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com o uso pontual de termos e frases em crioulo de Macau) e noutros géneros que nâo o exclusivamente humorístico. Talvez fosse lógico esperar que, num período pós-colonial, reclamando uma nova voz para si, os mesmos grupos ridicularizados buscassem uma nova representação numa auto-glorificaçâo, como de resto aconteceu e acontece na formação dos vários nacionalismos pós-coloniais. No entanto, um leitor nâo-macaense e sem qualquer conhecimento do contexto macaense que se depare com os textos ou com as peças contemporâneas em crioulo de Macau pensaria provavelmente que a visão sobre a comunidade é fundamentalmente negativa, crítica e, por vezes, mesmo agressiva. Deste modo, a questão premente que parece nunca ter sido satisfatoriamente respondida é a seguinte: porque é que o humor é utilizado como principal ferramenta de criação e consolidação da etnia e da língua macaenses? A resposta a esta pergunta exige uma investigação aprofundada que: 1) situe Macau e os macaenses num contexto histórico, linguístico, sociológico e cultural, de modo que as mudanças de paradigma possam ser interpretadas; e 2) clarifique qual a função ou quais as funções do humor, além do seu intuito mais óbvio e imediato de fazer rir, e qual a relação dessa mesma função ou funções com a história, língua, sociedade e cultura de Macau. A presença histórico-cultural portuguesa continua a ocupar um papel central no estudo relativo à Ásia que se faz na academia portuguesa. Como Graciete Nogueira Batalha, os macaenses sentem também saudosismo em relação ao seu passado, embora quiçá com uma diferença. O mito português vive de uma época áurea que findou e que, de uma perspectiva sebastianista/mileranista, há-de voltar.11 O mito macaense vive de um passado marginal. Porém, este é um passado com características singulares. Hoje em dia, o poderio económico da Região Administrativa Especial de Macau (R.A.E.M) e a globalização podem fazer com que a comunidade macaense seja representada como única, interessante e que vale a pena valorizar. No entanto, também fazem com que a comunidade corra o risco de ser tragada pela força do poder central da China e por uma cultura global amorfa. -Cultural de Macau no Romance de Henrique de Senna Fernandes5 Revista Igarapé, Vòl. 5, N°. 1, pp. 115-129; TATEISHI, Bruno (2018), Vozes de Macau: identidade e memória no romance de Henrique de Senna Fernandes [Dissertação de Doutoramento], Pontifícia Universidade Católica de Sáo Paulo. 11 Ver PIMENTEL, Manuel-Cândido (2008), MO mito de Portugal nas suas raízes culturais" in MATOS, Artur Teodoro de; LAGES, Mário Ferreira (eds.), Portugal: Percursos de interculturalidade, Lisboa: Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural. 12 https://www.cccm.gov.pt/ (acedido a 4/3/2022) O humor popular e muitas vezes brejeiro de Macau é hoje apreciado e debatido em centros urbanos com óbvia influência em diversos sectores importantes da sociedade. No caso português, tomem-se como exemplos o Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM),12 uma das mais importantes instituições 18

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