Ia parte: Introdução geral: explicação do atraso no envio do relatório anual, ou carta ânua, e da necessidade portanto, de se acumularem duas em uma; 2a Conspecto geral da situação da Província jesuítica do Brasil: número de homens, casas, colégios, residências; 3a Exposição detalhada da situação de cada unidade operativa, que se reparte do modo seguinte: a) biografia/retrato de membros da Companhia falecidos, com seu elogio, no qual, em tom hagiográfico, se ressaltam as qualidades morais e religiosas, com especial incidência nas que se consideram mais especificamente jesuíticas; b) descrição geográfica da região onde se exerce a ação missionária; c) descrição minudenciosa de sucesso relevante: no caso, a ocupação de Salvador pelos holandeses, cerco posto à cidade pelos portugueses e rechaço final dos intrusos; e) para exalçamento da religião e da ação missionária, selecionam-se e apontam-se “alguns casos mais notáveis", conforme a expressão de Vieira. Quanto à parte formal ou estilo, tomando esta palavra num sentido amplo, é evidente que a genialidade do Autor é elemento precípuo e por definição intransferível, mas convém nâo desvalorizar a importância da formação e da pedagogia jesuíticas que atuaram, nâo apenas sobre a mente, mas também na forma como esta se vazava no discurso oral ou escrito de Vieira. Daí que, ao caracterizarmos a expressão verbal ou pendores estilísticos presentes neste seu texto, estamos do mesmo passo a resumir muitas das tendências, preferências e particularidades de comunicação escrita que frequentemente iremos encontrar nas cartas ânuas dos seus confrades de todo o vasto âmbito por onde eles se espalharam. Assim, em breve cômputo, assinalaremos a vivacidade na descrição de ações, o colorido, a atenção ao pormenor caracterizador, as alusões e aproximações históricas, reveladoras de bom conhecimento e assimilação dos historiadores clássicos, a sobriedade expressiva, que, por vezes, pelo seu tom incisivo, direto e iterativo/ anafórico nos lembra Júlio César. Veja-se o trecho seguinte, que, ao que nos quer parecer, se poderá aproximar de alguns passos das ânuas latinas de Gaspar Luís, que curiosamente, escritas em 1621 e 1626, sâo contemporâneas da de Vieira: 'Aqui se administram os sacramentos e justiça. Aqui se curam os enfermos. Aqui se guarda e distribui todo o mantimento dos soldados. Daqui finalmente saem para os assaltos, tornando a demandar o mesmo lugar. Fortifica-se este porto com cavas, trincheiras e plataformas nos passos de mais importância, em os quais assentaram alguas peças de üa nau que escapou das mãos do inimigo."二 Verifica-se também uma característica que surge com alguma frequência nas cartas que compõem o livro que o leitor tem agora nas mãos: a memória pronta para alusões clássicas, sobretudo ligadas a episódios épicos, aduzidas sem excesso 13Vieira, “Annua ou Annaes da Província do Brazil,” 189. 13
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