todo aquele Amor a espera, cheio de Paciencia. A Russia que em territorio e grande, mas pequena em conceito, tinha 0 seu Amor desfeito, sem Deus e fem Famllia, tanto mais que OS Filhos desse Amor nao pertencem aos pais, mas sim ao Governo que se diz seu tutor! . .. Propositadamente deixei parafinal 0 nosso Portugal ; terra acolhedora, tendo por Ceu azul 0 Manto Real de Nossa Senhora. Que assim 0 fazia, nao so por um dever de cortesia, ims muito principalmente por esc.rupulo, nao fosse, pela pressa das minhas conviviccoes, ser dado por suspeito no conceito das Nagoes. Nao quia, portanto, tirar conclusoes, deixando isso ao meu Governo. 0 Ministerio, nao se conformando, de prmcf^io, com a minha resolugao, veio, porfim, a raunir, resolvendo convidar 0 Embaixador Norte-
-Americano, acreditado na Capital, para dar sobre este caso, o parecer final. Vindo, entao, este a confirmar, depois de longo estudo, que 0 "Amor-Mais-Forte", e de "Melhor-Porte", acima de todos e de tudo, era 0 de Portugal!... De madrugada... ao despertar... disse comigo, com OS meus botoes : "Vejam se nao verdades neste Mundo de "Visoes" ! ? Macau, Maio de 1950.
0 P 0 B R E ZOI N H Um dia, em carta Aldeia de Portugal, apareceu um pobrezinho, muito velhinho, estendendo a mao k caridade, devido A sua avancada idade. Aquele Cantinho — que era todo cheio de Amor-de-Deus" — nunca lhe negou esmola, participando, assim, 0 pobrezinho, do seu pao, com bastante alegria do seu coracao. Mas...14 longe, fora daquele casario, havia um Lar, para 14 do rio, de que ele mais gostava, nao so por receber dali maior maquia, mas, muito principalmente, pela simpatia que afilha desse Lar lhe dispensava, a ponto de, religiosament?, 0 acarinhar com suas pal Iwas doces e meigo olhar! E assim se foram passando meses e anos, desta vida de desenganos, sem maiores preocupacoes, a nao ser as provocadas por desgaite nestes dois coracoes. A mocinha, que nao tinha mais de vinte e cinco primaveras, era tida, na Aldeia, como beleza sem par, em que sua pureza era guardada pela propria natureza do seu ser! 0 Povoado bem conhecia dos
seus ' 'amores-de-crianca", e era isto mesmo que lhe dava aquela invulgar seguranca! Os anos foram rolando, at6 que 0 pobrezinho, nao querendo, assim, morrer . . . acabou por arrancar as barbas e toda aquela indumentaria, que tanto o fazia sofrer, dando-se, deste modo, a conbecer. No dia imediato, a Aldeia estava em festa, com S3US sinos a tocar! . . . Era aquele parzinbo que, unidinho, ia casar! Macau, Maio de 1950.
S A U D AOC A Brasi l- Jnrdim rai flor e de enrun tos mil. Brasileiros, que Portugueses sois. eu YOS saudo a todos, indistintaiuente, tanto OS ai nascidos, como idos do Continente! Para mim, e para mens compatrlcioR, nao liii diferenQa de Ragas, sao ambas de "toque-igual", unidas pelo mesmo Padrao das Glorias de Portugal! Sabei que desde novo me ensinaram a amar esse Grande-Povo, e se ainda Id, nao fui, nao foi por vontade minba, mas sim por fraco numer&tio, que nem sequer me da para emarcar num vellio Corsario ! Terras de Santa - Cruz e de outras Santas, por cauonizar, que se dedicam ao "Amor-do-proximo'', na Selva e nas Cidades, sem descansar! Terras benditas, e de Mulberes Bonitas de meigo olhar, que nos arrebatam 0 coracao naquele doce "Yulcao"!
Deixai, — ainda que tarde — que eu fixe ai a minha residencia, embora exceda a lotacao! DA-me esse prazer, Brasil, que eu prometo, comofilho de Portugal, cantar at6 final, com fervor, toda essa Flora de Encanto e de Amor! Macau, Maio de 1950.
