moradas cujas portas1 ele, a bem ou a mal, mas com suado esforço, foi abrindo: mesmo assim, lá nos recessos da sua consciência, acha que em boa verdade nâo merece ser tratada a coices a linhagem a que pertence, mesmo que eles procedam de um equídeo de tâo elegante traça e harmonioso trote como o reverenciado Conrad, mais proclive do que parece, na sua cortical non-chalance positivista, à exaltação dos cometimentos do imperialismo desalmado da sua pátria adotiva, é certo que sem chegar aos nauseantes extremos ditirâmbicos do pedante e verborreico Rudyard Kipling, seu contemporâneo. 1 Nâo deixa de ser histórica e filologicamente interessante o fecto de que, em grande número de línguas do Oriente, a palavra portuguesa “chave” tenha sido adotada para designar este instrumento. 2 Pela primeira vez usada por George Winius, no artigo “The shadow Empire of Goa in the Bay of BengalJ Itinerarium 7> no. 2 (1983): 93-101. 3 Luís Filipe Thomaz, La expansión Portuguesa: un prisma de muchas caras (Bogotá: Universidad de los Andes, 2016), 159. E a verdade é que, já fora do âmbito ficcional, o modo como a historiografia internacional se ocupou no século xix e grande parte do xx da atuação e marcas da presença portuguesa nas regiões extremo-orientais, com a exceção de Malaca, China e Japão, tem primado ou pelo desdenhoso silêncio ou pela acintosa parcialidade, com os quais as potências neocoloniais procuraram erigir-se em únicas e providenciais promotoras do progresso económico e da civilização europeia naquelas paragens remotas. Assim, ao lado das referências, forçosamente incontornáveis e quase sempre displicentes, ao império “o£ciaT lusitano, adscrito à península hindustânica e regiões imediatamente circunjacentes, com suas cidades e fortalezas emblemáticas e seus vice-reis, governadores e capitães nomeados por Lisboa, votou-se longamente ao olvido a intervenção portuguesa, durante os séculos xvi e XVII, na maior parte da Insulíndia e no Sudeste Asiático. Ora, foram estes os espaços geográficos que constituíram o uimpério sombra5, expressão2 que Luís Filipe Thomaz defende para designar a “diáspora espontânea de aventureros, mercenários y piratas por las zonas donde la presencia oficial de la Corona era débil o inexistente.>,3 Neste rol de profissões e atividades caberia incluir os missionários, sobretudo jesuítas, os quais, embora vinculados a uma corporação internacional, no período a que nos estamos a referir, tinham como campo de atuação territórios que, do ponto de vista da organização eclesiástica, faziam parte do Padroado português, para além do facto de que, na sua grande maioria, eram cidadãos portugueses. Este véu de silêncio lançado sobre a vida e obra lato sensu de tantos portugueses, muitos dos quais uniram os seus destinos pessoais, quase sempre mediante vínculos de sangue, aos das populações em cujas terras se instalaram, originando uma nova linhagem humana e contribuindo, ainda que de modo modesto, para a configuração cultural e mundividência das gentes com que se cruzaram, este obstinado desconhecimento de um período de algumas décadas, 8
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