9789728586621

Cartas Ânuas da Cochinchina (1619 - 1635) Introdução António Guimarães Pinto Transcrição e notas António Guimarães Pinto Miguel Rodrigues Lourenço Centro Científico e Cultural de Macau, LR CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR 次. k 人掌 UNIVERSIDADE M MACAU UNIVERSITY OF MACAU

Cartas Ânuas da Cochinchina (1619-1635) Introdução de António Guimarães Pinto Transcrição e notas de António Guimarães Pinto e Miguel Rodrigues Lourenço Centro Científico e Cultural de Macau, I.P. CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR 滇 尸 气 大 学 UNIVERSIDADE DE MACAU UNIVERSITY OF MACAU

Título Cartas Anuas da Cochinchina (1619-1635) Coleção Fontes Históricas Coordenação: Carmen Amado Mendes e Isabel Murta Pina Autores António Guimarães Pinto Miguel Rodrigues Lourenço Publicado por Centro Científico e Cultural de Macau, LP Rua da Junqueira, 30 1300-343 Lisboa 一Portugal www.cccm.gov.pt | geral@cccm.gov.pt lei. (+351) 213617570 Universidade de Macau Avenida da Universidade, Taipa Macau - China www.um.edu.mo | info@um.edu.mo Tel. (+853) 8822 8833 Pré-impressão, impressão e acabamento Multitipo —Artes Gráficas, Lda. Tiragem 800 exemplares Ilustração da capa Biblioteca da Ajuda, Cód. 49-V-8, fl. 422 (Pormenor) Lisboa | 2023 ISBN: 978-972-8586-62-1 Depósito Legal: 513 327/23 © Tòdos os direitos reservados

ÍNDICE INTRODUÇÃO ............................................................................................. 7 Tabela de correspondência dos principais nomes geográficos usados nos textos .............................................................................................. 44 Ânua de Cochinchina de 1619 ................................................................... 45 Cocincinensis missionis annuae litterae. Anni 1620 ................................. 59 Carta ânua da missão da Cochinchina, do ano de 1620 ......................... 67 Carta ânua da missão da Cochinchina do ano de 1620 ......................... 67 Ânua da Cochinchina do ano de 1621........................................................ 79 Ânua da missão de Cochinchina do ano de 1621 ............................... 79 Ânua da Cochinchina do ano de 1622 ...................................................... 103 Annuae Cocincinicae. Anni 1624 ............................................................... 123 Ânua da Cochinchina do ano de 1624 ...................................................... 135 Cocincinicae missionis annuae litterae. Anni 1625 .................................. 149 Carta ânua da missão da Cochinchina. Do ano de 1625 ......................... 169 Ânua da missão de Cochinchina do ano de 1626....................................... 195 Ânua da missão de Cochinchina do ano de 1627....................................... 215 Ânua da Missão de Cochinchina. Ano de 1628......................................... 237 Ânua da Missão de Cochinchina ano de 1629 .......................................... 261 Ânua da missão de Cochinchina do ano de 1630 ..................................... 291 5

Ânua da Missão de Cochinchina do ano de 1631 .................................... 329 Ânua da missão de Cochinchina do ano de 1634 .................................... 355 Ânua da missão de Cochinchina do ano de 1635 .................................... 377 Apêndice 1 ................................................................................................... 397 Apêndice 2 ................................................................................................... 399 índice Onomástico ...................................................................................... 405 6

INTRODUÇÃO Não fiiltarão cristãos atrevimentos Nesta pequena casa lusitana. Camões, Os Lusíadas, 7. 14 1. Razões de um longo silêncio O leitor português de Joseph Conrad, autor cuja sedução se exerce com mais força nos anos da mocidade, nâo deixa de sentir algum desconforto diante de certo tipo de fauna humana de aparecimento quase obrigatório nos contos e romances a que o escritor anglo-polaco deu como cenário a Ásia oriental. Referimo-nos àqueles seres de retorcida psique e duvidosa moral, roçando por vezes a abjeçâo, objeto do desprezo de todos os estratos sociais e variedades étnicas, aos quais, à falta de melhor expressão, podemos designar como o “mestiqo português.” É certo que, se o hipotético leitor possui algumas tinturas de história pátria e de latim, talvez a bossa nacionalista (e perdoe-se, nâo só o vocábulo, mas sobretudo o hoje negregado sentimento que lhe corresponde, o qual, apesar de tudo, sempre de alguma forma persiste, mesmo nos corações mais isentos de preconceitos) se acirre e lhe faça retinirem nos ouvidos os versos finais da fabula 25 do livro Io do romano Fedro, intitulada Leo senex, aper, taurus et asinus: Quicumque amisit dignitatem pristinam / Ignauis etiam iocus est in casu graui.「Aquele que perdeu prestígio antigo / Vòlve-se troça até do ser mais vil.”] Conquanto esse suposto leitor, jovem de mente arejada e cônscia de todas as mazelas coloniais que fundamente laceraram esse vasto orbe, de modo algum atribua ao seu rincão lusitano a categoria de “leão”,papel régio que a si mesmo se concedeu um povo insular que lhe veio na cola e expeditamente se apossou das 7

