991010299969006306

entre setembro de 1822 e dezembro de 1823, permite um retrato da elite colonial de Macau, que era, também, a elite económica e política, como o caso do famigerado Ouvidor tão bem atesta, e não se confinava à exiguidade do território. Noutro traço que também se pode considerar moderno, A Abelha abre as suas páginas como uma janela para o Mundo, indo além das questões internas de Macau, publicando notícias de outros territórios ou países, bem como traduzindo textos de jornais em língua inglesa, francesa e chinesa, oriundos de periódicos editados na Europa e na Ásia. O estabelecimento português concebia-se, assim, como um território em interação com o seu redor, e também com geografias mais distantes. Com efeito, refletindo o estatuto de empório, ainda que decadente, situado entre as margens de dois impérios, por ali circulam figuras, interesses e influências de todas as proveniências. As “redes de sociabilidade ultramarinas” são, precisamente, objeto da análise de Pablo Magalhães, que se focou nos indivíduos “que transitaram entre a América portuguesa e Macau, onde tiveram ativa participação no estabelecimento da Tipografia do Governo e na criação de A Abelha da China. No contexto da Revolução Liberal e Constitucional, o jornal serve como fio condutor para compreender as conexões entre as agitações políticas, seus agentes e impacto no Oriente português”. Neste contexto, destaca-se uma figura algo obscurecida pelo desinteresse da historiografia, Paulino da Silva Barbosa, baiano que, em Macau, viria a personificar o Liberalismo e conduziria os esforços rumo ao estabelecimento de uma imprensa no território — periódica e política. Quem foi este homem? Esta é a pergunta na origem do trabalho de Pablo Magalhães, o investigador que mais a fundo estudou o compatriota, sobretudo as suas origens e as suas motivações. Ao mesmo tempo que responde a algumas questões-chave da sua biografia, este é um trabalho que também assume relevância pelas interpelações que lança, bem como pelas hipóteses e pistas que deixa em aberto. Desde logo, quanto aos motivos para que Paulino da Silva Barbosa seja, ainda hoje, uma figura pouco estudada, à semelhança dos restantes elementos que compunham o núcleo da redação de A Abelha da China. O jornal, consequentemente, viria a padecer do mesmo mal. Na obra Ephemerides commemorativas da Historia de Macau e das relações da China com os povos christãos (1868), por exemplo, o exaustivo A. Marques Pereira simplesmente omite o nascimento de A Abelha da China, mas não se esquece de referir o surgimento do primeiro jornal da colónia britânica de Hong Kong. Em boa verdade, tal não deve surpreender; afinal, a história é escrita pelos vencedores, e os laboriosos redatores de A Abelha, pesasse embora estarem do lado da tendência que o tempo iria validar, acabaram por sair como os derrotados da sua particular história. Conforme Pablo Magalhães sugere, “opor-se à autoridade absolutista pode ter sido um dos motivos pelos quais a sua história tenha sido silenciada”. 10

RkJQdWJsaXNoZXIy NzM0NzM2