AS I RSE G R ASC A As tres Gragas conhecidas por deusas pagas, de nomes Aglae, Talia e Eufrovina, cantadas no ' Antanho", foram, como todos sabem, tres Irmas do mesmo tamanho e em tudo perfeitamente iguais; em imagens seminuas, cingidas e unidas por seus bragos formando, desto modo, um tedo de Beleza! Tal era a parecenga, entre elas, na sua esbelteza!... Cabelos ao vento, comprilos ata aos pes, tapando, por assim dizer, quase toda a nudez, foram essas divindades pagas realmeute cmtadas como simbolos de pureza. Fizeram epoca na Pintura, na Poesia, na Musica, na Escultura, enfim, em quase todos OS "motivos" em que era preciso homenagear a Natureza! E foi tao grande es3a cultura que ainda hoje perdura, liavendo quem as compare as tres virtudes cristas ! Tais eram essas castas Irmas ! . . . E porquft ? . .. porque ainda hoje se recordam ? E porque Deus, na Sua Imensidade, apresenta, por vezes. na Escultura, irmas de tanta compostura, na
Sociedade, que, senao Obra Sua, e por isso excepcionais, despertam, quando assim, aquele respeito que era devido As pagas, por serem, em virtudes, precisamente iguais. Macau, Maio de 1950.
S ESI T E LS A DE SOM (Horaeuagein) 0 Casal Carvalho e Rago que, a convite do Clube de Macau — na noite de 27 de Maio liltimo, no Teatro D. Pedro V— fez uma CoDferencia ilustrada ao piano, e subordinada ao titulo, sobre Chopin e outros, de bal modo se houve, que 0 Auditorio, transporbado aqueles bempos, viveu todo esse colorido como se nesse Antanho tivesse exisbido. E que OS verdadeiros arbisfcas de alma e coragao assim 83:0 sabem focar, em qualquer altura, tudo quanto da Formosura seja peregrina composigao. Macau, Junho de 1950.
C 0 N S E LSH O Crianga, se um dia semearea "Amores" para quando em mulher colheres essas "flores", nao te apresses, tem cuidado na selecgao, nao vi qualquer grao, com defeitos, gerar em teu coragao "Amores- -imperfeitos"! Indaga primeiro da sua pureza para teres a certeza se sim ou nao esses futuros "Amores" perfeitos sao! Na incerteza, crianga, . . . e preferivel queimar essa esperanca na Lareira, do que seres inditosa uma vida inteira! . . . Macau, Junho de 1950.
TARDES ESPIRITUAIS No conchego da ''Vila Yerde", conliecido Lar de Peiro Jose Lobo, —onde a passarada nao larga 0 arvoredo, — passain-se verdadeiras tardes espirituais, naquele doce enlevo de fantasia que nos da a Musica e o Canto da sua autoria. Compositor inspirado ao maximo, por ver sempre Deus na Natureza, di-lhe aquela iuvulgar singele/a, num conjunto de coracao e bondade, que lhe alarga mais e mais a Caridade! Todos que rodeiam a sua Arte sao ali acarinhados e tao gentihnente tratados coino se seus filhos fossem. E que a "asa-acolhedora1' da nobreza do seu ser, asaim cri'^tda, faz ate descer do arvoredo a passarada! No Infinite), entao . . . sobem ate Deus suas melodias que alegremente as premeia, no silencio das "Ave-Marias", com a Bengfio dos Ceus, pai'a si e para OS seus, merecidamente! Desta Felicidade, compartilham, espontaneamente, seus Amigos-de-verdade. Macau, Junbo de 1950.
A TEMPESTADE Em eerta casa de Campo morava um casal que tinha apenas um filho de menor idade e um enorme cao-de-guarda que era todo amizade. Tudo corria normalmente bem, dentro da maior felicidade. Acabado 0 jantar, ja perto da noite, eucostado a janela, eutretinha-se a conversar. 0 cao, esse entao, fazia 0 seu giro ca fora, a farejar. A noite ia calma de mais para 0 mes de Maio, prognostico de temporal. E, com efeito, 0 casal eomegava a disfrutar OS desenhos, nao simetricos, do faiscar. Era belo 0 especticulo, quando ainda longe, mas, ja perto, tornava-se assustador, por se aproximar mais e mais da zona da vivenda deste par. Os trovoas sucediam-se a ponto de, por prudencia, terem fechado as janelas, nao fosse a clavidade produzida pela electricidade torna-los cegos. Pai, mae e filho, todos junLos a rezar. 0 cao, agitado, punha-se a uivar. Nao chovia, ar quente em demasia.. . De repente rasga-se 0 firmamento, de alto a baixo, num estam-
pido de entontecer, e eis que a linda vivenda comega a, arder sem agua para a socorrer. Nao houve tempo de fazer OS "Salvados". A casa inteira era toda de madeira. Vieram para fora com OS criados . . . e euquanto a mae 0 o pai, abrarados pelo susto, choravam sua desdita, o filho e o cao, um pouco mais afastados, entreolliavam-se, unidos, amedrontados, com saudades da casita! Macau, Junho de 1950.