moradas cujas portas1 ele, a bem ou a mal, mas com suado esforço, foi abrindo: mesmo assim, lá nos recessos da sua consciência, acha que em boa verdade nâo merece ser tratada a coices a linhagem a que pertence, mesmo que eles procedam de um equídeo de tâo elegante traça e harmonioso trote como o reverenciado Conrad, mais proclive do que parece, na sua cortical non-chalance positivista, à exaltação dos cometimentos do imperialismo desalmado da sua pátria adotiva, é certo que sem chegar aos nauseantes extremos ditirâmbicos do pedante e verborreico Rudyard Kipling, seu contemporâneo. 1 Nâo deixa de ser histórica e filologicamente interessante o fecto de que, em grande número de línguas do Oriente, a palavra portuguesa “chave” tenha sido adotada para designar este instrumento. 2 Pela primeira vez usada por George Winius, no artigo “The shadow Empire of Goa in the Bay of BengalJ Itinerarium 7> no. 2 (1983): 93-101. 3 Luís Filipe Thomaz, La expansión Portuguesa: un prisma de muchas caras (Bogotá: Universidad de los Andes, 2016), 159. E a verdade é que, já fora do âmbito ficcional, o modo como a historiografia internacional se ocupou no século xix e grande parte do xx da atuação e marcas da presença portuguesa nas regiões extremo-orientais, com a exceção de Malaca, China e Japão, tem primado ou pelo desdenhoso silêncio ou pela acintosa parcialidade, com os quais as potências neocoloniais procuraram erigir-se em únicas e providenciais promotoras do progresso económico e da civilização europeia naquelas paragens remotas. Assim, ao lado das referências, forçosamente incontornáveis e quase sempre displicentes, ao império “o£ciaT lusitano, adscrito à península hindustânica e regiões imediatamente circunjacentes, com suas cidades e fortalezas emblemáticas e seus vice-reis, governadores e capitães nomeados por Lisboa, votou-se longamente ao olvido a intervenção portuguesa, durante os séculos xvi e XVII, na maior parte da Insulíndia e no Sudeste Asiático. Ora, foram estes os espaços geográficos que constituíram o uimpério sombra5, expressão2 que Luís Filipe Thomaz defende para designar a “diáspora espontânea de aventureros, mercenários y piratas por las zonas donde la presencia oficial de la Corona era débil o inexistente.>,3 Neste rol de profissões e atividades caberia incluir os missionários, sobretudo jesuítas, os quais, embora vinculados a uma corporação internacional, no período a que nos estamos a referir, tinham como campo de atuação territórios que, do ponto de vista da organização eclesiástica, faziam parte do Padroado português, para além do facto de que, na sua grande maioria, eram cidadãos portugueses. Este véu de silêncio lançado sobre a vida e obra lato sensu de tantos portugueses, muitos dos quais uniram os seus destinos pessoais, quase sempre mediante vínculos de sangue, aos das populações em cujas terras se instalaram, originando uma nova linhagem humana e contribuindo, ainda que de modo modesto, para a configuração cultural e mundividência das gentes com que se cruzaram, este obstinado desconhecimento de um período de algumas décadas, 8

sobretudo dos séculos xvi e XVII, da história do Sudeste Asiático, só há pouco tempo começou a rasgar-se e a desvanecer-se, dando lugar às luzes que sobre ele têm arrojado alguns estudiosos, isentos de anacrónico chauvinismo e aparelhados com as ferramentas de trabalho que para esto ofício são necessárias para o cabal manejo e aproveitamento das fontes históricas diretas. No caso específico do país em que se integra a região de que este livro irá ocupar-se, ou seja, o hoje chamado Vietname, cumpre citar-se em primeiro lugar o nome do professor francês Roland Jacques, o mais profundo conhecedor da história das missões católicas europeias no Vietname dos séculos xvi e XVII e do papel primacial que coube aos jesuítas portugueses no estudo da língua anamita e na criação da sua escrita alfabética hoje vigente, o qual, demonstrando uma coragem intelectual que talvez concite os furores censorinos de alguns eruditos do bom tom ou de certos semicukos e pomposos criadores de opinião, nas altas rodas em que se decreta o politicamente correto a la moda、nâo trepidava em escrever, num estudo publicado em 1998, significativamente intitulado “Le Portugal et la roma- nisation de la langue vietnamienne. Faut-il réécrire 1’ histoire?M,4 nâo apenas que “a contribuição cultural especificamente portuguesa é ainda ignorada, mesmo no mundo científico", mas, igualmente, algo de mais grave (e que, em certa medida, vem ao encontro e coonesta a citação latina o seu quê faceta que atrás se leu): “O papel cultural primacial desempenhado por Portugal no Vietname mediante os seus missionários jesuítas do século XVII foi amiúde ignorado, minimizado e até ocultado na literatura especializada.^^5 4 Revue Française d*histoire d*outre-mer 85, no. 318 (1998): 21-54. 5 Ibid., 54 e 26. Deste Autor são opera maxima para o conhecimento dos temas constantes dos seus títulos os livros seguintes: Portuguese Pioneers ofVietnameese Linguistics Prior to 1650 (Bangkok: Orchid Press, 2002); Les missionaires portugais et les débuts de /' Église catholique au Viêt-Nam (Reichstett: Dinh Huong liing Thu, 2004) em 2 tomos (o primeiro em francês e o segundo com a tradução vietnamita). 2. O nosso propósito Este livro nasceu sobretudo do propósito de colmatar, numa pequena parte, esse encobrimento deliberado a que se refere Roland Jacques, ao pôr à disposição do leitor interessado, especializado ou nâo, um conjunto de documentos, rigorosamente traduzidos (quando for o caso) e transcritos, relacionados com a antiga Cochinchina (ou seja, o território que os portugueses assim designavam e que grosso modo correspondia ao sul do atual Vietname) e tendo como limite temporal a quo o ano de 1619 e baliza ad quem o de 1635. Trata-se de: a) 14 peças epistolográficas sui generiSy oficialmente chamadas Cartas Ânuas da Cochinchina, correspondentes 9

aos anos de 1619, 1620, 1621, 1622, 1624, 1625, 1626, 1627, 1628, 1629, 1630, 1631, 1634 e 1635, cujos originais se conservam nos ARSI, e das quais onze se encontram redigidas em português e três em latim, distribuindo-se a sua autoria pelos seguintes sacerdotes inacianos: 10 de Gaspar Luís, duas das quais em latim; 2 de Joâo Rodrigues Girâo; 1 de Pedro Marques e outra do italiano Girolamo Maiorica, esta em latim; b) dois apêndices, de que o primeiro é um texto de Gaspar Luís, com queixas contra o padre Francesco Buzomi, que, conforme o manuscrito, é aparte de üa carta que o padre Gaspar Luís, superior da missão de Cochinchina, escreveu ao padre André Palmeiro, Visitador de Japão e China”; sendo o outro uma a Relação de üa perseguição que teve a cristandade de Cochinchina nos anos de 1625 e 1626”,escrito na primeira parte deste ano e sem nome de autor nas duas cópias originais existentes no ARSI, embora, como mais à frente se dirá, nâo ofereça qualquer dúvida pertencer a sua autoria ao bem conhecido padre Alexandre de Rhodes. As Cartas ânuas que irão ler-se inserem-se num impulso de valorização, por parte da Província jesuítica do Japão, da recentemente criada missão na Cochinchina, principiada em 1615, e mediante a qual, juntamente com outras açóes, os dirigentes inacianos procuraram de alguma maneira reorganizar a atividade missionária no Extremo Oriente após a expulsão decretada contra os seus missionários no Japão, que significou um brutal golpe nas estratégias e investimentos de toda a sorte realizados, com tão promissores auspícios, no Império do Sol Nascente.6 O esforço de promoção da missão da Cochinchina foi predominantemente incumbido a Gaspar Luís, que durante um período ininterrupto de catorze anos se manteve corajosamente naquela região e foi sacerdote dotado de evidentes qualidades literárias, sobretudo como eminente latinista, além de saboroso prosador em língua portuguesa, do que estas cartas dâo sobeja prova, no retrato vívido e por vezes dramático que traça de uma realidade humana e cultural que os escritores acanónicos>5, que de leve versaram a presença portuguesa naquelas paragens, praticamente relegaram ao silêncio. 6 As seguintes palavras de Pierre Chaunu parecem-nos uma boa síntese da importância que se revestiu para os portugueses em geral, tanto missionários como comerciantes, a proibição da presença de estrangeiros no Japão: “La ligne Macao-Nagasaki est définitivement brisée, en 1637, du fait du Japon. // Les circuits portugais dans la Mer de Chine ne se relèveront jamais de ce coup mortel. Un morceau d'Empire portugais, le plus tardi£ le plus aventuré aussi, s' effondre alors après 80 ans d' une existence souvent hé^oíque.^^ Pierre Chaunu, “Manille et Macao face à la conjoncture des XVIe et XVIIe siècles,n Annales. Economies, sociétés, civilisations, 17e année, no. 3 (1962): 561. Assim, pensamos que a publicação destas cartas ânuas também contribuirá para um melhor conhecimento, nâo apenas das estratégias de territorializaçâo da Companhia de Jesus, gizadas a partir de Macau, mas igualmente dos desafios constantes que efetivamente se colocavam aos jesuítas que foram destinados para esta região do atual 10

