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Olhar a China pelos Livros Coordenação Jorge Tavares da Silva 您

Olhar a China pelos Livros Jorge Tavares da Silva (Coordenação) Centro Científico e Cultural de Macau, LP. CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR 漢-职大學 UNIVERSIDADE DE MACAU UNIVERSITY OF MACAU

Título Olhar a China pelos Livros Coordenação Jorge Tavares da Silva Coleção Língua e Cultura Coordenação: Carmen Amado Mendes Autores Ana Cristina Alves António Caeiro António Graça de Abreu Carlos Rodrigues Carmen Lícia Palazzo Cláudia Ribeiro Cristina Zhou Francisco José Leandro Jiawei Xing Jorge lavares da Silva José Duarte de Jesus Luís Lavrador Miguel de Senna Fernandes Paulo Roberto de Almeida Ran Mai Ruirui Sun Sun Lam Xulio Rios Publicado por Centro Científico e Cultural de Macau, LR Rua da Junqueira, 30 1300-343 Lisboa - Portugal www.cccm.gov.pt I geral@cccm.gov.pt IbL (+351) 213617570 Universidade de Macau Avenida da Universidade, Taipa Macau - China www.um.edu.mo I info@um.edu.mo Tel. (+853) 8822 8833 Pré-impressão, impressão e acabamento Multitipo - Artes Gráficas, Lda. Tiragem 500 exemplares Lisboa I 2022 ISBN: 978-972-8586-57-7 Depósito Legal: 500 996/22 © lodos os direitos reservados

ÍNDICE INTRODUÇÃO ................................................................................................. ANA CRISTINA ALVES Yi Jingt o Clássico das Mutações.......................................................................... ANTÓNIO CAEIRO China em Dez Palavras - Yu Hua ..................................................................... ANTÓNIO GRAÇA DE ABREU Yuan Mei, Eighteenth Century Chinese Poet — Arthur \Ç^lcy .......................... CARLOS RODRIGUES Riding the Iron Rooster - Paul Theroux ............................................................ CARMEN LÍCIA PALAZZO The Soong Dynasty - Sterling Seagrave ............................................................. CLÁUDIA RIBEIRO The Man Who Loved China — Simon Winchester .......................................... CRISTINA ZHOU Momentos Curiosos da Vida num Apartamento - Eileen Chang .................... FRANCISCO JOSÉ LEANDRO A Concise History of the Communist Party of China - Hu Sheng .................. Little Soldiers: An American Boy, a Chinese School and the Global Race to Achieve - Leonora Chu............................................................................... JIAWEI XING Insight-]in^ Chai ............................................................................................... 5

JORGE TAVARES DA SILVA Terra Bendita - Pearl S. Buck............................................................................. JOSÉ DUARTE DE JESUS Tao Te Ching - Lao Zi ........................................................................................ LUÍS LAVRADOR Taste of Macau: Portuguese Cuisine on the China Coast— Annabel Jackson .. MIGUEL DE SENNA FERNANDES A Trança Feiticeira - Henrique de Senna Fernandes....................................... PAULO ROBERTO DE ALMEIDA A Arte da Guerra — Sun Tzu............................................................................... RAN MAI Uma Viagem Árdua pela Cultura — Yu Qiuyu.................................................. RUIRUI SUN Qin Qiang- Jia Pingwa ...................................................................................... SUN LAM A Importância de Viver - Lin Yutang ............................................................... XULIO RIOS Memória de un Naufragio - Juan Morillo Ganoza.......................................... 6

