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A interacçâo que abordei entre língua e etnia cria uma espécie de efeito “bola de neveM cultural. Se no período pós-colonial que atravessamos assistimos à afirmação, definição e revivalismo de línguas e etnias outrora marginalizadas, então tanto a língua como a etnia complementam-se com esse mesmo fim em vista. Revitalizar-se a língua é revitalizar-se a etnia. Revitalizar-se a etnia é revitalizar-se a língua.9 Deste modo, o crioulo de Macau, geralmente descrito como uma língua-morta, vai renascendo das cinzas, hoje em dia muito, mas não só, pela mão de Miguel de Senna Fernandes. No entanto, tal revivalismo nâo é fèito num contexto comunicativo do quotidiano, mas num contexto artístico e, mais especificamente, num contexto humorístico evidentemente herdado da tradição satírica portuguesa, hoje readaptada para efeitos de auto-ridicularizaçâo dentro da comunidade macaense. Este efeito humorístico não carrega necessariamente uma conotação negativa, podendo muitas vezes ser uma forma de valorização da própria cultura pelas diferenças que possui relativamente a outras. 9 Ver FOUGHT, Carmen (2006), Language and Ethnicity, Cambridge: Cambridge University Press; MAY, Stephen (2012), Language and Minority Rights: Ethnicity, Nationalism anã the Politics of Language、Londres: Routledge. 10 Ver VENÂNCIO, José Carlos (2008), "A Literatura Macaense e a Obra de Henrique de Senna Fernandes" Revista de História das Ideias, Vol. 29> pp. 691-702; OLIVEIRA, Celina Veiga de (20113), "O Conto na Obra de Henrique de Senna Fernandes", Administração, Vòl. 24, N°. 93, pp. 843859; GUTIÉRREZ, Néstor Raúl Gonzáles (2017), "Caminhos da Lusofbnia: O Resgate HistóricoEsta tendência humorística dentro da comunidade macaense surge desde os primeiros registos narrativos que existem em crioulo de Macau. Leopoldo Danilo Barreiros (1910-1994) compilou vários textos em diferentes estilos narrativos e nâo-narrativos escritos por diversos autores, textos esses que foram publicados em periódicos ou entregues pessoalmente ao autor. O macaense José dos Santos Ferreira (1919-1993) conta com uma extensa obra escrita em vários géneros literários e tanto em português como em crioulo de Macau. Grande parte da obra coligida por Barreiros e redigida por Ferreira é caracterizada por duas preocupações geralmente interligadas: a definição e consolidação da identidade macaense e o humor. Deste modo, podemos dizer que o corpus de textos do compilador e do autor se definem pelo humor enquanto elemento de definição e consolidação da comunidade. A obra em crioulo de Macau pode ser contrastada com a literatura macaense escrita em português, que geralmente tem um pendor humorístico menos demarcado. Trata-se de uma tendência que se verifica na obra de José dos Santos Ferreira, que, quando decide escrever um livro de viagens, Escandinávia: Região dos Encantos Mil (1994), ou crónicas sobre desporto em Desporto Macaense (1997), o faz em português. Porém, quando decide escrever ficção humorística, fa-lo invariavelmente em crioulo de Macau. O mesmo se poderia dizer de autores como Henrique Senna Fernandes10 (1923-2010), que escreveram exclusivamente em português (ainda que 17

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