Vietname.7 Também claramente se colige, do que fica dito, a grande importância de que a leitura crítica destes documentos se reveste para as mais diversas áreas do saber, desde a etnografia e a linguística8 até à história religiosa, política, económica e social, tanto numa perspetiva exclusivamente local, como na da interação, sob os mesmos pontos de vistas, além do cultural e diplomático, com o Japão,9 a China e, sobretudo, Macau. 7 Em Portugal, deve-se a Isabel Augusta lavares Mourão a recuperação de muita informação sobre as interações entre os portugueses e os territórios do atual Vietname a partir da documentação jesuítica. No final da sua obra, a autora apresenta, como também o fizera já o Padre Manuel Teixeira, uma relação dos jesuítas que serviram como missionários na Cochinchina. Veja-se, Manuel Teixeira, Macau e a sua Diocese, vol. 14 (Macau: Imprensa Nacional, 1977), 394—485; Isabel Augusta lavares Mourão, Portugueses em Terras do Dai- Viêt (Cochinchina e Tun Kim), 1615—1660 ([Macau]: Instituto Português do Oriente, 2005), 317—26. 8 “La création du quoc ngu [í. e., escrita romanizada do vietnamita] ne peut se comprendre que comme une oeuvre avant tout portugaise, qui se situe dans un ensemble d' initiatives interculturelles semblables." Jacques, ctLe Portugal et la romanisation,” 21. 9 Ao que sabemos a presença japonesa na Cochinchina no período compreendido pelas ânuas que agora publicamos não foi objeto de um estudo muito profundo, para o qual deverão inquestionavelmente contribuir nâo pouco estas mesmas cartas. Mesmo assim sugerimos, como visão geral séria, o estudo de Yòshiaki Ishizawa, a Les quartiers japonais dans 1' Asie du Sud-est au XVIIe siècle,M in Guerre et Paix enAsie du Sud-Esf 、ed. Nguyen Thê Anh et Alain Forest (Paris: U Harmattan, 1998), 85-94. Aqui publicamente exaramos o agradecimento à gentileza do Professor Ishizawa, que, respondendo prontamente à nossa solicitação, mui amavelmente nos enviou cópia do seu artigo. 10 António Guimarães Pinto, “Literatura Novilatina na Receção ao Novo Bispo de Coimbra D. Afonso Furtado de Mendoça no Colégio dos Jesuítas;' Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra 34, no. 1 (2021): 85-199. Os textos de Gaspar Luís podem ler-se nas pp. 125-34 (tradução) e 163-73 (latim). Por derradeiro, o viés estético-literário pesou nâo pouco na hora de nos decidirmos a esta empresa, na qual um historiador e um filólogo se uniram no propósito comum de salvar do esquecimento documentos, preciosos como tais, mas a que se adita, em todos eles, uma inequívoca qualidade literária, tanto nos textos redigidos em latim, como nos que o foram em vernáculo, mesmo quando saídos da pena de um estrangeiro, como é o caso do exímio poliglota Alexandre de Rhodes. De facto, talvez por pertencerem ao período da história da língua portuguesa em que esta se aproximou do seu ponto máximo de perfeição (que pensamos corresponder aos meados do século XVII), e por se tratar também de textos de finalidade pragmática, que nâo consentiam os desvarios gongóricos a que alguns prosistas de então se entregaram, a verdade é que qualquer uma das ânuas se pode ler como uma amostra e lição de excelente vernáculo, em que um vocabulário rico e expressivo se consorcia com períodos elegantemente cadenciados, vez ou outra nervosamente céleres, amoldados sempre ao fito posto na clareza. No caso das duas cartas latinas de Gaspar Luís devemos confessar que em nada desmerecem da boa opinião que dele formámos ao traduzir os textos com que, em prosa e verso, contribuiu, no Colégio jesuítico de Coimbra, onde então lecionava, para a solene receção oferecida ao bispo recém-empossado.10 Curiosamente, nas duas espécies que agora se 11

