culturais, económicas, políticas e sociais”; tal como “a livre circulação da mercadoria determina a política do justo preço, também a livre circulação das informações determina a política justa”, exemplifica Alves, notando que, “assim definida, a liberdade de imprensa é evidentemente o fundamento de todas as outras” (Alves 2000, 37-38). Era um princípio plasmado no jornal A Abelha da China. Mas a sua defesa, desde os primeiros números, não se limitava ao exemplo da prática, à sua execução; os industriosos redatores devotavam-se, igualmente, a um esforço didático, cientes de que a educação dos leitores era o caminho mais seguro até ao destino desejado, e o mais proveitoso. Por outro lado, acreditava-se na força da demonstração, na clareza da evidência dos argumentos liberais. Não bastava apresentar “o melancólico quadro das fastidiosas sessões da antiga governança”, como se escrevia a 12 de Dezembro de 1822; era também “conveniente o começar a instruir o povo desta cidade”. Macau despertava para outro quadro cultural, outra mentalidade. A Abelha da China não era ainda “esse grande livro de todos os dias e quase todas as horas, em cujas páginas volantes colabora por mil formas a reportagem de todo o mundo” (Cunha 1941, 27), como Cunha descreve (no mesmo artigo do Boletim do Sindicato Nacional dos Jornalistas comemorativo) os jornais de feição mais moderna, mas a vanguardista publicação de Macau estava já munida do espírito e das palavras que iriam definir o futuro. A Abelha da China surge no seio de uma oposição política e, nesse sentido, é um clássico “quarto poder” — de crítica, denúncia, escrutínio, mas também de defesa dos valores próprios do seu campo ideológico, através da instrução, bem como por contraponto à postura que desaprovava no campo oposto. Este papel precursor da Modernidade em Macau é destacado no artigo de Cátia Miriam Costa incluído neste volume, que, por via de uma leitura atenta do jornal e das suas inovações — ao nível das ideias e das práticas, como a publicação de textos de opinião —, expõe os contributos para a introdução, no vetusto estabelecimento português, dos ideais liberais. Através de A Abelha da China, acede-se a uma realidade que “ajuda à construção de uma historiografia que vai para além das atas que ficaram consagradas como documentos oficiais”. Uma vez que estamos em terra de especificidades, a autora também nota que, “apesar de A Abelha da China constituir o que podemos denominar como imprensa colonial, este periódico tem a particularidade de permitir à elite colonial local construir um discurso político e difundi-lo na esfera pública, à revelia das orientações da administração colonial de então”. Mas esta construção, que Cátia Miriam Costa observa resultar nos primeiros movimentos identitários, está mais associada à reivindicação de maior autonomia e do que propriamente de uma independência. Nesse sentido, o jornal, publicado 9
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