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A Revista Nova Juventude Experimentalistas da Literatura Moderna Chinesa Telma Carvalho Centro Científico e Cultural de Macau, LR EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E INOVAÇÃO 溟 片 大 学 UNIVERSIDADE DE MACAU UNIVERSITY OF MACAU
Título A Revista Nova Juventude e os Experimentalistas da Literatura Moderna Chinesa Autoria, selecção e tradução de textos Telma Carvalho Coleção Língua e Cultura Coordenação: Carmen Amado Mendes Publicado por Centro Científico e Cultural de Macau, I.P. Rua da Junqueira, 30 1300-343 Lisboa 一 Portugal www.cccm.gov.pt | geral@cccm.gov.pt • Tel. (+351) 213617570 Universidade de Macau Avenida da Universidade, Taipa Macau - China www.um.edu.mo | info@um.edu.mo Tel. (+853) 8822 8833 Pré-impressão, impressão e acabamento Editorial do Ministério da Educação e Ciência Tiragem: 800 exemplares Imagem da capa Revista Nova Juventude, vol. 4, n.° 5, domínio público ISBN: 978-972-8586-69-0 Depósito legal: 538 721/24 © Todos os direitos reservados.
Esta publicação é uma adaptação do relatório de projecto académico realizado em2019 com a orientação do Professor DoutorAntónio Barrento. O trabalho, sujeito a apreciação e discussão no início de 2020, foi aprovado com sucesso e classificado com nota máxima, conferindo à autora o grau de mestre em Tradução, atribuído pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. De forma a facilitar a leitura, a utilização de caracteres chineses, quando considerada relevante, segue a seguinte organização: tradução portuguesa {transliteração 中文) No entanto, a formula acima não se aplica aos nomes próprios. Nestes casos, optou-se pela transliteração sem itálico seguida dos respectivos caracteres chineses na primeira referência (por exemplo, Lu Xun 鲁迅)e apenas a transliteração nas ocorrências seguintes. A transliteração segue o método Pinyin (hanyu pinyin 汉语拼音),excepto em casos de conceitos ou personalidades cuja familiaridade se criou fora deste método (por exemplo, Sun Yat-sen e não Sun Zhongshan). Texto escrito conforme a norma ortográfica de 1945 por decisão da autora. 3
Agradecimentos Deixo aqui um sincero agradecimento a todos os professores que me guiaram durante os meus estudos da língua chinesa em Portugal, Macau e Pequim e, mais recentemente, na área de Tradução e investigação académica. Uma menção especial para a Professora Elisabetta Colla, pelo seu entusiasmo e prontidão, assim como para a Professora Sara Mendes, pelas suas sugestões durante a defesa desta tese. Agradeço também à Professora Carmen Amado Mendes e à instituição que preside, o Centro Científico e Cultural de Macau, pelo encorajamento na divulgação deste trabalho. É um grande privilégio ter como docente e orientador o Professor Doutor António Hawthorne Barrento. Agradeço a sua disponibilidade e atenção na partilha de conhecimentos na área da língua e história chinesas, sempre com um exemplar sentido de rigor e humildade. Por fim, um agradecimento especial à minha família, aos meus amigos e ao Tiago: pela inspiração, pelas conversas e por todo o apoio. 4
índice Agradecimentos 4 PARTE I: ALGUMAS EXPERIÊNCIAS LITERÁRIAS 7 Nota Introdutória 9 Chen Hengzhe 陈衡哲 13 《一日》 13 Um dia 20 《小雨点》 28 Pingo de Chuva 32 《人家说我发了痴》 36 Dizem que Fiquei Maluca 38 Lu Xun 鲁迅 40 《狂人日记》 40 Diário de um Louco 47 《孔乙己》 57 Kong Yiji 60 Zhou Zuoren 周作人 65 《小河》 65 Pequeno Rio 67 《儿歌》 70 Cantiga Infantil 71 《两个扫雪的人 》 72 Dois varredores de neve 73 Liu Bannong 刘半农 74 《相隔一层纸》 74 Separados por uma Folha de Papel 75 《卖萝卜人 》 76 Vendedor de Nabos 77 《教我如何不想她》 78 Como posso não pensar nela? 79 5
PARTE II: CONTEXTUALIZAÇÃO, COMENTÁRIO E ANÁLISE LINGUÍSTICA 81 Introdução 83 1. Um Ponto de Vista sobre o Acto de Traduzir 85 2. Enquadramento 87 2.1. Contexto histórico 87 2.2. A Revolução Literária e o Movimento Nova Cultura 91 3. A Revista Nova Juventude 93 3.1. Hu Shi ílòê e as sugestões para uma reforma da literatura 96 3.2. Chen Duxiu 陈独秀 e a chamada para a revolução literária 100 4. Principais Figuras e as suas Tentativas Literárias 104 4.1. Chen Hengzhe 陈衡哲 104 4.2. Lu Xun 鲁迅 110 4.3. Zhou Zuoren 周作人 117 4.4. Liu Bannong 刘半农 123 5. As Mudanças Linguísticas 128 Conclusão 137 Bibliografia 139 6
PARTE I: ALGUMAS EXPERIÊNCIAS LITERÁRIAS
