É certo que a aventura liberal, durante um ano, fez parecer o contrário, mas o arco irregular que leva Arriaga ao poder, o demove e, depois, o reinstaura, dá bem a medida do quão intrincada era a trama colonial que se desenrolava em Macau, tradicional lugar de sofisticados jogos de sombras, aqui adensados por fumos de revolução. No final, ainda que o movimento conservador protegesse o seu peso — que, de algum modo, até saiu reforçado —, aA Abelha da China conseguiu ser, apesar do curto período em que se fez ouvir, um símbolo de resistência ímpar, uma voz insubmissa e corajosa”. Neste espírito, A Abelha inaugura, em Macau, uma visão não oficial das questões administrativas e políticas. Desse modo, enriquece o debate público do período no qual se insere, acrescentando-lhe vozes e matizes, nuances, ao mesmo tempo que vai consubstanciando um corpo que virá a ser determinante na obtenção de entendimento mais próximo daquela realidade. É esta a deixa na qual pega Tereza Sena, que, no trabalho apresentado neste volume, utiliza A Abelha da China como recurso historiográfico alternativo, como memória histórica, além dos documentos oficiais. Em concreto, a investigadora dedica-se à figura de um homem que contribuiu para o ambiente político que serve de enquadramento ao aparecimento do jornal, António dos Remédios, o nome de batismo deste chinês que viria a afirmar-se nos domínios dos negócios, como dono de navio, e da política, como Vereador do Leal Senado. Com este trabalho, pretende-se chamar a atenção para o caso de Macau, no que toca à forma “como as relações histórias e sociais no Império Português eram atravessadas tanto por questões étnicas, culturais e religiosas, e de diversidade, como pelas dinâmicas de fatores políticos, económicos e individuais”, assinala Tereza de Sena, apontando que esta abordagem seminal de Charles R. Boxer deixou de fora, conscientemente, o caso do estabelecimento português na costa chinesa (sendo que foram temas considerados demasiado sensíveis para boa parte da historiografia portuguesa, até recentemente). Como Sena acrescenta, o facto de Macau constituir um caso atípico no seio do Império Português não significa a rejeição de tais problemáticas no estudo da sua sociedade, mesmo que esse foco se limite aos confins da “Cidade Cristã”. É, precisamente, extramuros que se encontra o investigador que abre o volume, Jin Guoping. Um dos mais destacados estudiosos da Macaulogia, o académico presenteia-nos com uma valiosa, e inédita, resenha de uma bibliografia selecionada de estudos chineses sobre A Abelha da China. Assim se pode verificar como o impacto e interesse do primeiro jornal de língua estrangeira em solo chinês extravasou as exíguas fronteiras de Macau, ainda que nem sempre tenha conseguido superar as intangíveis barreiras da cultura e da língua. A esse propósito, Jin Guoping oferece-se para corrigir o que entende ser um equívoco que dura há demasiado 12
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