9789728586621

No livro do António Francisco Cardim encontrámos uma relação mais sistemática das principais perseguições a que estiveram sujeitos os missionários jesuítas que atuaram na Cochinchina na segunda e terceira décadas do século XVII: [180] “No ano de 1623 mandou o mesmo governador de Cachão que os padres que estavam na província de Ranran tornassem para Faifo, porque nâo era contente que fizessem cristandade naquelas partes. No ano de 1625 houve grande perturbação na igreja de Cachão por entrar no tempo da missa, na festa do Natal, um tropel de soldados, que tomaram aos cristãos muitas cabaias ricas e fizeram outras insolências nas casas dos padres, nascido tudo de algum estrondo com que se celebrara a santa noite. No ano de 1629 começou a primeira perseguição geral, movida pelo rei velho Om Tiiy. Mandou que os padres totalmente se saíssem de suas terras, derribaram os soldados a igreja de Faifo e casas que os padres ali tinham, o que nasceu de queixas falsas dos cristãos derribarem [181] os pagodes e lhes fazerem descortesias, e juntamente porque, com a presença dos padres, ficavam as terras esterilizadas e o céu estava feito de bronze e não chovia a seus tempos costumados. 〃 No ano de 1630, sabendo que dois padres, por nâo chegarem a tempo de se embarcar para Macau, ficaram escondidos na província de Ranran, onde foram roubados e espancados, tornou el-rei a desterrá-los de novo do seu reino, por sentença intimada publicamente no bazar de Ranran, persistindo o rei em sua teima (...) por espaço de cinco anos, que tantos foram os que alguns padres andaram escondidos, discorrendo pelas aldeias, já no mar em barquinhos, já em terra disfarçados. Contudo permitia o rei fossem a seu reino, ida por vinda, na embarcação de Macau.” O padre Rhodes, no Itinerarium, ajuda com algumas ligeiras pinceladas a dar a derradeira demão neste breve conspecto sobre o início e dificuldades padecidas pela missão jesuíta da Cochinchina. Mais à frente, podemos ler como, depois de se referir à perseguição de 1625, a que aponta como principal motivo a crença que se espalhou entre os nativos de que os cristãos eram contrários às demonstrações de respeito pelos parentes mortos, nâo deixa de insinuar como parcial culpado o zelo indiscreto de algum confrade: [95] “O padre Francisco Buzomi, napolitano, o primeiro da nossa Companhia que levou a nova do santo Evangelho à Cochinchina, no ano de 1615; a partir deste ano, embora atravessando tempos muitíssimo difíceis (...) como o Evangelho já ali tivesse sido recebido e muitos tivessem aderido a Cristo através do batismo, aquela região nunca foi totalmente abandonada pelos nossos, porque, conquanto muitas vezes expulsos por aquele rei, mesmo assim regressaram repetidamente, sempre providos de pequenos presentes, para com eles cativarem a boa disposição do rei gentio, [e conseguindo] condições para ensinar os cristãos, e assim aos poucos o 28

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