transcrevem e traduzem, parece ter tomado como modelo sobretudo Salústio, num estilo conciso e sentencioso de que o nosso derramado português torna por vezes difícil dar ideia, e que foram inteiramente anulados numa versão parafrástica que se publicou em italiano poucos anos após a redação do original. Ora, para bem entender-se esta dimensão literária na qual se inserem todos os escritos que se recolhem neste livro que agora pomos nas máos do benévolo leitor, parece que virá de molde espraiar-nos um pouco sobre o que se deverá entender por “carta ânua." 3・ Vieira: um paradigma O jesuíta António Vieira, a quem pensamos que ninguém regateará o título de maior prosador português do século XVII, se não se quiser alargar essa qualidade a todo o âmbito cronológico e geográfico dessa mesma língua, iniciou a sua longa atividade de escritor em 1626, portanto aos dezoito anos, com uma longa Carta ânua do Brasil, 11 relativa ao biénio 1624-1625, e que constitui, não apenas um texto literário que não desmerece ao lado dos mais logrados do seu autor, mas também um paradigma insuperável dessa espécie de subgénero literário de criação jesuítica. Como se sabe, bem inteirados da superioridade intelectual e literária do moço estudante, os seus superiores religiosos de Salvador da Bahia (ao assinar-se, o Autor diz que escreve “por comissão do padre Vice-provinciar,) decidiram-se a encarregá­ -lo da redação, em português e latim (num texto mais reduzido)12 do relatório, dirigido ao Geral Muzio Vitelleschi, relativo não apenas às atividades e eventos internos da ordem, como igualmente externos, da Província brasílica, nos quais os inacianos se viram forçados a participar por força do desembarque e ocupação da capital do estado por parte de tropas holandesas, num período que decorre entre maio de 1624 e março do ano seguinte. O desempenho do moço estudante, com data final de 30 de setembro de 1626, foi, como já dissemos, brilhante e pedimos vénia ao leitor para dele fazer um brevíssimo resumo e caracterização. 11 Embora existam várias edições deste texto, servimo-nos para a leitura da lição adotada em 'Annua ou Annaes da Província do Brazil dos dous annos de 1624, e de 1625,” Anais da Biblioteca Nacional do Rio 成 Janeiro 19 (1897): 176—217. 12 Nos ARSIexistem dois autógrafos desta versão latina, do punho de Vieira e datados, um de 21 de novembro e o oucro do Io de dezembro de 1626. Também ali se encontra o original em português, com a data que indicamos no corpo do nosso texto. Vd. Francisco Rodrigues, “O Padre António Vieira: contradições e aplausos (À luz de documentação inédita),M Revista de História 11 (1922): 83. Não conhecemos o teor, mas sabemos que a italiana Nicoletta Madia apresentou uma tese, apenas em edição mimeografada, subordinada ao título seguinte: La Carta Anua dei 1626 di Padre António Vieira. Confronto fra £ manoscritti latini Bros. 8, 342-351 Bras. 8, 366-375 e / 'edizione deli' Annua dei 1626presente nelle Cartas (Roma: La Sapienza, 2008). 12

Ia parte: Introdução geral: explicação do atraso no envio do relatório anual, ou carta ânua, e da necessidade portanto, de se acumularem duas em uma; 2a Conspecto geral da situação da Província jesuítica do Brasil: número de homens, casas, colégios, residências; 3a Exposição detalhada da situação de cada unidade operativa, que se reparte do modo seguinte: a) biografia/retrato de membros da Companhia falecidos, com seu elogio, no qual, em tom hagiográfico, se ressaltam as qualidades morais e religiosas, com especial incidência nas que se consideram mais especificamente jesuíticas; b) descrição geográfica da região onde se exerce a ação missionária; c) descrição minudenciosa de sucesso relevante: no caso, a ocupação de Salvador pelos holandeses, cerco posto à cidade pelos portugueses e rechaço final dos intrusos; e) para exalçamento da religião e da ação missionária, selecionam-se e apontam-se “alguns casos mais notáveis", conforme a expressão de Vieira. Quanto à parte formal ou estilo, tomando esta palavra num sentido amplo, é evidente que a genialidade do Autor é elemento precípuo e por definição intransferível, mas convém nâo desvalorizar a importância da formação e da pedagogia jesuíticas que atuaram, nâo apenas sobre a mente, mas também na forma como esta se vazava no discurso oral ou escrito de Vieira. Daí que, ao caracterizarmos a expressão verbal ou pendores estilísticos presentes neste seu texto, estamos do mesmo passo a resumir muitas das tendências, preferências e particularidades de comunicação escrita que frequentemente iremos encontrar nas cartas ânuas dos seus confrades de todo o vasto âmbito por onde eles se espalharam. Assim, em breve cômputo, assinalaremos a vivacidade na descrição de ações, o colorido, a atenção ao pormenor caracterizador, as alusões e aproximações históricas, reveladoras de bom conhecimento e assimilação dos historiadores clássicos, a sobriedade expressiva, que, por vezes, pelo seu tom incisivo, direto e iterativo/ anafórico nos lembra Júlio César. Veja-se o trecho seguinte, que, ao que nos quer parecer, se poderá aproximar de alguns passos das ânuas latinas de Gaspar Luís, que curiosamente, escritas em 1621 e 1626, sâo contemporâneas da de Vieira: 'Aqui se administram os sacramentos e justiça. Aqui se curam os enfermos. Aqui se guarda e distribui todo o mantimento dos soldados. Daqui finalmente saem para os assaltos, tornando a demandar o mesmo lugar. Fortifica-se este porto com cavas, trincheiras e plataformas nos passos de mais importância, em os quais assentaram alguas peças de üa nau que escapou das mãos do inimigo."二 Verifica-se também uma característica que surge com alguma frequência nas cartas que compõem o livro que o leitor tem agora nas mãos: a memória pronta para alusões clássicas, sobretudo ligadas a episódios épicos, aduzidas sem excesso 13Vieira, “Annua ou Annaes da Província do Brazil,” 189. 13

e revelando o intenso manuseio sobretudo do grande Virgílio. O estilo, na Ânua do Brasil, reveste-se frequentemente de forma sentenciosa e a expressão do pensamento ou a descrição da realidade física atingem um non plus ultra de perfeição e adequação que são marca pessoal de Vieira, mas, após a leitura dos presentes textos, facilmente conviremos que é comum a todos os seus autores uma elegância de frase, propriedade de vocabulário e ininterrupta fluidez a todos os títulos exemplar. O conceptismo, em Vieira, se surge, é comedido, e certos laivos de ironia, muito seus, jungem-se à manifestação constante de um brio patriótico que amiúde avulta com ímpetos vigorosos: embora coincidentes no primeiro aspeto, os confrades lusitanos que aqui coligimos nâo ressaem sobremaneira nos outros dois, embora em todos estes padres, ainda que de forma latente, o orgulho português se possa palpar e até adquira notas que, mesmo à distância de tantos séculos, nâo deixam de comover-nos, como é o caso, por exemplo, da referência, no £ 35 v° da ânua de 1621, à forma como o persistente lusitano culto da circunspeção se ter avindo a despir a capa da sisudez para, em honra da religião nacional, homenagear a Ressurreição de Cristo, numa procissão em que “os portugueses, fazendo-se meninos, ordenaram üa bem concertada dança, que para os cochinchinas foi de muito gosto e pera os nossos de devaçâo, vendo a piedade portuguesa fazer o que por nenhum caso faria senão por serviço de Deus e em tal terra.J, Na ânua do jovem Vieira nâo faltam as notas realistas na caracterização dos indígenas, aos quais e a cujas crenças dá por vezes voz, mesmo em falas abertamente anticristãs, como é caso do cacique Tubarão, ao qual os padres “deram úa bateria pera o converter, mas ele, endurecido, acudiu que o batismo era pera as crianças, e que Deus o nâo criara pera o céu, mas pera morador da terra, em testemunho e prova da qual verdade o pusera nesta e não naquele.”】 ‘Conquanto, naturalmente, nenhum dos nossos autores consiga chegar a um tão genial grau de eficaz brevidade, mesmo assim sâo abundantes nas ânuas da Cochinchina os retratos e debuxos em que a vida religiosa anamita e seus mais conspícuos defensores sâo apresentados com cores vivas e a verdade relativa compatível com quem professava e sobretudo apostolava uma crença assaz diversa. 4・ Instruções oficiais jesuíticas sobre a redaçáo das cartas ânuas Como facilmente se conjetura e já insinuámos, estas coincidências, que procurámos ressaltar entre a ânua modelar de Vieira e as dos seus confrades que aqui se enfeixam, nâo resultam de mero acaso, mas sâo a consequência, nâo apenas de * Ibid., 207. 14

