INTRODUÇÃO Crioulo de Macau: língua morta, viva ou morta-viva? Nas últimas décadas, com a independência das antigas colónias europeias e a consequente emergência dos Estados pós-coloniais, tem-se desenvolvido um interesse crescente, tanto a nível académico como popular, relativo ao legado cultural das mesmas colónias. Este interesse e gosto pela diversidade têm levado a uma clara valorização de culturas e línguas até então analisadas de uma perspectiva eurocênrrica e consequentemente discriminadas, já que, caso se considere a Europa como o ponto de referência cultural, tudo o resto tenderia a ser “anormaT e Udefeituoson. Foi o que aconteceu durante o período marcado pela tendência que Edward Said (2003, primeíramente publicado em 1978) celebremente apelidou de Orientalismo,1 a tendência de as culturas europeias imperialistas se representarem a si próprias de um modo positivo e superior e de representarem as culturas colonizadas de modo negativo e inferior.2 É neste quadro que se insere o caso da comunidade macaense e da sua língua, o crioulo de Macau. 1 O termo é muito anterior a Said. O que o auror fez foi sobretudo dar-lhe uma nova acepção. Anteriormente, o termo possuía uma conotação mais positiva do que pejorativa. A primeira referência ao termo conhecida em Portugal surge no Grande Diccionario Portu^iez 0〃 Thesouro ãa Lírica Portugueza de 1873. Poucos anos depois, Zófimo Consiglieri Pedroso (1898), definiu-o como o estudo do Oriente por parte de whomens europeus eruditos", asserção que, hoje em dia, não deixaria de colocar problemas a qualquer autor que pretenda analisar o orientalismo à luz dos estudos pós-coloniais. Criticam-se, até com frequência, autores nativos pós-coloniais por estes também serem simplesmente homens "eruditos/as" nas tradições de saber ocidentais. Sobre o orientalismo em Portugal, ver MACHADO, Everton (2018), O Orientalismo Português e as Jornadas /e Tomás Ribeiro: Caracterização de um Problema, Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal. 2 Um termo com tonalidades oriental is tas que muitas vezes encerra esta mesma representação é o próprio termo Oriente. Neste texto, opto pelo termo mais neutro Ásia. A questão da classificação linguística, embora muitas vezes pautada por parâmetros tão bem definidos e <<científicos^^ como os relativos às espécies biológicas, não deixa de ser influenciada por motivações epistemológicas e ideológicas, firuto 13
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