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INTRODUÇÃO Escrever sobre a China é sempre um ato de ousadia, pois a armadilha dos sentidos derruba com frequência as mais consistentes elaborações teóricas sobre esta civilização milenar. Sao muitos os milhões de páginas dedicadas ao Império do Meio, desde os primórdios da sua civilização ao contexto contemporâneo, das raízes ancestrais às maravilhas da modernidade. Há pilhas de livros, muitos livros, que tratam dos £tmundos da China" e das “muitas Chinas", dos olhares mais desconfiados pelos analistas céticos aos exaltadores das suas virtudes civilizacionais. Certamente nenhuma das abordagens estará fortemente errada, ainda que nenhuma esteja verdadeiramente certa. A China é precisamente isto, uma multiplicidade de incertezas de uma realidade em contínua construção, em que o que é, é quase sempre mais do que o que parece ser. Desafiando as advertências do Orientalismo de Edward Said, quisemos explorar alguns desses olhares sobre a China, apoiados em livros de escritores chineses e não chineses de referência (doravante t<escritores,,)) distribuídos entre o centro e a periferia de uma geografia construída. Fazemo-lo com a mesma voluntariedade e experimentação com que José Saramago levou o seu viajante a percorrer os caminhos lusos da sua Viagem a Portugal. Da ficção ao ensaio, da prosa à poesia, dos clássicos aos modernos, neste trabalho, juntaram-se dezoito coautores aficionados sobre as múltiplas realidades do Império do Meio (doravante <<coautoresn), para darem a sua visão sobre a China, numa articulação entre o que eles próprios viram e as perceções dos escritores dos livros que escolheram. Acima de tudo, este é um exercício de correspondência entre duas perceções, vividas e imaginadas, de lugares e tempos que marcaram quem para a China olhou. Em muitos sentidos, faz-nos lembrar as experiências invertidas do francês A.D. e do chinês Ling WY, personagens de Mairaux, que olharam para a China e a Europa, respetivamente, com laivos de confrontação. A viagem que nos propomos fazer é longa, a experiência fascinante. Olhamos para a China através de clássicos como o Yi/陷 salientado por Ana Cristina Alves, 7

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