um idêntico molde pedagógico a que um e outros estiveram sujeitos, como filhos espirituais dos colégios da Companhia e portanto da Ratio studiorum que a todos estes norteava, mas igualmente de bem concretas determinações e regras que a corporação jesuítica impunha para a comunicação epistolográfica dos seus membros, como de resto sucedia para todos os aspetos materiais e espirituais que compunham as suas existências de homens e de religiosos. E, de facto, as Regulae Societatis lesu, nas quais se desenvolviam as mais genéricas Constituições da mesma corporação religiosa, dedicam todo um capítulo à regulamentação do modo de escrever os diferentes tipos de correspondência redigida com carácter oficial ou oficioso pelos seus membros. Trata-se da chamada Formula scribendi, que foi aprovada na 2a Congregação Geral, realizada em 1565, mas cujo texto foi depois revisto em 1573 e 1578, sendo este último o que a partir de então será repetidamente impresso durante quase dois séculos. Considerando a importância da chamada Formula scribendi pensámos que, tanto para a correta caracterização deste subgénero literário, como para facilitar a não latinistas o acesso à nossa tradução de uma parte significativa deste texto regulador, que já temos visto imperfeitamente citado e erroneamente interpretado, nâo ficará descabida neste lugar a sua apresentação, em conformidade com o texto latino apresentado nas Regulae Societatis lesu, editadas em Bruxelas, apud Godefri- d乳m Schovartium, no ano de 1626. No seu texto preambular começa a Formula pelas seguintes considerações e ordenações de ordem geral, visando de modo mais detalhado a realidade europeia: [p. 273] “L Para a união dos espíritos na Companhia, pareceu muito bem que exista uma assídua e recíproca correspondência epistolar entre os inferiores e os superiores e se faça uma amiudada troca de notícias de uns para outros, e que se ouça o que, a partir de vários lugares, se transmite para edificação e para conhecimento do que se vai fazendo. 2. Os superiores das casas e os reitores escrevam em cada semana ao seu Provincial, na Europa, e, nas índias, conforme aos seus Provinciais parecer adequado e oportuno. 3. Escrevam, pois, ao seu Provincial acerca da situação de todas as pessoas e coisas, nâo apenas as que se levam a cabo entre os nossos, mas também as que se efetuam através das atividades da Companhia em relação à gente de fora nas casas ou colégios; e nâo somente acerca daquilo que corre de modo satisfatório, mas igualmente acerca do que ocorre diferentemente; e, na medida do possível, procedam por forma a que o Provincial de tudo se inteire como se estivesse presente." [1. Magnopere iuuerit ad animorum unionem in Societate litterarum ultro citroque missarum inter inferiores et superiores frequens commercium et crebro alios de aliis certiores fieri, et audire quae ex uariis locis ad aedificationem et eorum quae geruntur cognitionem afferentur. 2. Superiores domorum " rectores scribant singulis hebdomadis ad suum Prouincialem in Europa, in Indiis uero ut suis 15

Prouincialibus uisum fuerit commodum et opportunum. 3. Scribant autem ad suum Prouincialem de statu personarum et rerum omnium, non solum quae inter nostros, sed etiam quae per ministeria Societatis erga externos in domibus suis uel collegiis fiunt; et non tantum de his quae recte se habent, sed etiam de his quae secus; et quoadfieri poterit curent ut omnia tamquam praesentia Prouincialis cernat.] Um pouco mais à frente, faz-se menção específica da periodicidade a que deve obedecer a correspondência informativa enviada das províncias jesuíticas mais apartadas de Roma: [p. 274] “8. Que os Provinciais das índias escrevam ao Geral quando se oferecer oportuno ensejo de navegação, ao passo que os reitores [275] e os superiores das casas e os mestres de noviços [o façam], uma vez por ano os das índias e duas vezes os do Brasil e os da Nova Espanha, se se oferecer ensejo." [8. Prouinciales Indiarum scribant Praeposito Generali, quando se obtulerit nauigationis commoditas: rectores [275] uero e£ superiores domorum ac magistri nouitíorum ex Indiis semely ex Brasília et Noua Hispania bis in anno, si se obtulerit occasio} Quatro páginas adiante, e com referência direta às cartas ânuas que aqui nos ocupam, podem ler-se estas orientações gerais: [p. 279] "Sobre as cartas ânuas: 26. Que os superiores das casas e os reitores tenham o cuidado de que se registem todas as cousas que dia a dia o Senhor se digna que sejam obradas pelos nossos nas suas casas e colégios, e as que possam servir para a consolação dos nossos e a edificação dos próximos, e que, de entre estas, escolham as mais excelentes para que, depois de devidamente postas por escrito, as enviarem no final de cada ano ao seu Provincial. 27. Que os Provinciais, de entre todas as cartas dos superiores locais e reitores da sua província e dos religiosos que se encontram em missões, depois de suprimirem ou acrescentarem o que parecer conveniente, em cada ano, no mês de janeiro, assinada com seus próprios nomes, enviem para Roma ao Geral um relatório das principais atividades, em latim, para a partir dele se elaborarem depois em Roma cartas ânuas." [De litteris annuis: 26. Superiores domorum atque rectores curent e〃 obseruari quae in dies in eorum domibus collegiisque per nostros Dominus operari dignatur, quaeque ad nostrorum consolationem 〃c proxi- morum aedificationem pertinente, ex quibus seligant óptima quaeque atque in ordinem redacta, sub finem cuiusque anni ad suum Prouincialem mittant. 27. Prouinciales, ex omnibus superiorum localium atque rectorum suaeprouinciae e£ eorum, qui in missio- nibus uersantur, epistulis, reiectis uel additis iis quae uidebuntur, singulis annis mense lanuario, rerum gestarum capita Latine collata (ex quibus deinde unae litterae annales Romae conficiantur) manu ipsorum subscripta Romam ad Generalem destinent 、 16