Nota Introdutória As traduções de ficção e poesia que integram a primeira parte do livro, e que viajam no espaço e no tempo até nós desde o início do século XX chinês, são, à primeira vista, simples experimentações literárias. A contextualização, desenvolvida na segunda parte, realça as implicações que tais aparentes simplicidades tinham na língua e sociedade chinesas. Dessa forma, na segunda parte do trabalho, a Literatura lança âncora numa forte contextualização histórica para nela se ler uma China. Desafiando a perspectiva formalista que considera a expressão literária como independente das condições sociopolíticas que a contém, propõe-se nesta parte do livro uma leitura que extravasa as páginas da revista Nova Juventude e que caracteriza, ou tenta caracterizar, um momento da grande jornada que foi o processo de reforma do chinês vernacular. Não obstante um interesse pessoal por este tipo de caracterização, acredito igualmente que a literatura não é somente um produto dos seus autores e da sua contextualização, sendo que um texto literário pode simplesmente sê-lo. Assim, para possibilitar diferentes leituras de acordo com o interesse do leitor, encontramos eni primeiro lugar os textos originais e as respectivas traduções, e em páginas separadas, na segunda parte, uma interpretação de vários aspectos contextuais. Estas traduções surgiram da ânsia de querer abraçar toda a literatura chinesa e trazê-la para Portugal. Depois de rapidamente sucumbir a tamanha impossibilidade, decidi começar pelo início da fase moderna, e as páginas da revista Nova Juventude mostraram-se profícuas para uma introdução à literatura chinesa. Aqui encontram-se nomes grandes da literatura, como Lu Xun, mas também figuras que apenas tiveram um papel activo na revista e nos círculos culturais e educativos da altura sem gravar a posterioridade da literatura do país. Porém, pretendo demonstrar que marcaram a sua contemporaneidade em vários aspectos, como o papel da mulher na literatura e educação, a experimentação na expressão poética, ou a criação de novas estruturas linguísticas. A maioria dos textos aqui apresentados vê pela primeira vez a sua expressão em língua portuguesa, exceptuando o clássico conto "Diário de um Louco" de Lu Xun, que integra uma rara publicação em Portugal: uma antologia de algumas das obras do autor traduzida directamente do chinês, intitulada Ervas Silvestres, publicada em 1998 pela editora Cotovia e com tradução de Sun Lin e de Luís G. Cabral. Digo rara publicação tanto como elogio à iniciativa dos tradutores e da 9
editora, assim como ênfase da inóspita realidade da tradução literária de obras chinesas em Portugal até então. Quando pensamos na relação entre China e Portugal, é natural pensarmos logo em Macau, essa terra de amálgamas que tem vindo a reivindicar o papel de ponte entre ocidente e oriente. No que se refere à literatura, o território macaense tem sido um ponto importante para o intercâmbio cultural e para iniciativas literárias. De acordo com Yao Jingming (2021), o Instituto Cultural de Macau tem vindo a promover, desde a sua criação em 1982, a literatura chinesa em língua portuguesa, especialmente a poesia e os textos clássicos. Ao longo das últimas décadas, Macau tem sido o berço de antologias de poesia clássica, de obras de autores locais, e claro, das traduções resultantes do incansável trabalho do tradutor António Graça de Abreu. Porém, a circulação destas traduções, aponta Yao, é limitada e não influencia significativamente a visibilidade de uma China literária nas livrarias portuguesas. Em Portugal, a parca presença de literatura chinesa traduzida é sempre recebida com algum espanto. A busca por possíveis justificações para este vácuo literário é quase imediata: desde dúvidas sobre o potencial de escritores chineses contemporâneos até à resignação pelo reduzido tamanho do mercado português, passando muitas vezes por razões mais práticas, como a falta de profissionais de tradução ou de pessoas capazes de estabelecer as pontes culturais necessárias para avançar entre terras e línguas aparentemente distantes entre si. A verdade é que este panorama tem vindo a transformar-se nos últimos anos, apesar de continuarmos agarrados a ideias menos actualizadas. Desmontemos, então, algumas destas ideias. A literatura chinesa, enredada numa língua (e línguas) e culturas muito singulares, já demonstrou o seu valor, obtendo em vários casos um destacado reconhecimento internacional: para além de Mo Yan, detentor do Prémio Nobel da Literatura em 2012, e de Gao Xingjian, Nobel da Literatura em 2000, já vários outros nomes vingaram fora da China, tanto no que se refere ao sucesso editorial como de reconhecimento da crítica. Sem necessidade de mencionar os clássicos da China Antiga, autores da era moderna como Lu Xun, Lao She, Zhang Ailing ou Shen Congwen já não passam despercebidos no ouvido internacional; autores contemporâneos como Yu Hua, Bei Dao, Yan Lianke e Can Xue são uma presença assídua nas estantes de literatura chinesa traduzida no ocidente; e, nos últimos anos, a ficção científica chinesa tem suqjreendido o público internacional com novas formas de imaginar. 