de «quase total vazio a nível de investigação e de historiografia sobre Macau e as novas relações com a China»16, e trinta anos mais tarde acrescentou que: 16 Ramos, João de Deus, «Declaração Conjunta sobre Macau: Um Olhar Retrospectivo», op. cit., p. 423. 17 Ramos, João de Deus, «Sinocentrismo, Diplomacia e a Embaixada de Alexandre Metelo», Portugal e a Ásia Oriental, Fundação Oriente, Lisboa, 2012, p. 113. A historiografia recente trouxe valiosos contributos quanto ao surgimento de Macau e quanto a Êises mais recentes e um tanto esquecidas da sua evolução bem como análises mais profundas e documentadas de períodos determinantes das relações sino-portuguesas. [...] Estou confiante que os anos vindouros serão propícios aos estudos luso-chineses, libertados que estarão os historiadores de alguns ónus mais políticos e psicológicos do que científicos.17 A motivação subjacente à publicação do presente livro foi suprir esta lacuna, utilizando documentação oficial e entrevistas concedidas a título oficioso por algumas das personalidades portuguesas envolvidas nas negociações, oferecendo uma análise enquadrada pelo contexto interno em que os responsáveis políticos portugueses operavam. O objetivo não foi analisar exaustivamente os processos e tomada de decisão da política externa portuguesa e chinesa, mas sim a forma como o Governo português formulou e implementou a sua estratégia para Macau. Este comportamento foi influenciado por algumas variáveis externas, como a posição da RPC, que teve um forte impacto no processo decisório interno português. As negociações luso-chinesas para a retrocessão de Macau constituíram um exemplo de negociação assimétrica, uma vez que a China era, na altura, uma grande potência, pelo menos a nível regional, e Portugal um país pequeno e firaco na cena internacional. Assim, do ponto de vista teórico, o livro contribui para o estudo de negociações assimétricas, área em que os modelos de negociação internacional não estão suficientemente desenvolvidos. As negociações luso-chinesas decorreram em dois períodos diferentes, separados pela assinatura da Declaração Conjunta de Macau, em 1987. No primeiro período, de 1986 a 1987, as negociações da Declaração Conjunta seguiram as fases de um processo de negociação clássico: pré-negociação, definição da fórmula, e discussão dos detalhes. No período de transição, de 1988 a 1999, alguns dos dossiês negociados revelaram melhor do que outros as tensões entre Portugal e a China e os objetivos da parte portuguesa. Foram analisados dois níveis diferentes de diplomacia: a rotina burocrática e os encontros de alto nível. As reuniões entre as delegações portuguesa e chinesa decorreram no plano da rotina burocrática, mas algumas questões, pela sua complexidade, requereram o envolvimento direto de personalidades políticas. 19
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