O Latinórum na Tóri di Babel Humor e Língua na Literatura em Crioulo de Macau Centro Científico e Cultural de Macau, LR CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR João Pedro Oliveira
O Latinórum na Ibri di Babel: Humor e Língua na Literatura em Crioulo de Macau João Pedro Oliveira Centro Científico e Cultural de Macau, I.P. CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR UNIVERSIDADE DE MACAU UNIVERSITY OF MACAU
Título 。Latinórum na Tóri di Babel: Humor e Língua na Literatura em Crioulo de Macau Coleção Língua e Cultura Coordenação: Carmen Amado Mendes Autor João Pedro Oliveira Publicado por Centro Científico e Cultural de Macau, LR Rua da Junqueira, 30 1300-343 Lisboa - Portugal www.cccm.gov.pt | geral@cccm.gov.pt Tel. (+351) 213617570 Universidade de Macau Avenida da Universidade, Taipa Macau - China www.um.edu.mo | info@um.edu.mo TH. (+853) 8822 8833 Pré-impressão, impressão e acabamento Multitipo - Artes Gráficas, Lda. Tiragem 800 exemplares Lisboa | 2024 ISBN: 978-972-8586-64-5 Depósito Legal: 528 122/24 © Tados os direitos reservados
ÍNDICE Agradecimentos .......................................................................................................... 7 Convenções ortográficas .......................................................................................... 9 Abreviaturas................................................................................................................. 11 Introdução: Crioulo de Macau: língua morta, viva ou morta-viva? ........ 13 Capítulo 1: Império do Meio à Beira-mar Plantado: História(s), sociedade(s) e língua(s) de Macau....................................... 23 Ünde ta vai Macauh Contextualizaçâo histórico-cultural........................... 23 Nhum Velo: As etnias de Macau..................................................................... 27 Dóci Papiaçámx As línguas de Macau............................................................ 37 Capítulo 2: A Metamorfose de Camões: Textos e Contextos em Crioulo de Macau................................................ 53 Carta ao Filo di Macau: As fontes literárias ................................................. 53 Dialecto macaense, maquista chapado, crioulo de Macau: As fontes académicas ................................................................................ 69 Capítulo 3: Brincando com Coisas Sérias, Sendo Sério com Brincadeiras: O Humor......................................................................... 81 Qual é a Graça?: Especulando Sobre o Humor .......................................... 81 1) Está Bem Visto, Sim Senhor: Teoria da Incongruência ......................... 85 2) Mesmo no Alvo: A Teoria da Superioridade .......................................... 88 3) Entabulando os Tabus: A Teoria do Alívio .............................................. 93 Para que fique registado: Súmula das Três Teorias Clássicas do Humor ... 95 5
4) Verborreicas Modernices: A Teoria do Humor Semântico Baseado no Script..................................................................................... 96 5) A Vida, o Universo e Tudo: A Teoria Geral do Humor Verbal ........... 100 Estás a Brincar ou a Falar a Sério?: Estrutura Linguística da Anedota ..... 101 E Agora, Para Algo Completamente Diferente: Criatividade e Cultura ... 105 Capítulo 4: Num tém Graça: Análise do Corpus Literário em Crioulo de Macau....................................................................................... 113 Saíste-me Cá Uma Personagem: As Personagens-Tipo do Imaginário Narrativo Macaense.................................................................................. 113 Remendando a Língua de Trapos: Caricaturas linguísticas ........................ 122 Ve lá como falas da minha fala!: Atitudes Linguísticas............................... 135 O Estilo de se Fazer Má Figura com Boas Figuras de Estilo ..................... 144 É a Penúltima vez que te aviso!: A Ideia da Repetição ............................... 159 Tem Cuidado com a Língua: Temas e Léxico Cultural do Crioulo de Macau ................................................................................................... 166 De Macau para o Infinito e Mais Além: O Léxico Humorístico do Crioulo de Macau ............................................................................... 174 Conclusão: A Ficção de Macau e a Fixaçáo de Macau.................................. 193 Bibliografia .................................................................................................................. 203 Apêndice I: lermos Não-Portugueses do Crioulo de Macau ....................... 214 índice Remissivo........................................................................................................ 333 6
