Mas o movimento no qual Barbosa se inseria, e do qual /I Abelha. viria a fazer parte, uma vez iniciado, muito dificilmente poderia ver a sua marcha terminada. Interrompida, sim. Por breves momentos, no curso infindo da História. É o que, hoje, nos é dado a observar, quando analisamos o caso de A Abelha da China, seus antecedentes e consequências. Neste ponto, é de salientar como Macau se enquadra num verdadeiro movimento global, a um mesmo tempo adstrito à lógica imperial e ao que poderia ser descrito como gene da sua desagregação, com reflexos também na forma como se processa a expansão dos prelos nas ilhas Atlânticas e nos entrepostos portugueses na Ásia, “diretamente vinculada às consequências da Revolução Liberal e Constitucional do Porto, que agitou, no ultramar português, as redes políticas e intelectuais, notadamente orientadas por agremiações e personagens ligados aos quadros da maçonaria”, assinala Pablo Magalhães, apontando para o facto de que esta expansão de parques tipográficos de orientação liberal ter acontecido por iniciativa de agremiações maçónicas. Esta era uma realidade a que Macau não era alheia, mas quando Paulino chegou a Macau para ingressar como professor na escola de pilotos, dominava ainda outra sensibilidade a que presidia — ou reinava, melhor dizendo —, o todo-poderoso Ouvidor Miguel José de Arriaga Brum da Silveira. Não é de admirar, portanto, que a publicação de A Abelha da China fosse considerada um “choque frontal e inevitável entre os simpatizantes da causa liberal e os seguidores do Ouvidor”, escreve Jorge Abreu Arrimar, autor de um artigo incluído neste volume no qual aprofunda a ação de um homem natural dos Açores, que chegou a Macau para dar azo a uma imensa ambição. Além de tutelar “tudo quanto era Administração”, Arriaga “muito cedo começou a esboçar e a elaborar projetos financeiros, sistema de impostos, ajudando mesmo a criar, em 1804, um sistema de contribuições diretas sobre certas mercadorias como o algodão e o ópio”, negócios nos quais se envolvia pessoalmente. Neste quadro, destaca Arrimar, “entre absolutistas e liberais, não se tratava apenas de um confronto ideológico, mas, também, um posicionamento pragmático de diferentes grupos de pressão locais. Do ponto de vista social e económico, estaremos perante uma oligarquia de poucos, mas importantes moradores, que, graças sobretudo ao comércio do ópio cru (anfião), conseguem regalias e títulos de nobreza, numa antecipação notável aos barões do liberalismo, que iriam proliferar em Portugal, a partir de 1822”. O Ouvidor sabia mover-se nestas águas, por vezes, agitadas, “afastando habilmente aqueles que com ele não se identificavam”. Impôs um sistema de “fidelidades”, como designa Arrimar, que lhe granjeou não só um campo de ação progressivamente mais vasto, como também permitiu “neutralizar qualquer oposição”. 11
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