INTRODUÇÃO Escrever sobre a China é sempre um ato de ousadia, pois a armadilha dos sentidos derruba com frequência as mais consistentes elaborações teóricas sobre esta civilização milenar. Sao muitos os milhões de páginas dedicadas ao Império do Meio, desde os primórdios da sua civilização ao contexto contemporâneo, das raízes ancestrais às maravilhas da modernidade. Há pilhas de livros, muitos livros, que tratam dos £tmundos da China" e das “muitas Chinas", dos olhares mais desconfiados pelos analistas céticos aos exaltadores das suas virtudes civilizacionais. Certamente nenhuma das abordagens estará fortemente errada, ainda que nenhuma esteja verdadeiramente certa. A China é precisamente isto, uma multiplicidade de incertezas de uma realidade em contínua construção, em que o que é, é quase sempre mais do que o que parece ser. Desafiando as advertências do Orientalismo de Edward Said, quisemos explorar alguns desses olhares sobre a China, apoiados em livros de escritores chineses e não chineses de referência (doravante t<escritores,,)) distribuídos entre o centro e a periferia de uma geografia construída. Fazemo-lo com a mesma voluntariedade e experimentação com que José Saramago levou o seu viajante a percorrer os caminhos lusos da sua Viagem a Portugal. Da ficção ao ensaio, da prosa à poesia, dos clássicos aos modernos, neste trabalho, juntaram-se dezoito coautores aficionados sobre as múltiplas realidades do Império do Meio (doravante <<coautoresn), para darem a sua visão sobre a China, numa articulação entre o que eles próprios viram e as perceções dos escritores dos livros que escolheram. Acima de tudo, este é um exercício de correspondência entre duas perceções, vividas e imaginadas, de lugares e tempos que marcaram quem para a China olhou. Em muitos sentidos, faz-nos lembrar as experiências invertidas do francês A.D. e do chinês Ling WY, personagens de Mairaux, que olharam para a China e a Europa, respetivamente, com laivos de confrontação. A viagem que nos propomos fazer é longa, a experiência fascinante. Olhamos para a China através de clássicos como o Yi/陷 salientado por Ana Cristina Alves, 7

que nos revela uma sintonia de trigramas, um toque oriental que orienta o homem para uma certa posição no mundo. Com isto, abre-se uma dinâmica de confrontação, a filosofia que ao ocidente é dada às criaturas humanas com aquela que é transmitida nas longínquas terras do Oriente. Do Tao 互 Ching, trazido por José Duarte de Jesus, sente-se o esforço das boas ações, um tratado de filosofia moralista que orienta o comportamento para o sentido certo. Pelos caminhos milenares do pensamento chinês, a Arte da Guerra de Sun Tzu é obra tamanha que não podia ser esquecida. Sugerida por Paulo Roberto de Almeida, lembra que a estratégia alcança com este texto um altíssimo significado que hoje serve para avaliar os tormentos entre as nações. O coautor dá uma nova vida a Sun Tzu, torna-o contemporâneo, cobre-o com o manto da República Popular, transporta-nos para uma dimensão paralela entre o passado e o presente. No empreendimento que aqui nos propomos fazer, a arte tem um lugar cativo, incluindo as melodias soltas pelos instrumentos de música tradicionais, a pintura laboriosa ou a poesia emotiva. Aqui e acolá os escritores das obras escolhidas abordaram estas dimensões estéticas, cultivadas ao longo de séculos por músicos, pintores e poetas. António Graça de Abreu é um dos coautores desta obra que apontou para a dimensão artística chinesa, agarrou-se com afinco às subtilizas da poesia ancestral. Yuan Mei foi o plantador de palavras escolhido, que também às telas deu significado, casamento feliz entre a explosão de cor na pintura e o requinte das palavras na poesia. Ruirui Sun leva-nos ao mundo da ópera numa viagem inesquecível que se interliga com a antiquíssima cidade de Xian. Através desta coautora, conseguimos explorar o "esplendor da história e as vicissitudes da vida" nas ruas milenares de Xian, tendo como referência o livro Qin Qiang de Jia Pingwa. Entra­ -se no universo dos usos e costumes das gentes e particularmente o meio cultural que envolve a música e a ópera, uma herança quase genética do povo de Shaanxi. Da esfera da ciência chega a proposta de olhar a China pelos livros por Cláudia Ribeiro. The Man Who Loved China de Simon Winchester é o exemplar proposto, que por sua vez se debruça sobre o sinólogo Joseph Needham, que a coautora refere como “um homem que tem uma pergunta [no] nome". Figura lendária que procurou destrinçar com obsessão os veios do saber antigo, do mais elementar utensílio chinês às mais elaboradas composições físicas e químicas. A ciência, o conhecimento, o ensino e a educação são na China uma das essências da sua civilização. Confiicio assim o salientou: "se nao sabes, aprende; se já sabes, ensina”. Foi por um prisma paralelo que Francisco José Leandro nos levou a olhar para o Império do Meio, ou seja, pelos caminhos do conhecimento e da educação. Fá-lo através da combinação de duas obras: Concise History ofthe Communist Party ofChina} editada por Hu Sheng e Little Soldiers: Z〃 American Boy, a Chinese School and the Global Race to Achieve, escrito por Leonora Chu. Do pasmo que se nos depara da realidade dos indicadores socioeconómicos da China atual, este coautor procura mostrar-nos 8