Seguem-se as instruções detalhadas concernentes à estrutura, ordem e conteúdos a que deve cingir-se a redação do relatório anual, no fundo coincidentes com os que o estudante António Vieira seguiu na sua brilhante estreia literária: "28. Nesta narração abreviada deverá seguir-se a seguinte ordem: no começo 自r-se-á o rol [280] geral dos nossos, tanto em cada uma das casas, colégios e missões, pelos seus nomes, indicando o número dos que neles sâo sacerdotes, precetores, escolares e coadjutores temporais, e igualmente o número dos que neste ano foram admitidos à Companhia e o número dos que faleceram; e nâo será necessário depois voltar a cada um dos colégios ou lugares, a menos que neles aconteça alguma coisa merecedora de narração particular. Primeiramente, ocupar-se-ão dos progressos dos nossos no Senhor; se houver algo que possa contribuir para a edificação espiritual, expô-la-ão; seguidamente, tratarão dos serviços da Companhia para com os próximos, como sejam pregações, santas leituras, doutrinação cristã e exercícios espirituais, visitas a cadeias e hospitais, reconciliação de desavindos, assiduidade na confissão e outras atividades piedosas próprias da nossa regra: de tal maneira porém que só se registem as que forem de alguma importância. Da mesma maneira, [tratarão] das escolas e número e progressos dos alunos, sobretudo nas universidade e colégios superiores; igualmente da estima votada à Companhia; no entanto, só se toque na animadversâo contra ela e perseguições, se existirem algumas, se parecer que hâo de redundar em edificação. Referir-se-âo também ao amor [281] pelos nossos por parte das pessoas piedosas e às esmolas de maior vulto.” [28. In ea compendiaria narratione hic ordo seruabitur: recensebunt initio numerum [280] nostrorum in uniuersum, tum etíam singulis domibus, colle^is et missionibus nominatis, quot sint in iis sacerdotes, praeceptores, scholastici et coadiutores temporales; itemque quot admissi sint eo anno in Societatem, quotque e uita decesserint: negue deinde necesse erit ad sin- gula collegia aut loca redire, nisi aliquid in iis contigerit peculiari narratione dignum. 29・ Agent primo de profectu nostrorum in Domino, explicabunt, si quid in eo genere ad aedificationem facere possit; deinde, de ministeriis Societatis erga proximos, ut de contionibus, lectionibus sacris, doctrina christiana et exercitiis spiritualibus, uisitatione carcerum et hospitalium, reconciliatione dissidentium, de paenitentium frequentia et 成 aliis nostri instituti piis operibus: ita tamen ut ea tantum commemorentur quae sunt alicuius momenti Item, de scholis et discipulorum numero et profectu, praesertim in uniuersitatibus et collegiis maioribus; de bona item Societatis existimatione; de contradictionibus autem et persecutionibus, si quae fuerint, ea tantum attingant, quae aedificationi fore uidebuntur. Dicent etiam de piorum [281] erga nostros caritate et eleemosynis paulo insignioribus. Prossegue a Formula consignando os ditames atinentes ao modus scribendi, nos quais, além das admoestações à discrição e respeito pelo bom nome do próximo, 17

cumpre notarmos o cuidado posto no aconselhar a preservação de informações históricas pertinentes, que mais tarde possam servir de matéria prima para elaborações monográficas mais circunstanciadas, e aqui, de novo, Vieira revela-se mestre, pois a sua narração constitui uma das fontes mais importantes para o conhecimento das peripécias da ocupação e expulsão dos holandeses da Bahia em 1624 e 1625: “30. Tudo isto deverão expor do modo mais completo que for possível (evitando, porém, sempre o serem excessivamente difusos), dando a conhecer todas as circunstâncias, incluindo os nomes daqueles que praticaram estas ações, por forma a que, se houver necessidade, algum dia se possa escrever a [sua] história. Igualmente por este motivo, quando ocorrer alguma cousa digna de memória, a qual todavia, por alguma razão, nâo convenha que chegue ao conhecimento de todos, deverão escrevê-la inteira e completamente, mas separadamente; no entanto, na mais acima referida narração geral, deverão silenciá-la totalmente ou apenas extratar aquelas cousas que possam servir para edificação. E aquelas cousas que dizem respeito às pessoas de fora contem-se de tal guisa que na própria casa ou cidade, onde sâo escritas, e em qualquer lugar, possam ser lidas publicamente sem escandalizar ninguém.M [30. Haec omnia exponent quam plenissime fieri poterit (semper tamen uitata nimia prolixitate), adhibitis omnibus circumstantiis, etiam nominibus eorum qui eas res gesserunt;" 立s, opusfuerit, aliquando conscribi possit Historia. Qua etiam de causa, cum aliquid occurret dignum memória^ quod tamen propter aliquam causam non expediat omnibus uulgari, id scribent separatim integre et perfecte; in illa autem communi narratione uel omnino reticebunt, uel ea tantum excerpent quae aedificationi essepossunt Et quae ad externospertinent, ita narrentur ut in ea ipsa domo aut ciuitate, ubi scribuntur, ac ubique, publice legi citra cuiusquam offensionem possint} Na sua parte derradeira, a Formula dá-nos a conhecer do modo mais explícito um dos desígnios mais importantes que presidiu à implantação e exigência deste tipo de correspondência corporativa. Indica também as soluções práticas que se aconselham para tornar eficaz no mais alto grau o conhecimento e leitura desta singular variedade de género epistolar de criação jesuítica, o qual, por este pendor piedoso a que aqui se visa, poderá também de alguma maneira entrar nos domínios da chamada "literatura espiritual e de edificaçâoM: “3L As cartas ânuas, depois de ultimadas em Roma, deverão ser enviadas para as províncias, para que sejam lidas o mais cedo possível em todas as casas e colégios de cada uma. E, para que os nossos coadjutores temporais colham também algum fruto das cartas em latim, que haja alguém que de alguma maneira lhes dê a conhecer o resumo ou a tradução das mesmas. E nâo devem ficar retidas por mais de duas semanas, a fim de mais rapidamente serem mandadas para outros lugares, e, depois 18