AGRADECIMENTOS Este livro baseia-se na dissertação de mestrado em Linguística Geral defendida em 2018 na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, l<Tori di Babel: Humor e Língua na Literatura em Crioulo de Macau” (Oliveira, 2018), que aqui se apresenta numa nova versão revista e alargada. Este novo trabalho não teria sido possível sem a ajuda de algumas pessoas e instituições. Os meus agradecimentos vão, em primeiro lugar, para o Pro£ Hugo Cardoso, que orientou a minha dissertação de mestrado na sua versão original. Agradeço também ao ProE António Eduardo Hawthorne Barrento pela sugestão do tema. O ProE Luís Filipe Thomaz, com quem trabalhei num projecto de investigação relacionado com a presença portuguesa na Ásia, ajudou-me a reflectir sobre o legado histórico e linguístico de Portugal na Ásia e vice-versa, incluindo em Macau. Em último lugar, gostaria de agradecer ao Dr. Mário Matos dos Santos e à Fundação Casa de Macau, assim como às Doutoras Carmen Amado Mendes e Ana Cristina Alves e ao Centro Científico e Cultural de Macau por, desde o início, terem manifestado interesse neste projecto. Agradeço ainda ao revisor deste texto, cujas notas e correcçóes foram muito úteis para que eu repensasse e melhorasse vários pontos. A nível pessoal, queria agradecer a toda a minha família, mas especialmente aos meus pais por, desde a infância, terem aprovado e promovido os meus vários e diversificados interesses. Agradeço especialmente ao meu pai, pela revisão incansável e necessariamente rápida de todo este texto. Por fim, agradeço à Zhou Shenglan por não ter levado a mal que, muitas vezes, eu tenha passado mais tempo com livros e com estas páginas do que com ela. João Pedro Oliveira 11 de Fevereiro de 2023, Lisboa 7
CONVENÇÕES ORTOGRÁFICAS Ao longo deste texto, transcrevo termos de várias línguas que nâo utilizam o alfabeto latino. Para o caso de línguas que utilizam hoje em dia o mesmo alfabeto ou suas variações, limitei-me a transcrever os termos originais. Exemplo disso sâo o malaio/indonésio, para o qual utilizo a ejaan baru, a ortografia hoje utilizada na Indonésia, e o filipino (tagalo), para o qual uso a ortograpiyangpambansa. Embora não utilize o alfabeto latino, o caso do japonês também é incontroverso. Utilizo o sistema de Hepburn, de uso generalizado. O caso das línguas siníticas é mais problemático, uma vez que, pelo menos para o mandarim e o cantonês, existe mais do que um sistema de transcrição comummente utilizado. Para o caso do mandarim, utilizam-se frequentemente o 拼音 pinyin, <<pinyin, e o sistema Wade-Giles. Para o caso do cantonês, utilizam-se frequentemente o 粤拼力“Z6/»,吧,“jyutping” e o sistema de ^1 巳 Como a questão tonal é de extrema importância para qualquer uma destas línguas, optei por escolher o sistema que, a meu ver, melhor representa os tons. No caso do mandarim, tal escolha é facilitada pelo facto de o sistema V^de-Giles não representar os tons de todo, enquanto o pinyin representa os cinco tons através de quatro sinais dia- críticos. Além disso, o uso do pinyin parece-me justificado por este ser o sistema oficialmente adoptado pela China, pelo que muitos alunos da língua conhecerão somente este sistema. No caso do cantonês, que possui seis tons distintos, optei peio jyutping, mais directo e facil de aprender, uma vez que utiliza apenas os numerais de um a seis para indicar qual o tom, enquanto que o sistema de Yale utiliza apenas três diacríticos e o seu uso em conjunto com a letra latina h para distinguir entre os seis tons. As línguas chinesas apresentam ainda um problema adicional: o 启cto de o mandarim utilizado na China continental utilizar os caracteres simplificados (曾 tê字) e o de o cantonês utilizar ainda os caracteres tradicionais (繁tf 字).O fecto de os caracteres tradicionais terem sido utilizados durante a grande maioria da história 9
da China, de serem ainda usados no mandarim de Taiwan, e de grande parte dos chineses, mesmo que tenham aprendido a ler e a escrever com caracteres simplificados, serem capazes de ler também os tradicionais, ainda que tenham dificuldade em escrevê-los, levou-me a optar pela sua utilização. 10