o percurso da China feudal, fechada em si mesma, para uma China global, onde o sistema de ensino-educação está no epicentro da sua visão transformadora. Segue o viajante para outras dimensões do mundo chinês, muito para além da grandeza filosófica, da cosmologia, estratégia, da ética ou da moral. Porque não pegar em dez palavras e partir para a China profunda, captar-lhe algumas das noções que lhe estão na essência e meditar sobre elas. Fizemos isso, mas também olhámos para a sua matriz civilizacional, apuramos o que mais lhe toca nas profundezas: a terra e a família. Olhar para a China obriga a refletir sobre estas duas realidades, tudo gira a partir deste centro gravitacional, a terra que se pisa, os homens e as mulheres, os novos e os velhos, a sorte e o azar, os ricos e os pobres. Tudo isto aparece retratado na Terra Bendita de Pearl S. Buck, livro sugerido por Jorge Tavares da Silva, que nos obriga a estabelecer um paralelismo entre o passado e o presente. Os sabores da terra são uma das expressões que melhor ligam aqueles que um dia chegaram ao extremo oriental do mundo e aqueles que os receberam. Nas primeiras décadas do século XX, não haveria outra cidade chinesa com tanto charme como Xangai. Agitada por gentes de todo o mundo, comerciantes, aventureiros e bandidos, viveu tempos de excitação e sobressalto, que merece que o viajante se demore a olhar para ela com atenção. Cristina Zhou leva-nos a esse tempo através das palavras de Eileen Chang no seu livro Momentos Curiosos da Vida num Apartamento, que tem o título internacional de Love in a Fallen City, Como escreve a coautora, esta cidade é um eixo onde gravita o "equilíbrio e o desequilíbrio", a calma e os excessos, de difícil incompatibilidade. Mas esta é uma das essências da China, os inevitáveis paradoxos que lhe estão na essência de uma certa normalidade. É uma terra de muitas aventuras, desventuras, emoções e paixões, que escritores como Somerset Maugham tão bem conseguiram retrata匚 Mas também de desespero, sofrimento, serviu de exílio a muitos que precisavam de resolver assuntos da justiça, amores não correspondidos ou, simplesmente, afugentados pelas anomalias da política. Assim aconteceu com Juan Morillo Ganoza, que do Peru entra na Pequim em ebulição dos inícios dos anos 90, cidade de todos os ruídos à procura de uma fuga para o desenvolvimento. As angústia de Umberto Soto, a personagem central de Memória de un Naufragio, livro sugerido por Xulio Rios, dá-nos o mesmo olhar que Ganoza teve sobre a China, uma mistura perfeita entre a ficção e a realidade. Com o mesmo propósito de misturar o real e o imaginado, surge o iivro Trança Feiticeira de Henrique de Senna Fernandes, retratado por Miguel de Senna Fernandes, tão bem como só um filho o sabe fazer. De novo os anos 30, época de múltiplas vivências e convivências, sentidas emoções, desta vez com um olhar entre Macau e a China continental. Tal como no Amor e Dedinhos de Pé, Senna Fernandes envolve-nos com uma história de amor, que serve de base para uma entrada a fundo no universo social e cultural chinês daquela época. 9