de [282] terem sido lidas em toda a parte, devem ser guardadas e encadernadas na principal casa ou colégio da mesma província.” [3I・ Cum litterae annuae Romae con- fectae adprouincias mittentur, legantur quamprimum in singulis domibus " collegiis. Et ut coadiutores nostri temporales ex Latinis etiam litterisfructum aliquem percipiant, sit aliquis qui illarum summam aut interpretationem aliquo modo eis explicet. Neque ultra duas hebdomadas retineri debent ut ad reliqua loca citius deferantur: postquam uero [282] ubique perlectaefuerint, in praecipua domo uel collegio eiusdem prouinciae asseruentur et simul consuantur、 5・ A Cochinchina: seu nome, geografia, situação política e começos da missionação e perseguições de acordo com o que escreveram alguns autores jesuítas que nesta intervieram Neste capítulo pretendemos respigar e apresentar com brevidade o que acerca dos itens da respetiva epígrafe escreveram três jesuítas, que estiveram ligados às missões da Cochinchina, embora com protagonismo diferente e também diferenciado conhecimento da realidade sobre a qual se pronunciaram. Começaremos por fazer, por ordem cronológica, uma descrição ou caracterização sumária de cada uma das obras, a que em seguida recorreremos. Em 1631 publica-se o primeiro livro exclusivamente dedicado à região asiática de que aqui nos ocupamos, a Relatione delia nuova missione delli PP delia Com- pagnia di Giesu al regno delia Cocincina, scritta dal Padre Cristofaro Borri, milanese, delia medesima Compagnia, chefu uno de primi ch‘entrorono in detto regno^ Roma, per Francesco Corbelletti, 1631. Trata-se de um livrinho de 231 páginas, no qual, na primeira parte, que termina na p. 102, o Autor se ocupa do estado temporal do reino da Cochinchina, e, na segunda, que vai até ao final, versa o “stato spiritual delia Cocincina.55 O padre Cristoforo Borri15 é sobejamente conhecido pela sua 15 Nasceu na região de Milão, em Corbetca, no ano de 1583, e entrou na Companhia de Jesus em 13 de setembro de 1601. Foi enviado em 1615 para Goa e daí para Macau, donde seguiu para a Cochinchina, onde permaneceu por um par de anos. A saúde frágil impôs o seu regresso a Macau, onde esteve no colégio da sua corporação durante um ano. Daqui zarpou para Goa e em seguida, em 1624, para Portugal. Durante três anos lecionou matemática e astronomia na Universidade de Coimbra. De Lisboa passa a Madrid, onde não se demora, seguindo para Roma, cidade onde morreu em 24 de maio de 1632. No ano anterior obtivera autorização da Companhia para entrar na Ordem de Cister, da qual foi expulso ao fim de poucos meses. Vd. Monumenta Histórica Japoniae /. Textus catalogomm Japoniae, edição crítica, introduções a cada documento e comentários históricos de Josef Franz Schütte, SJ (Roma: Apud Monumenta Histórica Soc. lesu, 1975), 1141. - NOTA: As biografias de membros da Companhia de Jesus que podem ler-se no final desta obra, a todos os títulos monumental, estão redigidas (em latim) fundando-se e citando toda a documentação existente nos 19

atividade científica, sobretudo como bem conceituado astrónomo e matemático, vocação que brilhantemente se documenta na primeira parte deste livrinho, onde os seus dotes de observação dos fenómenos celestes e da fauna e flora vietnamitas se revelam de modo conspícuo. A sua permanência de um pouco mais de dois anos na missão da Cochinchina deu-lhe, além da possibilidade de se entregar às observações astronómicas, de que encontraremos referência na ânua relativa a 1620, o contato direto com uma realidade humana nova, que procurou dar a conhecer através do seu livrinho escrito na sua língua materna. O alentejano António Francisco Cardim16 escreveu um livro, a que deu o título belicoso de Batalhas da Companhia de Jesus na sua gloriosa província do Japão、que permaneceu inédito até 1894, ano em que Luciano Cordeiro, com algumas imperfeições na transcrição, sobretudo das datas, o publicou em Lisboa, na Imprensa Nacional, destinando-o à 10a sessão do Congresso Internacional dos Orientalistas. Na dedicatória dirigida ao rei D. Joâo IM o Autor revela as circunstâncias de tempo e motivos que o moveram a escrever aquela obra: “Chegando a esta cidade de Goa por fim de maio de 1650, lancei mão das ânuas da província de Japão para aliviar os trabalhos de viagens tâo compridas." Nas partes do seu livro consagradas ao atual Vietname, o Autor mostra-se muito mais bem informado sobre a região então chamada Tonquim do que sobre a Cochinchina, como aliás seria de esperar da parte de alguém cuja atividade missionária naquelas paragens decorreu na parte central e setentrional do território anamita, a mais vasta e próspera desta nação. arquivos jesuíticos, razão pela qual deverão ser ponto de partida para o conhecimento sólido e sério da vida missionária de todos os inacianos citados no nosso livro* 16 De família fidalga, nasceu em Viana do Alentejo, e ingressou na Companhia de Jesus em 24 de fevereiro de 1611, em Évora. Foi enviado para Goa em 1618 e aqui concluiu os seus estudos filosóficos e rezou a primeira missa. A partir de 1623 passa a integrar a Província do Japão, no colégio de Macau, de onde é enviado a missionar, durante alguns anos, nos reinos do Sudeste Asiático de Ibnquim e Siào. Entre 1632 e 1638 é reitor do colégio de Macau e, nos inícios do ano seguinte, parte para Roma como procurador da Província do Japão. Regressa ao oriente em 1649 e, entre 1652 e 1655, é prisioneiro dos holandeses na ilha de Ceilão. Morreu no colégio da Macau da Companhia a 30 de abril de 1659, 17 E vasta a bibliografia relativa à vida e obra deste ilustre missionário. Limitar-nos-emos a referir as datas mais importantes da sua biografia. Viu a luz da vida em Avinhão, enclave sob soberania papal à data do seu nascimento, no ano de 1593. Em 1612, entrou em Roma na Companhia de Jesus, embarcando para o oriente em 1619, em Lisboa. De Macau, onde chegou, vindo de Goa, em 1623, foi enviado, no ano seguinte de 1624, para a missão da Cochinchina, onde fica até aos começos de Alexandre de Rhodes, de todos os Autores e missionários jesuítas citados neste livro, é sem dúvida aquele ao qual a esquiva e muitas vezes injusta Fama aureolou com mais perenes e lustrosos louros, que em parte lhe são devidos, mas em percentagem maior resultam de um conjunto de circunstâncias com que foi fovoneado pelo destino, a primeira das quais foi a de a França dos séculos xix e xx, colonizadora da Indochina, o considerar como francês.17 Depois do seu regresso 20