ABREVIATURAS Can. — cantonês Con.-mar. - concanim-marata Fil. - filipino (tagalo) Hin. - hindustânico (hindi/urdu) Hol. - holandês Ing. — inglês Mal. — mal aio Sân. - sânscrito TA — Teoria do Alívio Tâm. — tâmul TGHV - Teoria Geral do Humor Verbal THSS - Teoria do Humor Semântico Baseado no Script TI - Teoria da Incongruência TS — Teoria da Superioridade 11
INTRODUÇÃO Crioulo de Macau: língua morta, viva ou morta-viva? Nas últimas décadas, com a independência das antigas colónias europeias e a consequente emergência dos Estados pós-coloniais, tem-se desenvolvido um interesse crescente, tanto a nível académico como popular, relativo ao legado cultural das mesmas colónias. Este interesse e gosto pela diversidade têm levado a uma clara valorização de culturas e línguas até então analisadas de uma perspectiva eurocênrrica e consequentemente discriminadas, já que, caso se considere a Europa como o ponto de referência cultural, tudo o resto tenderia a ser “anormaT e Udefeituoson. Foi o que aconteceu durante o período marcado pela tendência que Edward Said (2003, primeíramente publicado em 1978) celebremente apelidou de Orientalismo,1 a tendência de as culturas europeias imperialistas se representarem a si próprias de um modo positivo e superior e de representarem as culturas colonizadas de modo negativo e inferior.2 É neste quadro que se insere o caso da comunidade macaense e da sua língua, o crioulo de Macau. 1 O termo é muito anterior a Said. O que o auror fez foi sobretudo dar-lhe uma nova acepção. Anteriormente, o termo possuía uma conotação mais positiva do que pejorativa. A primeira referência ao termo conhecida em Portugal surge no Grande Diccionario Portu^iez 0〃 Thesouro ãa Lírica Portugueza de 1873. Poucos anos depois, Zófimo Consiglieri Pedroso (1898), definiu-o como o estudo do Oriente por parte de whomens europeus eruditos", asserção que, hoje em dia, não deixaria de colocar problemas a qualquer autor que pretenda analisar o orientalismo à luz dos estudos pós-coloniais. Criticam-se, até com frequência, autores nativos pós-coloniais por estes também serem simplesmente homens "eruditos/as" nas tradições de saber ocidentais. Sobre o orientalismo em Portugal, ver MACHADO, Everton (2018), O Orientalismo Português e as Jornadas /e Tomás Ribeiro: Caracterização de um Problema, Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal. 2 Um termo com tonalidades oriental is tas que muitas vezes encerra esta mesma representação é o próprio termo Oriente. Neste texto, opto pelo termo mais neutro Ásia. A questão da classificação linguística, embora muitas vezes pautada por parâmetros tão bem definidos e <<científicos^^ como os relativos às espécies biológicas, não deixa de ser influenciada por motivações epistemológicas e ideológicas, firuto 13
de circunstâncias temporais e espaciais. O critério de distinção entre duas línguas é de estas serem ou nâo mutuamente inteligíveis quando os intervenientes não têm qualquer instrução ou talvez exposição constante face a uma outra língua. Muitas vezes, porém, as fronteiras da nação são frequentemente tomadas também como fronteiras linguísticas. Na China, considera-se que se fala "chin6s”,embora muitos “diakctos" chineses sejam completamente ininteligíveis entre si, como o são o mandarim e o cantonês, que, obviamente, constituem provavelmente os dois ítdialectos,> mais conhecidos pelo público-geral. Mais mutuamente inteligíveis são o português e o espanhol,3 se bem que, possivelmente devido à já relativa antiguidade da separação política das nações de Portugal e de Espanha, estas sejam consideradas línguas diferentes. Outros exemplos histórica, cultural e linguisticamente próximos a Macau seriam os do malaio e do indonésio, duas línguas independentes associadas aos respectivos estados-naçâo, mas inteligíveis entre si. Em suma, a definição de termos como “língua" ou <<dialectow encontra-se emocionalmente associada a questões de identidade e de política, o que torna a sua classificação "cierHÍfkíT mais ambígua. 3 Refiro-me ao castelhano, galego, catalão e talvez ainda ao occitano aranês, asturo-leonês e aragonês. A precisão também poderia ser aplicada ao 'português* e possivelmente a qualquer língua nacional que se considere homogénea. Em Portugal, falam-se também outras línguas e dialectos com diferentes níveis de reconhecimento oficial, estando o mirandês. o barranquenho, o minderico e o calo entre os mais conhecidos. Ver https://observalinguaportuguesa.org/o-ethnologue-encontra-dez- -linguas-em-portugal/ (acedido a 17/6/2022). 