Noutro texto, Jiawei Xing leva-nos à China através do livro InsightÁe, Jing Chai, não escondendo a comoção que lhe causaram os episódios descritos pela escritora durante a epidemia da Síndrome respiratória aguda grave (SARS), propagada no país em 2003. As palavras de Jing Chai foram um guia para Jiawei Xing, confrontada com uma realidade semelhante durante os piores momentos da epidemia da COVID 19, em 2020. Antes do mundo, a China parou, entrou no que esta coautora chama de "guerra sem fumo,,J de um inimigo invisível, em que o centro das atenções se viraram para Afiguras brancas em fetos protetores" que tudo faziam para salvar vidas. Este é um olhar para a China pelo prisma da determinação, que marcou os momentos mais difíceis desta antiquíssima civilização. Sun Lam olhou para a sua China pelo prisma de Lin Yutang, num dos seus trabalhos mais emblemáticos: A Importância de Viver. Como refere esta coautora: “Não me lembro de ter lido outro livro que me tenha tocado tão profundamente, designadamente sobre o que significa «ser chinêsn. Lin Yutang denotava grande respeito pelo conhecimento livresco, quase que serve de inspiração para o presente trabalho. Lembrava que “sábio que lê livros, também lê a vida", o grande universo era para ele um grande livro, e simultaneamente uma escola com que todos podemos aprender. Que belo exercício de meditação sobre o sentido e os prazeres da vida, explorando tanto a arte em se fazer coisas úteis como a arte em não se fazer coisa nenhuma. Com um toque finíssimo de humor, a escrita de Lin funciona como um alerta para os pequenos prazeres tantas vezes descuradas na lufa-lufa do dia-a-dia. Com Ran Mai olhamos para a China através da obra Uma. viagem árdua pela cultura de Yu Qiuyu, "recobrindo aspetos da História, cultura e mentalidades do povo chinês,5, como escreve a coautora. As viagens de Yu Qiuyu pela China são para esta coautora uma inspiração, uma "necessidade irreprimível de percorrer aquela terra imensa para experimentar, com os olhos e com o coração, a emoção direta5 da aterra silenciosa" que tanto diz. Em Taste of Macau, Annabel Jackson, livro sugerido por Luís Lavrador, aviva-se o que dos contactos dos homens de quadrantes tão díspares resultou em alimento partilhado. Os sentidos foram os coadores que em primeiro lugar filtraram as ondas civilizacionais alheias, os que reproduziram estranheza, pasmo ou satisfação na hora do embate. A viagem segue, e o viajante continua entusiasmado. Quer entrar nas profundezas geográficas de uma China plena de contrastes. Paul Theroux convida a uma viagem de comboio com o Riding the Iron Rooster, um rasgo literário pelas artérias ferroviárias do gigante asiático, num misto de sucessões e emoções. Foi o desafio que Carlos Rodrigues trouxe para esta obra coletiva, um salto meditativo sobre as vivências de Theroux e a China atual, onde as rotas, vias e corredores são uma das suas principais marcas. Uma nota final para um agradecimento a todos os coautores que participam neste trabalho, sem os quais o projeto nao seria possível de realizar. Salientando 10

também que procurámos respeitar a grafia original e a vontade dos criadores dos capítulos, tanto de textos com português do Brasil ou de Portugal, escrita antiga e moderna, consoante os casos, na sequência do novo acordo ortográfico. A arrumação dos textos seguiu o critério da ordem alfabética através dos nomes dos coautores. Também um agradecimento ao Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) por ter acolhido e publicado esta obra, na figura da sua presidente, Doutora Carmen Amado Mendes. À fomília, à minha mulher, Débora Lopes e ao meu filho, Tamás Tavares, o indispensável aconchego do ninho que facilita o labor de mil e uma construções. Jorge lavares da Silva Aveiro, 6 de dezembro de 2021 11

A China é uma erupção civilizacional trespassada por múltiplas dimensões espaciais, sociais e culturais. Olhá-la representa sempre um processo inacabado, contagiado por perceções subjetivas e contradições. A certeza da incerteza, a angústia do incompreendido são algumas das dimensões que a tornam aliciante na prática da decifração. O estímulo levou a que, ao longo dos séculos, muitos autores se dedicassem a escrever sobre esta terra, as suas gentes, o pensamento e comportamento coletivo, os usos e costumes. São estas obras, as clássicas e as modernas, entre a ficção e o ensaio, a prosa e a poesia, que aqui olhamos, num exercício de confrontação entre uma China sonhada e uma China vivida. Lançámos o repto a dezassete autores para que escrevessem sobre a “sua China", em sintonia, exposta em obras de referência. Desafiando as advertências do Orientalismo, de Edward Said, procura-se explorar a dialética dos não chineses, publicação sobre apreensões ou emoções vivenciadas no Império do Meio. Trata-se de uma tentativa de correspondência, entre duas quem a olhou, com a visão de quem a está a olhar. O desafio faz-nos lembrar as experiências do francês A.D., na China, e do chinês Ling WY., na Europa. Estas personagens, nascidas da escrita fina de Malraux, sujeitaram-se ao embate da cultura do “outro", e, assim, exprimiram por correspondência os palpites da alma com laivos de imaginação. ISBN 978-972-8586-5 7-7 Coleção Língua e Cultura 7897205 86577"〉 9

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