definitivo do Extremo Oriente para a Europa, escreveu e publicou em Roma, numa edição subvencionada pela Santa Congregação para a Propagação da Fé e saída dos prelos de Giuseppe Luna, em 1650, uma Relazione de filiei successi delia santa fede predicata da padri delia Compagnia di Giesu nel regno di Tunchino, alia santita di N. S. PP Innocenzo Decimo. Conforme o título informa, neste livro, que pouco depois teve versão para francês, o padre Rhodes teve sobretudo em conta a sua açâo missionária em Tonquim. Ora, além deste livro, nos arquivos da Companhia de Jesus, em Roma, no códice lapSin 69〉entre os fólios 95 r° e o 140 v°, encontra-se um circunstanciado relatório, saído do punho de Rhodes, em latim, aparentemente destinado à publicação, registando a açâo missionária do mesmo sacerdote sobretudo no período em que esteve na Cochinchina. Refere-se também ali aos primórdios da missão jesuíta neste reino e, dada a importância de que se reveste para o nosso escopo, além dos excertos que mais adiante dele faremos, parece-nos útil traduzir e transcrever aqui as primeiras linhas deste pouco conhecido manuscrito: [95] «ITINERÁRIO de dez anos de Alexandre de Rhodes, da Companhia de Jesus, por terra e por mar. tcPorquanto desde o ano 40 deste século, em que toda a nossa Companhia de Jesus perfez um século, até o ano de 1645 fui enviado, por obediência, por quatro vezes à Cochinchina, e também outras tantas, dali expulso, fiii obrigado a regressar a Macau, até ao momento em que, pela mesma obediência, fui destinado a Roma, aonde, com a ajuda de Deus, acabei por chegar sâo e salvo após quase quatro anos neste ano de 1649: pretendendo descrever todo o período de nove anos e alguns meses, tempo este durante o qual nâo tive domicílio algum estável, mas levei uma existência insegura de viajante, em incessantes jornadas e viagens por terra e mar, e percorri vinte mil milhas italianas, decidi-me a dar-lhe o nome de Itinerário. (...) [97] “Por conseguinte, antes de me dedicar à descrição da presente situação da religião cristã no reino da Cochinchina, pareceu-me que valeria a pena referir o que em tempos passados se fez nesta região no respeitante à fè cristã: é que, no que tange à situação temporal e usos e costumes desta nação, já disso me ocupei de 1626. No ano seguinte é mandado, na companhia do português Pedro Marques, para Tbnquim, para aí fundar nova missão jesuíta, aqui permanecendo até à sua expulsão deste reino, em 1630. Permanece em Macau no decénio 1630-1640, realizando entre este derradeiro ano e o de 1645 três ações missionárias, de diferente duração, na Cochinchina, da qual, depois de definitivamente expulso, depois de breve passagem por Macau, parte para a Europa. Aqui, reside em Roma até 1652, donde se dirige para a sua pátria gaulesa, a partir da qual, depois de uma permanência de dois anos, se dirige para a Pérsia, onde vive cerca de cinco anos, falecendo em Ispaâ, no dia 5 de novembro de 1660. Vd. Schütte, Monumenta Histórica Japoniae I, 1279, Jacques, uLe Portugal et la romanisation,,> 23. 21

modo assaz abundante na Relação de Tonquim^ que, no ano de 50 deste século, foi mandada imprimir às custas da Santa Congregação para a Propagação da Fé. (...) Por conseguinte, para passar a narrar com brevidade aquilo que, há cerca de trinta anos atrás, quando fui para a Cochinchina, me foi contado pelos nossos primeiros missionários, que foram os primeiros a plantar a vinha do Senhor e a cultivaram com imensos trabalhos e tribulações, é o seguinte.” [Alexandri de Rhodes, e Societate lesu, terra marique decem annorum ITINERA- RIVM 〃 Quoniam ab anno huius saeculi quadragésimoy quod nostrae Societati lesu uniuersae fu it saeculare, usque ad quadragesimum quintum quater ab oboedientia in Cocincinam missus sum, " totiens etiam inde eiectus Macaum redire coactus sum, donec ab eadem oboedientia Romam sum destinatus, quo tandem, Deo iuuante, post quattuor firme annosf feliciter appuli hoc anno quadragésimo nono: totum hoc nouem annorum et aliquot mensium curriculum describere cuptens, quo toto tempore nullum stabile domicilium habui, sed in perpetuis itineribus qua terrest)'ibus qua maritimis incertam uiatoris uitam duxi confecique ad uiginti millia milliariorum Italicorum, Itinerarium nuncupare statui. (.. J [97] Antequam igitur ad praesentem christianae religionis in Cocincinae regno statum describendum accedam, operae pretium mihi uisum est quid praeteritis temporibus in ea regione actum sit circa christianam fidem: nam, de statu temporali ac moribus ritibusque huius nationis iam egi satis copiose in Relatione Tiinchinensi, quae anno quinquagésimo huius saeculi typis mandata e" ope Sacrae Congregationis de Propaganda Fide. (...) Vt igitur succincte referam quae ante triginta circiter annos, cum in Cocincinam sum profectus, accepi a primis nostris, qui uineam illam primi plantarunt atque ingentibus laboribus et angustiis coluerunt, haec sunt.] 5ᅠI. NOME: Vejamos o que dizem sobre o nome Cochinchina dois destes Autores, que por essas terras andaram e procuraram inteirar-se da sua realidade física e humana. O milanês Cristoforo Borri pronuncia-se nos seguintes termos: [5] 'A Cochinchina, assim chamada pelos portugueses, é designada pelos seus habitantes como Anam, palavra que significa “região ocidental”,sendo de facto este reino “ocidental” em relação à China; pelo mesmo motivo foi chamada pelos [6] japoneses na sua própria língua como Coci^ que significa o mesmo que Anam 18 A Relazione de filiei successi atrás citada, publicada em Roma em 1650. Note-se a divergência de datas entre esta passagem e a escrita algumas linhas acima, que revela o espaçamento entre os diferentes períodos de tempo em que Rhodes se entregou à redação deste escrito, ao qual claramente falta o acepilhamento e demão final. 19 Tanto aqui como nos restantes textos traduzidos do italiano, tenha-se em conta, para as questões da pronúncia, que nos nomes anamitas mantivemos a grafia dos originais impressos. 22

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