A carta ânua em latim que aqui se transcreve é, em nossa opinião, do ponto de vista literário, a peça de menores quilates de entre as aqui reunidas. O seu latim, embora correto, não prima nem pela elegância nem pela fluidez. Pelo que podemos conjeturar pela informação dos que estão em condições de avaliá-lo nesses domínios, o padre Maiorica guardou para a língua anamita os dotes literários que escassamente demonstrou no idioma do Lácio. Ouçamos agora o padre Rhodes, confrade que muito bem o conheceu: [97] “E a ele31, pouco depois, a saber, no ano de 24 deste século, juntou-se como companheiro o padre Jerónimo Majorica, napolitano, operário sobremaneira ativo, após uma dilatada navegação, na qual foi arrebatado, na companhia de portugueses, pela violência de uma tempestade, para Macáçar ou ilhas Celebes, não sem particular providência de Deus. É que ali prestou inestimáveis serviços, nâo só aos portugueses, pondo-os no bom caminho da verdadeira religiosidade, mas também a certos nativos, aos quais excelentemente instruía e fortificava na fè, e esforçadamente acautelava contra o governador daquele reino,32 sequaz da pestífera seita maometana, para evitar que caíssem no inferno da mesma seita. Transportado por fim pelos mesmos portugueses para a Cochinchina, dirige-se para a província de Qui Nhin33 e aplicou-se de modo singular ao aprendizado da língua anamita e dela se tem servido ao longo já de trinta anos para benefício de todo o povo anamita. 31 Ao padre Francesco Buzomi. 32 “This was Karaeng Matoaya, Governor of Makasar (Goa-Tallo) during the reign of King- Sultan Alauddin", segundo informa o editor e anotador do livro The Jesuit Makasar Documents (1615-1682), ed. Hubert Jacobs SJ (Rome: Jesuit Historical Institute, 1988), 110. 33 Hoje Quy Nhon, correspondente à Pulocambi dos textos portugueses. a Primeiro na própria Cochinchina, até ao ano 1629, [98] no qual, depois de ter sido desterrado por aquele rei juntamente com outros padres, se deteve, preso durante dois anos, no reino de Champá, onde se refugiara, ao fugir de piratas, até que, escapulindo-se, com proveito imenso da missão de lonquim, para esta foi enviado no final do ano de 1631 ou começo do de 1632, e até hoje persevera naquela missão apostólica, ao longo de um período de trinta e mais anos, com imenso trabalho e fruto. Com efeito, na última carta que dele recebi, escrita no ano de 1649, conta que, de quinze mil homens que no reino de Ibnquim tinham sido batizados só no ano antecedente, ou seja, no ano de 1648, o padre Jerónimo sozinho batizara seis mil, algo que certamente causa espanto, uma vez que unicamente a ele, que já tem mais de sessenta anos de idade, sem qualquer companheiro, foi inteiramente confiado o cuidado dos cristãos na província de Nghe An: na qual, saiba-se, há mais de trinta mil cristãos, dispersos por aqui e por ali em diversas 38
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