4 Para uma discussão relativa ao trabalho de investigação de Batalha e o 'colonialismo tardio", ver Pires e Nunes (2017). Esta discussão verifica-se também num plano temporal. Em 1977, pouco depois da Guerra Colonial Portuguesa (1961-1974) e da Revolução dos Cravos (1974), a linguista Graciete Nogueira Batalha (1988, primeiramente publicado em 1977) publicou o seu Glossário do dialecto macaense', notas linguísticas, etnográficas, e folclóricas. O uso do termo dialecto parece indicar que o crioulo de Macau não é uma “língua” e que este será apenas uma variedade da língua portuguesa. O uso de termos como Ketnográficasw e í<folclórÍcasM indicia também alguma marginalidade, uma vez que tais termos se costumam referir a fenómenos periféricos e não centrais. A definição de Batalha surge ainda associada a um pensamento colonialista e saudosista segundo o qual Macau e a sua cultura surgem como uma “subespécie" periférica e popular da cultura portuguesa central e urbana.4 De qualquer modo, a atitude de Graciete Batalha é mais “moderna" e aceitadora da diferença do que, por exemplo, a do sinólogo Manuel da Silva Mendes (1867-1931) (apud Gaiâo, 2010: 29), que defendia que o crioulo de Macau nem sequer era um dialecto, mas somente um "português estragado pelo contacto com a língua chinesa”. Em 2001, quando o advogado e linguista macaense Miguel de Senna Fernandes e o linguista australiano Norman Alan Norman Baxter (2004, primeiramente 14
publicado em 2001) publicaram Maquista Chapado: Vocabulário e Expressões do Crioulo Português de Macau, chamaram ao seu objecto de estudo “Crioulo Português de Macau*. Hoje em dia, “crioulo" é um termo com uma conotação mais positiva do que “dialecio”. No entanto, a relação com Portugal ainda está presente, visto que se define claramente que este crioulo é “português”,embora neste caso o uso deste adjectivo não possua qualquer conotação colonialista. A mais recente tentativa de dicionarizar o crioulo é o Dicionário do Crioulo de Macau: Escrita de Adé em Patua^ do linguista Raul Leal Gaião (2019). Neste caso, o objecto de estudo é simplesmente chamado de Kcrioulo de MacauM. A referência a Portugal desapareceu, tornando assim o crioulo, nâo simplesmente um legado da cultura portuguesa, mas unicamente um legado da cultura macaense. O outro termo, patuá, que se refere especificamente a este crioulo, era no tempo colonial um termo pejorativo. Ao contrário do termo “dialecto”,este passou a ter uma conotação positiva. Embora hoje em dia a avaliação do crioulo de Macau seja mais positiva do que no passado e este não seja apenas visto como uma variedade defectiva do português normativo, seria insensato supor-se que este constitui uma língua completamente independente do português e de outras línguas de contacto. A definição crioulo significa que, gramaticalmente, a língua em questão partilha uma série de semelhanças estruturais com outras línguas de contacto que surgiram principalmente em contexto colonial. Por sua vez, base lexical portuguesa^ significa que grande parte do léxico deste crioulo provém da língua portuguesa. A existência de vocabulário de outras línguas europeias e asiáticas, de arcaísmos e regionalismos portugueses e de estruturas gramaticais diferentes das do português padrão não significam que, na maioria dos casos, o crioulo de Macau seja ininteligível para falantes de português normativo. Embora, devido à dificuldade em se ensinar a norma do português, o crioulo de Macau renha perdurado durante séculos, a implantação de políticas de educação, as diferentes influências linguísticas e, mais recentemente, o desenvolvimento das tecnologias de informação e de comunicação fizeram com que o crioulo acabasse por, em diferentes momentos, ser substituído por línguas como o português, o cantonês ou o inglês. Porém, a etnia macaense perdurou e existe ainda. Esta já nâo utiliza o crioulo com o mesmo vigor do passado, mas este subsiste como um forte elemento de formação identitária. Se no período colonial a comunidade macaense era uma comunidade subalterna subordinada às pretensões hegemónicas portuguesas, no período pós-colonial tornou-se numa comunidade independente de pleno direito. Na China» tem-se verificado a uma política dupla e ambígua de 5 Termos sublinhados ao longo de todo o texto têm uma entrada no Apêndice I. 15
