991010449977006306

adaptassem do modo ííartificial,> através da consolidação e imposição estatal, muitas vezes em detrimento de línguas locais e com violência epistémica infligida contra as mesmas. Qualquer linguística descritiva que produza dicionários e manuais cujo objectivo seja o de ensinar aos jovens a versão t<correcta), da sua língua constitui um exemplo subtil da mesma tendência. Deste modo, a questão mais relevante não está no descobrir-se se o crioulo constitui uma língua “naturaT morta que se desenvolveu no seio de uma comunidade mestiça com falta de escolarização em português normativo e que depois acabou por morrer ou se constitui uma língua <artificial^^ viva que hoje em dia está a ser reconstruída e revitalizada de acordo com os poucos registos académicos e literários que existem da mesma. Existem diversos estudos acerca da história e cultura da comunidade macaense (Coates, 1978; Teixeira, 1982; Cremer, 1987; Pires, 1987; Zepp, 1987; Amaro, 1988; Estorninho, 1992; Pina-Cabral, 1993/1994; Pina-Cabral e Lourenço, 1993, 1994; Costa, 2004; Aresta e Oliveira, 2009; Zandonai, 2009; Rangel, 2010; Monteiro, 2011 Romana, 2014; Gaspar, 2015; Branco, 2017; Lou e Xk, 2018; Chan, 2020; Matos, 2020). Existem também várias análises linguísticas do crioulo de Macau e atitudes face ao mesmo (Pereira, 1899; Batalha, 1974, 1988; Arana-W^rd, 1978; Baxter, 2009; Gaiâo, 2010; Grosso, 2010; Nunes, 2010; Fernandes e Baxter, 2004; Li e Matthews, 2016; Gaiâo, 2019). Em ambas as categorias, o estudo de Xi Yan e Andrew Moody (2010) assume particular relevância, uma vez que constitui um estado da arte de estudos sociolinguísticos relativos a Macau publicados até à data, embora se limite aos estudos feitos em língua inglesa e em mandarim. Este resumo divide-se em quatro secções: 1) estudos anteriores relativos a línguas e dialectos de Macau; 2) estudos sobre linguística de contacto em Macau; 3) estudos sobre atitudes linguísticas e construção de identidade em Macau; e 4) estudos de planificação e políticas linguísticas em Macau. Com excepçâo do último, todos estes pontos terão relevância no decorrer deste texto. O que parece não existir é um trabalho que conjugue os dois fenómenos inseparáveis de identidade e humor e que insira a cultura e língua macaenses numa perspectiva pós-colonial mais alargada. Neste sentido, procurarei fazer uma análise linguística e sociolinguística dos registos escritos ficcionais que existem em crioulo. Focar-me-ei principalmente no papel do humor e no modo como este se encontra relacionado com a sociedade macaense. Este texto encontra-se dividido em quatro capítulos. No primeiro capítulo, farei um resumo da história cultural e linguística de Macau. No segundo capítulo, introduzirei os registos que existem relativos ao crioulo de Macau, quer os estudos académicos já referidos nesta introdução, quer as obras de cariz literário redigidas em crioulo, que constituirão o corpus de análise. Os textos ficcionais incluem os coligidos por Leopoldo Danilo Barreiros (1943-1944), os escritos por José dos Santos Ferreira e os escritos, encenados e por vezes filmados 20

RkJQdWJsaXNoZXIy NzM0NzM2