transcrevem e traduzem, parece ter tomado como modelo sobretudo Salústio, num estilo conciso e sentencioso de que o nosso derramado português torna por vezes difícil dar ideia, e que foram inteiramente anulados numa versão parafrástica que se publicou em italiano poucos anos após a redação do original. Ora, para bem entender-se esta dimensão literária na qual se inserem todos os escritos que se recolhem neste livro que agora pomos nas máos do benévolo leitor, parece que virá de molde espraiar-nos um pouco sobre o que se deverá entender por “carta ânua." 3・ Vieira: um paradigma O jesuíta António Vieira, a quem pensamos que ninguém regateará o título de maior prosador português do século XVII, se não se quiser alargar essa qualidade a todo o âmbito cronológico e geográfico dessa mesma língua, iniciou a sua longa atividade de escritor em 1626, portanto aos dezoito anos, com uma longa Carta ânua do Brasil, 11 relativa ao biénio 1624-1625, e que constitui, não apenas um texto literário que não desmerece ao lado dos mais logrados do seu autor, mas também um paradigma insuperável dessa espécie de subgénero literário de criação jesuítica. Como se sabe, bem inteirados da superioridade intelectual e literária do moço estudante, os seus superiores religiosos de Salvador da Bahia (ao assinar-se, o Autor diz que escreve “por comissão do padre Vice-provinciar,) decidiram-se a encarregá -lo da redação, em português e latim (num texto mais reduzido)12 do relatório, dirigido ao Geral Muzio Vitelleschi, relativo não apenas às atividades e eventos internos da ordem, como igualmente externos, da Província brasílica, nos quais os inacianos se viram forçados a participar por força do desembarque e ocupação da capital do estado por parte de tropas holandesas, num período que decorre entre maio de 1624 e março do ano seguinte. O desempenho do moço estudante, com data final de 30 de setembro de 1626, foi, como já dissemos, brilhante e pedimos vénia ao leitor para dele fazer um brevíssimo resumo e caracterização. 11 Embora existam várias edições deste texto, servimo-nos para a leitura da lição adotada em 'Annua ou Annaes da Província do Brazil dos dous annos de 1624, e de 1625,” Anais da Biblioteca Nacional do Rio 成 Janeiro 19 (1897): 176—217. 12 Nos ARSIexistem dois autógrafos desta versão latina, do punho de Vieira e datados, um de 21 de novembro e o oucro do Io de dezembro de 1626. Também ali se encontra o original em português, com a data que indicamos no corpo do nosso texto. Vd. Francisco Rodrigues, “O Padre António Vieira: contradições e aplausos (À luz de documentação inédita),M Revista de História 11 (1922): 83. Não conhecemos o teor, mas sabemos que a italiana Nicoletta Madia apresentou uma tese, apenas em edição mimeografada, subordinada ao título seguinte: La Carta Anua dei 1626 di Padre António Vieira. Confronto fra £ manoscritti latini Bros. 8, 342-351 Bras. 8, 366-375 e / 'edizione deli' Annua dei 1626presente nelle Cartas (Roma: La Sapienza, 2008). 12
RkJQdWJsaXNoZXIy MTQ1NDU2Ng==