homogeneização e valorização das minorias.6 Por um lado, o estado chinês reconhece 55 minorias étnicas e reserva-lhes várias benesses a nível social. Segundo esta lógica de diferenças culturais, minorias que são consideradas como constituindo apenas um grupo poderiam também ser divididas em grupos mais pequenos. Este sistema classificativo parte principalmente de uma diferenciação cultural entre o grupo étnico maioritário (HàQ e os grupos minoritários. Por outro lado, o facto de o estado chinês ser fortemente centralizado e apostar no aliciamento económico como instrumento dessa centralização tem conduzido a uma política de homogeneização cultural e de apropriação de fenómenos culturais minoritários como parte integrante da cultura da maioria. Tais políticas têm o propósito duplo de se criar um sentido de nação e de silenciar possíveis vozes de oposição à construção desse sentido. 6 Ver HEBERER, Thomas (1989), China andIts NationalMinorities: Autonomy or AssimiUtion^ Londres: Routledge; MACKERRAS, Colin (2003), Chinas Ethnic Minorities and Globalisation, Londres: Routledge; GLADNEY, Dru C. (2004), Dislocating China: Reflections on Muslims, Minorities, and Other Subaltern Subjects, Hong Kong: C. Hurst & Co.; BHALLA, A. S & LUO, Dan (2013), Poverty and Exclusion of Minorities in China and índia, Cham: Palgrave MacMillan; LI, Xlaobing e SHAN, Patrick Fuliang (2015), Ethnic China: Identi» Assimilation and Resistance, Lanham: Lexing- ton Books. 7 https://plataformamedia.com/2022/03/09/lok-po-quer-melhor-integracao-dos-macaenses-na- -nacao-chinesa/ (acedido a 6/11/2022). 8 https://www.plataformamedia.com/2022/03/10/comunidade-macaense-sempre-fez-parte-da- -nacao-chinesa/ (acedido a 6/11/2022). Macau encontra-se neste momento numa fase de transição política e cultural de afastamento relativamente a Portugal e integração na China. Porém, a comunidade macaense nâo é reconhecida como uma das 55 minorias da China, apesar de esta ser culturalmente distinta dos Hàn e de qualquer outra minoria étnica. Em 2022, Lok Po, director do jornal Ou Mun (nome cantonês de Macau, 澳『另 Ou^mun2) e representante de Macau na Assembleia Popular Nacional em Pequim, defendeu uma melhor integração da comunidade macaense na wfa.mí- lia da nação chinesa". Tal significa que, idealmente, a comunidade deveria ser considerada tão distinta como semelhante a outros grupos étnicos chineses.7 Em resposta a Lok Po, Miguel de Senna Fernandes considerou que, enquanto a comunidade macaense é claramente distinta de qualquer outra com a qual tenha mantido ou mantenha contacto, esta sempre fez parte da nação chinesa, motivo pelo qual nâo deve ser considerada uma minoria oficial.8 Tanto Lok Po como Miguel de Senna Fernandes concordam no argumento mais profundo e discordam no mais superficial, que é aquele que tem maiores implicações políticas. Deste modo, apesar de existir uma “narrativa" homogénea do que constitui o passado e o presente da comunidade macaense, existem diferentes discursos relativamente ao seu futuro. 16
A interacçâo que abordei entre língua e etnia cria uma espécie de efeito “bola de neveM cultural. Se no período pós-colonial que atravessamos assistimos à afirmação, definição e revivalismo de línguas e etnias outrora marginalizadas, então tanto a língua como a etnia complementam-se com esse mesmo fim em vista. Revitalizar-se a língua é revitalizar-se a etnia. Revitalizar-se a etnia é revitalizar-se a língua.9 Deste modo, o crioulo de Macau, geralmente descrito como uma língua-morta, vai renascendo das cinzas, hoje em dia muito, mas não só, pela mão de Miguel de Senna Fernandes. No entanto, tal revivalismo nâo é fèito num contexto comunicativo do quotidiano, mas num contexto artístico e, mais especificamente, num contexto humorístico evidentemente herdado da tradição satírica portuguesa, hoje readaptada para efeitos de auto-ridicularizaçâo dentro da comunidade macaense. Este efeito humorístico não carrega necessariamente uma conotação negativa, podendo muitas vezes ser uma forma de valorização da própria cultura pelas diferenças que possui relativamente a outras. 9 Ver FOUGHT, Carmen (2006), Language and Ethnicity, Cambridge: Cambridge University Press; MAY, Stephen (2012), Language and Minority Rights: Ethnicity, Nationalism anã the Politics of Language、Londres: Routledge. 10 Ver VENÂNCIO, José Carlos (2008), "A Literatura Macaense e a Obra de Henrique de Senna Fernandes" Revista de História das Ideias, Vol. 29> pp. 691-702; OLIVEIRA, Celina Veiga de (20113), "O Conto na Obra de Henrique de Senna Fernandes", Administração, Vòl. 24, N°. 