M E D I NT A DO Quando ao nosso redor deparamos com objectos que forana pertenca de entes queridos que jd nao podem voltar, avivamos, na retina, essas imagens que 0 Tempo tende a apagar! Mas o Tempo, contrariado na sua accao demolidora, longe de perdoar . . . leva- -nos tambem, para junto desses queridos que jd, dormem no Alem! Sao aqueles pequenos nadas da vida, que, por vezes, a levam de fugida! Macau, Junho de 1950. 7f>
R E P A RS O Vosaas Excelencias ja notaram as "insutencias" deatas ultimas geragoas ? Com raras excepgoes — que se podem apontar a dedo — e realmente de meter medo este Mundo de "encontroes". Onde esta aquele respeito antigo da crianga pelos pais, desde que OS trata. por "tu" ?! Visto 0 caso a olho-nu", e, para mim, 0 principal defeito desta nova "educagao". A crianga, no hibito deste "a-vontade", sem fazer distincoes, acaba, por vezes, quando homem, por nao ter "consideracjoes". E, assim, eu pergunto: Que e feito da primazia que se dava aos velhos em sinal de cortesia ? Onde esta 0 reapeito da rua para com 0 proximo? Onde foi "um-sem-ntimero'' de atengdes, reflexos desaas outraB geragSes ? Respondem-me: Sao assim OS tempos ; 0 tratamento por "tu" da infancia, nao tem maior imports,ncia.
A meu ver, tem, sim, meus Senliores, porque da nossa casa, passa para a Escola, e desti, para OS diversos ramos de actividade de que e formada a Sociedade. .. E do uma Sociedade, sem "edueagao" . . . nao melhora 0 nosso coragao ! Macau, Jullio de 1950.
CONVITE Vinde, vinde ver, o! Gente deste Mundo, de ha anos alarmada, como Macau e linda e sossegada, com uma populacao refugiada que excede 0 dobro da lotagao, por a nossa Bandeira ser tecida comfibras do Coracac. Vinde admirar 0 Genio dos Portugueses nos seus feitos, daquele tempo, com OS Holandeses! Vinde ver este Cintinho-de-Recordacoes que, em recompensa de boos servicos, nos foi doado pela China mileoaria, e em que 0 nosso epico Camoes, Principe-dos-Poetas Portugueses, compos parte do seu poema imortal, inspirado neste pedaco de Portugal! Vinde ver as Reliquias do Passado quatro vezes secular, defendidas — com a ajuda de Deus — pelo heroi Coronel Mesquita, desde a mais humilde casita ate aos Ceus!... E . . . coneervadas no Presente — com tudo que e terrafirme e mais 0 mar — pelo nosso Grande Salazar!
E assim dareis, por bem empregado, tudo que deponhas neste "Toucado-de-Beleza , a beira-mar plantado, onde sereis recebida com galbardia por este Povo que so merece simpatia, pelos seus Feitos e Arte-de- Governar! Macau, Agosto de 1950.
A R R E P E N D IOM E N T Deixai passar essa mulher em desalinho que vai correndo para os pes da Cruz a implorar perdao junto de Jesus dos seus actos pecaminosos: — Nao lhe atireis inais pelras, nao a maltrateis",— dizia Algu6m de moral — "com esse grande sentimento, apasar de vir toda esfarrapaia, vem bam agasalhada nas dobras do Arrependimento"! E Jesus, condoido, ao ve-la assim desmaiada, voltando-si para as multidoes, disse: — "Venha a mim 0 primeiro que ainda nao pecagse". E como toda essa gante debandasse . . . , da Sua Grar;a tanta, fez, de Madalena, lima Santa. Macau, Agosto de 1950.
CONTRASTE Passar uma vida inteira a fazer Bem, conscience do3 deveres cumpridos que foram impostos em Jerusalem, e transpor as barreiras desta vida, calmo, safcisfeito e confiante para em tudo "morrer-bem" e assim aer Lembrado! Mas . . . passar uma vida inteira a ser ingrato de todo Aquele Bem assim servido, e transpor as barreiras desta vida para todo 0 sempre . . . Esquecido! Macau, Agosto de 1950.
E N V E L H EOC I D Quiserara Amigos meus que eu produzisse mais e mais para que este pequeno livro fosse aumentado, alegando, em seus coraqoes, que 0 meu espxrito estava remogado, era vista das minhas ultimas composigoes." Amizsdes que levo comigo. Bem quisera corresponded esta gentileza, mas, sentindo-me deveras cansado, desculpern-me. Dou aqui por terminado este meu modesto trabalho, que se do tinava somente aos meus. Queretn agora estss Amigos, dar-lhe vulto, para que da familia passe tambem para sua posse e de mais alguem: Simpatias. Acedo gostosamente, e a unica coisa que lhes pego em troca, como Amigo, e que, na Eternidada, deponham apenas uma "saudade" no meu jazigo! Macau, Agosto de 1950.
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