Vietname.7 Também claramente se colige, do que fica dito, a grande importância de que a leitura crítica destes documentos se reveste para as mais diversas áreas do saber, desde a etnografia e a linguística8 até à história religiosa, política, económica e social, tanto numa perspetiva exclusivamente local, como na da interação, sob os mesmos pontos de vistas, além do cultural e diplomático, com o Japão,9 a China e, sobretudo, Macau. 7 Em Portugal, deve-se a Isabel Augusta lavares Mourão a recuperação de muita informação sobre as interações entre os portugueses e os territórios do atual Vietname a partir da documentação jesuítica. No final da sua obra, a autora apresenta, como também o fizera já o Padre Manuel Teixeira, uma relação dos jesuítas que serviram como missionários na Cochinchina. Veja-se, Manuel Teixeira, Macau e a sua Diocese, vol. 14 (Macau: Imprensa Nacional, 1977), 394—485; Isabel Augusta lavares Mourão, Portugueses em Terras do Dai- Viêt (Cochinchina e Tun Kim), 1615—1660 ([Macau]: Instituto Português do Oriente, 2005), 317—26. 8 “La création du quoc ngu [í. e., escrita romanizada do vietnamita] ne peut se comprendre que comme une oeuvre avant tout portugaise, qui se situe dans un ensemble d' initiatives interculturelles semblables." Jacques, ctLe Portugal et la romanisation,” 21. 9 Ao que sabemos a presença japonesa na Cochinchina no período compreendido pelas ânuas que agora publicamos não foi objeto de um estudo muito profundo, para o qual deverão inquestionavelmente contribuir nâo pouco estas mesmas cartas. Mesmo assim sugerimos, como visão geral séria, o estudo de Yòshiaki Ishizawa, a Les quartiers japonais dans 1' Asie du Sud-est au XVIIe siècle,M in Guerre et Paix enAsie du Sud-Esf 、ed. Nguyen Thê Anh et Alain Forest (Paris: U Harmattan, 1998), 85-94. Aqui publicamente exaramos o agradecimento à gentileza do Professor Ishizawa, que, respondendo prontamente à nossa solicitação, mui amavelmente nos enviou cópia do seu artigo. 10 António Guimarães Pinto, “Literatura Novilatina na Receção ao Novo Bispo de Coimbra D. Afonso Furtado de Mendoça no Colégio dos Jesuítas;' Boletim do Arquivo da Universidade de Coimbra 34, no. 1 (2021): 85-199. Os textos de Gaspar Luís podem ler-se nas pp. 125-34 (tradução) e 163-73 (latim). Por derradeiro, o viés estético-literário pesou nâo pouco na hora de nos decidirmos a esta empresa, na qual um historiador e um filólogo se uniram no propósito comum de salvar do esquecimento documentos, preciosos como tais, mas a que se adita, em todos eles, uma inequívoca qualidade literária, tanto nos textos redigidos em latim, como nos que o foram em vernáculo, mesmo quando saídos da pena de um estrangeiro, como é o caso do exímio poliglota Alexandre de Rhodes. De facto, talvez por pertencerem ao período da história da língua portuguesa em que esta se aproximou do seu ponto máximo de perfeição (que pensamos corresponder aos meados do século XVII), e por se tratar também de textos de finalidade pragmática, que nâo consentiam os desvarios gongóricos a que alguns prosistas de então se entregaram, a verdade é que qualquer uma das ânuas se pode ler como uma amostra e lição de excelente vernáculo, em que um vocabulário rico e expressivo se consorcia com períodos elegantemente cadenciados, vez ou outra nervosamente céleres, amoldados sempre ao fito posto na clareza. No caso das duas cartas latinas de Gaspar Luís devemos confessar que em nada desmerecem da boa opinião que dele formámos ao traduzir os textos com que, em prosa e verso, contribuiu, no Colégio jesuítico de Coimbra, onde então lecionava, para a solene receção oferecida ao bispo recém-empossado.10 Curiosamente, nas duas espécies que agora se 11
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