93, pp. 843859; GUTIÉRREZ, Néstor Raúl Gonzáles (2017), "Caminhos da Lusofbnia: O Resgate HistóricoEsta tendência humorística dentro da comunidade macaense surge desde os primeiros registos narrativos que existem em crioulo de Macau. Leopoldo Danilo Barreiros (1910-1994) compilou vários textos em diferentes estilos narrativos e nâo-narrativos escritos por diversos autores, textos esses que foram publicados em periódicos ou entregues pessoalmente ao autor. O macaense José dos Santos Ferreira (1919-1993) conta com uma extensa obra escrita em vários géneros literários e tanto em português como em crioulo de Macau. Grande parte da obra coligida por Barreiros e redigida por Ferreira é caracterizada por duas preocupações geralmente interligadas: a definição e consolidação da identidade macaense e o humor. Deste modo, podemos dizer que o corpus de textos do compilador e do autor se definem pelo humor enquanto elemento de definição e consolidação da comunidade. A obra em crioulo de Macau pode ser contrastada com a literatura macaense escrita em português, que geralmente tem um pendor humorístico menos demarcado. Trata-se de uma tendência que se verifica na obra de José dos Santos Ferreira, que, quando decide escrever um livro de viagens, Escandinávia: Região dos Encantos Mil (1994), ou crónicas sobre desporto em Desporto Macaense (1997), o faz em português. Porém, quando decide escrever ficção humorística, fa-lo invariavelmente em crioulo de Macau. O mesmo se poderia dizer de autores como Henrique Senna Fernandes10 (1923-2010), que escreveram exclusivamente em português (ainda que 17
com o uso pontual de termos e frases em crioulo de Macau) e noutros géneros que nâo o exclusivamente humorístico. Talvez fosse lógico esperar que, num período pós-colonial, reclamando uma nova voz para si, os mesmos grupos ridicularizados buscassem uma nova representação numa auto-glorificaçâo, como de resto aconteceu e acontece na formação dos vários nacionalismos pós-coloniais. No entanto, um leitor nâo-macaense e sem qualquer conhecimento do contexto macaense que se depare com os textos ou com as peças contemporâneas em crioulo de Macau pensaria provavelmente que a visão sobre a comunidade é fundamentalmente negativa, crítica e, por vezes, mesmo agressiva. Deste modo, a questão premente que parece nunca ter sido satisfatoriamente respondida é a seguinte: porque é que o humor é utilizado como principal ferramenta de criação e consolidação da etnia e da língua macaenses? A resposta a esta pergunta exige uma investigação aprofundada que: 1) situe Macau e os macaenses num contexto histórico, linguístico, sociológico e cultural, de modo que as mudanças de paradigma possam ser interpretadas; e 2) clarifique qual a função ou quais as funções do humor, além do seu intuito mais óbvio e imediato de fazer rir, e qual a relação dessa mesma função ou funções com a história, língua, sociedade e cultura de Macau. A presença histórico-cultural portuguesa continua a ocupar um papel central no estudo relativo à Ásia que se faz na academia portuguesa. Como Graciete Nogueira Batalha, os macaenses sentem também saudosismo em relação ao seu passado, embora quiçá com uma diferença. O mito português vive de uma época áurea que findou e que, de uma perspectiva sebastianista/mileranista, há-de voltar.11 O mito macaense vive de um passado marginal. Porém, este é um passado com características singulares. Hoje em dia, o poderio económico da Região Administrativa Especial de Macau (R.A.E.M) e a globalização podem fazer com que a comunidade macaense seja representada como única, interessante e que vale a pena valorizar. No entanto, também fazem com que a comunidade corra o risco de ser tragada pela força do poder central da China e por uma cultura global amorfa. -Cultural de Macau no Romance de Henrique de Senna Fernandes5 Revista Igarapé, Vòl. 5, N°. 1, pp. 115-129; TATEISHI, Bruno (2018), Vozes de Macau: identidade e memória no romance de Henrique de Senna Fernandes [Dissertação de Doutoramento], Pontifícia Universidade Católica de Sáo Paulo. 11 Ver PIMENTEL, Manuel-Cândido (2008), MO mito de Portugal nas suas raízes culturais" in MATOS, Artur Teodoro de; LAGES, Mário Ferreira (eds.), Portugal: Percursos de interculturalidade, Lisboa: Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural. 12 https://www.cccm.gov.pt/ (acedido a 4/3/2022) O humor popular e muitas vezes brejeiro de Macau é hoje apreciado e debatido em centros urbanos com óbvia influência em diversos sectores importantes da sociedade. No caso português, tomem-se como exemplos o Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM),12 uma das mais importantes instituições 18
