9789728586621

INTRODUÇÃO Não fiiltarão cristãos atrevimentos Nesta pequena casa lusitana. Camões, Os Lusíadas, 7. 14 1. Razões de um longo silêncio O leitor português de Joseph Conrad, autor cuja sedução se exerce com mais força nos anos da mocidade, nâo deixa de sentir algum desconforto diante de certo tipo de fauna humana de aparecimento quase obrigatório nos contos e romances a que o escritor anglo-polaco deu como cenário a Ásia oriental. Referimo-nos àqueles seres de retorcida psique e duvidosa moral, roçando por vezes a abjeçâo, objeto do desprezo de todos os estratos sociais e variedades étnicas, aos quais, à falta de melhor expressão, podemos designar como o “mestiqo português.” É certo que, se o hipotético leitor possui algumas tinturas de história pátria e de latim, talvez a bossa nacionalista (e perdoe-se, nâo só o vocábulo, mas sobretudo o hoje negregado sentimento que lhe corresponde, o qual, apesar de tudo, sempre de alguma forma persiste, mesmo nos corações mais isentos de preconceitos) se acirre e lhe faça retinirem nos ouvidos os versos finais da fabula 25 do livro Io do romano Fedro, intitulada Leo senex, aper, taurus et asinus: Quicumque amisit dignitatem pristinam / Ignauis etiam iocus est in casu graui.「Aquele que perdeu prestígio antigo / Vòlve-se troça até do ser mais vil.”] Conquanto esse suposto leitor, jovem de mente arejada e cônscia de todas as mazelas coloniais que fundamente laceraram esse vasto orbe, de modo algum atribua ao seu rincão lusitano a categoria de “leão”,papel régio que a si mesmo se concedeu um povo insular que lhe veio na cola e expeditamente se apossou das 7

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