editora, assim como ênfase da inóspita realidade da tradução literária de obras chinesas em Portugal até então. Quando pensamos na relação entre China e Portugal, é natural pensarmos logo em Macau, essa terra de amálgamas que tem vindo a reivindicar o papel de ponte entre ocidente e oriente. No que se refere à literatura, o território macaense tem sido um ponto importante para o intercâmbio cultural e para iniciativas literárias. De acordo com Yao Jingming (2021), o Instituto Cultural de Macau tem vindo a promover, desde a sua criação em 1982, a literatura chinesa em língua portuguesa, especialmente a poesia e os textos clássicos. Ao longo das últimas décadas, Macau tem sido o berço de antologias de poesia clássica, de obras de autores locais, e claro, das traduções resultantes do incansável trabalho do tradutor António Graça de Abreu. Porém, a circulação destas traduções, aponta Yao, é limitada e não influencia significativamente a visibilidade de uma China literária nas livrarias portuguesas. Em Portugal, a parca presença de literatura chinesa traduzida é sempre recebida com algum espanto. A busca por possíveis justificações para este vácuo literário é quase imediata: desde dúvidas sobre o potencial de escritores chineses contemporâneos até à resignação pelo reduzido tamanho do mercado português, passando muitas vezes por razões mais práticas, como a falta de profissionais de tradução ou de pessoas capazes de estabelecer as pontes culturais necessárias para avançar entre terras e línguas aparentemente distantes entre si. A verdade é que este panorama tem vindo a transformar-se nos últimos anos, apesar de continuarmos agarrados a ideias menos actualizadas. Desmontemos, então, algumas destas ideias. A literatura chinesa, enredada numa língua (e línguas) e culturas muito singulares, já demonstrou o seu valor, obtendo em vários casos um destacado reconhecimento internacional: para além de Mo Yan, detentor do Prémio Nobel da Literatura em 2012, e de Gao Xingjian, Nobel da Literatura em 2000, já vários outros nomes vingaram fora da China, tanto no que se refere ao sucesso editorial como de reconhecimento da crítica. Sem necessidade de mencionar os clássicos da China Antiga, autores da era moderna como Lu Xun, Lao She, Zhang Ailing ou Shen Congwen já não passam despercebidos no ouvido internacional; autores contemporâneos como Yu Hua, Bei Dao, Yan Lianke e Can Xue são uma presença assídua nas estantes de literatura chinesa traduzida no ocidente; e, nos últimos anos, a ficção científica chinesa tem suqjreendido o público internacional com novas formas de imaginar. 10
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