não-universitárias para o estudo da Ásia em Portugal, ou a Fundação Casa de Macau (FCM),13 que frequentemente organiza eventos de pendor cultural e académico relacionados com a cultura macaense, principalmente na sua relação com Portugal, lais eventos são amiúde frequentados por membros da diáspora macaense, que procuram assim reavivar psicologicamente e fisicamente a memória da sua terra-natal, e por outros interessados, tal como cidadãos portugueses que residiram em Macau antes ou depois da criação da R.A.E.M, ou de pessoas que, como o autor deste texto, estudam fenómenos histórico-culturais relacionados com Macau, Portugal, a China e a Ásia.14 13 https://www.fundacaocasamacau.pt/ (acedido a 4/3/2022) 14 No que toca a instituições sediadas em Macau, refira-se o Instituto Internacional de Macau (IIC), instituição também deveras activa nos panoramas académico e cultural, não só em Macau, mas também em Portugal, no Brasil, em Moçambique, nos Estados Unidos, no Canadá e na Austrália. Ver https://iimacau.org.mo/ (acedido a 4/3/2022). 15 https://www.cccm.gov.pt/cursos/oficina-da-lingua-patua/ (acedido a 30/5/2022). Recentemente, em 2022, o CCCM iniciou uma “Oficina da Língua Patuá” coordenada por Ana Cristina Alves e leccionada por Joaquim Ng Pereira. Como revela a breve descrição do curso,15 este tem como base os textos de José do$ Santos Ferreira e de Miguel de Senna Fernandes. Numa apresentação pública que fez ao curso, o docente revelou que (ao contrário da abordagem adoptada por este texto, mais académica e interpretativa) a sua abordagem seria “sensoriaT. O seu objectivo passaria por encenar, pela primeira vez em Portugal, peças em crioulo de Macau, proporcionando deste modo aos alunos a experiência de “semir” a língua e o que esta representa cukuralmente. Por outras palavras, o que Joaquim Ng Pereira pretenderia era mostrar e cimentar o crioulo de Macau, nâo como a língua morta ou em vias de extinção, mas como uma língua viva e com uma marcada existência física, cultural e afectiva. Em suma, por um lado, o crioulo de Macau é uma língua-morta que sobrevive apenas nos dicionários e glossários redigidos e consultados por académicos. Hoje em dia, nem uma mãe macaense conversará com o filho nem um vendedor macaense negociará preços com clientes em crioulo. Por outro lado, o crioulo de Macau é uma língua viva que pode ser sensorialmente experienciada, não apenas pelos macaenses que vivem dentro e fora de Macau, pelos próprios portugueses, e, como demonstrarei em relação às obras fictícias mais recentes de Miguel de Senna Fernandes, por qualquer turista chinês ou estrangeiro. Dito de outro modo, o crioulo de Macau é um ítmorto-vivo),. E tal nâo me parece constituir um problema. Apesar de em linguística se fazer a distinção entre línguas ^naturais** e línguas ^anificiais' e, mais uma vez, o adjectivo “naiuraT ter uma forte carga positiva e o tíartificial>, uma carga pejorativa oposta, a verdade é que as fronteiras entre ambas são ambíguas. O nacionalismo fez com que línguas “naturais” se transformassem e 19
adaptassem do modo ííartificial,> através da consolidação e imposição estatal, muitas vezes em detrimento de línguas locais e com violência epistémica infligida contra as mesmas. Qualquer linguística descritiva que produza dicionários e manuais cujo objectivo seja o de ensinar aos jovens a versão t<correcta), da sua língua constitui um exemplo subtil da mesma tendência. Deste modo, a questão mais relevante não está no descobrir-se se o crioulo constitui uma língua “naturaT morta que se desenvolveu no seio de uma comunidade mestiça com falta de escolarização em português normativo e que depois acabou por morrer ou se constitui uma língua <artificial^^ viva que hoje em dia está a ser reconstruída e revitalizada de acordo com os poucos registos académicos e literários que existem da mesma. Existem diversos estudos acerca da história e cultura da comunidade macaense (Coates, 1978; Teixeira, 1982; Cremer, 1987; Pires, 1987; Zepp, 1987; Amaro, 1988; Estorninho, 1992; Pina-Cabral, 1993/1994; Pina-Cabral e Lourenço, 1993, 1994; Costa, 2004; Aresta e Oliveira, 2009; Zandonai, 2009; Rangel, 2010; Monteiro, 2011 Romana, 2014; Gaspar, 2015; Branco, 2017; Lou e Xk, 2018; Chan, 2020; Matos, 2020). Existem também várias análises linguísticas do crioulo de Macau e atitudes face ao mesmo (Pereira, 1899; Batalha, 1974, 1988; Arana-W^rd, 1978; Baxter, 2009; Gaiâo, 2010; Grosso, 2010; Nunes, 2010; Fernandes e Baxter, 2004; Li e Matthews, 2016; Gaiâo, 2019). Em ambas as categorias, o estudo de Xi Yan e Andrew Moody (2010) assume particular relevância, uma vez que constitui um estado da arte de estudos sociolinguísticos relativos a Macau publicados até à data, embora se limite aos estudos feitos em língua inglesa e em mandarim. Este resumo divide-se em quatro secções: 1) estudos anteriores relativos a línguas e dialectos de Macau; 2) estudos sobre linguística de contacto em Macau; 3) estudos sobre atitudes linguísticas e construção de identidade em Macau; e 4) estudos de planificação e políticas linguísticas em Macau. Com excepçâo do último, todos estes pontos terão relevância no decorrer deste texto. O que parece não existir é um trabalho que conjugue os dois fenómenos inseparáveis de identidade e humor e que insira a cultura e língua macaenses numa perspectiva pós-colonial mais alargada. Neste sentido, procurarei fazer uma análise linguística e sociolinguística dos registos escritos ficcionais que existem em crioulo. Focar-me-ei principalmente no papel do humor e no modo como este se encontra relacionado com a sociedade macaense. Este texto encontra-se dividido em quatro capítulos. No primeiro capítulo, farei um resumo da história cultural e linguística de Macau. No segundo capítulo, introduzirei os registos que existem relativos ao crioulo de Macau, quer os estudos académicos já referidos nesta introdução, quer as obras de cariz literário redigidas em crioulo, que constituirão o corpus de análise. Os textos ficcionais incluem os coligidos por Leopoldo Danilo Barreiros (1943-1944), os escritos por José dos Santos Ferreira e os escritos, encenados e por vezes filmados 20
por Miguel de Senna Fernandes e o seu grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau, Neste último caso, referir-me-ei unicamente aos vídeos publicados online. Na introdução ao corpus literário em crioulo de Macau, farei um sumário de algumas das histórias e poemas usados como exemplos ilustrativos de tendências humorísticas e identitárias. lais sumários ajudarão o leitor a fomiliarizar-se com as narrativas e com as várias tendências que procurarei classificar e interpretar no quarto capítulo. No terceiro capítulo, apresentarei o estado da arte relativo aos estudos humorísticos e, de modo mais específico, à linguística do humor. Uma vez que não existe literatura relativa a possíveis relações entre o humor e a linguística de contacto, abordarei hipóteses de pontos de contacto entre estas duas áreas e que podem ser deduzidas da análise do estado da arte relativamente às mesmas. No quarto capítulo, analiso o corpus apresentado no primeiro capítulo à luz da história e da cultura locais de Macau e dos conceitos humorísticos introduzidos no terceiro capítulo. Procurarei demonstrar como o humor é utilizado como uma ferramenta de invenção e consolidação da identidade macaense e de definição da sua diferença relativamente às outras identidades com as quais a comunidade teve ou ainda tem uma relação temporal ou espacial. O apêndice I contém e revisão do que se sabe sobre todos os termos de origem nâo-portuguesa registados nos dicionários e glossários do crioulo de Macau (Batalha, 1988; Fernandes e Baxter, 2004; Gaião, 2019). lodos os termos utilizados ao longo do texto que possuam uma entrada com informações históricas e/ou filológicas mais detalhadas neste glossário surgem sublinhados (por exemplo, patua). 21
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Embora o crioulo de Macau tenha deixado de ser utilizado no dia-a-dia, a sua recuperação tem vindo a revelar-se como um elemento de grande importância na redefinição da identidade macaense. O Latinórum na Tóri di Babel: Humor e Língua na Literatura cm Crioulo de Macau percorre a história da comunidade macaense e da sua língua e faz uma análise da produção textual e videográfica humorística em crioulo de Macau, desde os textos mais antigos, de finais do século XIX, passando pela bibliografia de José dos Santos Ferreira (Adé) e acabando nos modernos vídeos do grupo Dóci Papiaçám di Macau. A obra inclui ainda um glossário de termos não-portugueses do crioulo de Macau. Através da análise do universo humorístico macaense, percorre-se uma história, uma cultura e uma língua e espelham-se a realidade, as aspirações e os medos de uma comunidade que, ao ter a capacidade de rir de si própria, levanta questões sobre a sua identidade, as alterações a que se vê sujeita e o seu relacionamento com os outros. ISBN 978-972-8586-64-5 Coleção Língua e Cultura 9 lllllll ll789728"586645,l>
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