10
Se, por um lado, a China possui um acervo literário com meritória divulgação internacional, começam também a existir circunstâncias favoráveis da parte portuguesa em acolher essa produção. O estudo da língua e cultura chinesas já deixou de gerar o efeito exótico de outrora, sendo que actualmente são várias as instituições de ensino superior que oferecem currículos integralmente dedicados ao país do meio, já para não mencionar a inclusão do chinês como língua optativa em várias escolas do ensino secundário. Os programas curriculares dedicados à língua e cultura chinesas, que, têm especial peso no tema que aqui nos une, já contam com um historial relevante. Por exemplo, a licenciatura de quatro anos focada em língua chinesa e tradução do Instituto Politécnico de Leiria, estabelecida desde 2006 em cooperação e intercâmbio com o Instituto Universitário de Macau e a Universidade de Línguas e Culturas de Pequim, tem vindo a formar uma massa significativa de tradutores e agentes que trabalham directamente com a língua chinesa (a minha vida profissional nasceu desta investida académica, pela qual ficarei eternamente grata). A Universidade do Minho lançou em 2004 a licenciatura em Estudos Orientais: Estudos Chineses e Japoneses, que foi complementada quatro anos depois com o mestrado em Estudos Interculturais, o que propicia percursos qualificados para lidar com os desafios literários e interculturais. Por sua vez, a Universidade de Lisboa tem na sua oferta académica uma licenciatura e mestrado em Estudos Asiáticos, que oferece uma base sólida para um aprofundamento da língua e cultura chinesas, assim como licenciatura e mestrado em Tradução, cujas línguas de trabalho prevêem o chinês. Destaco ainda o trabalho do Centro Científico e Cultural de Macau, que oferece um constante leque de formações e cursos livres e que pode ser um útil ponto de partida para uma especialização em estudos chineses. Sem querer ignorar o trabalho de outras instituições que abordam seriamente coisas da China, destaco aqui apenas as que me parecem apontar numa perspectiva de especialidade mais contígua aos estudos literários e à tradução. A aposta nestes percursos académicos começa lentamente a mostrar resultados no campo da literatura contemporânea traduzida directamente do chinês. Nos últimos anos, surgiram nas nossas bancas várias obras de Yu Hua (Crónicas de um Vendedor de Sangue, 2017; Viver, 2018; China em Dez Palavras, 2018) e de Yan Lianke (4s Crónicas de Explosão, 2021), todas estas através do prolífero trabalho do tradutor Tiago Nabais e com apoio da editora Relógio D'Agua; mais recentemente, a extensa trilogia de ficção científica O Problema 11
dos Três Corpos de Liu Cixin foi traduzida para português, o primeiro volume por mim e os restantes pelo tradutor Eugênio Graf, que entretanto já se aventurou em mais um romance de Yan Lianke (A Morte do Sol, 2024). Através de tradução indirecta, temos livros assinados por Mo Yan, Mai Jia, Can Xue e Ma Jian. E mais novidades se aproximam. Existe, portanto, uma tendência recente e positiva no caminho da literatura chinesa em Portugal, tanto a nível formativo como profissional. Yao refere que o maior obstáculo no intercâmbio literário entre China e Portugal é, acima de tudo, "a falta de interesse e vontade" - apesar de, acrescenta o autor, começar a haver uma abertura para conhecer a literatura do Outro, principalmente no lado chinês, onde a tradução de obras portuguesas tem sido cada vez mais frequente. Quero acreditar que, em Portugal, a vontade também seja cada vez maior, sendo este trabalho um pequeno contributo para nos aproximarmos da literatura que ainda teimamos em ver como distante. 12
No início do séc. XX, com o final da era imperial, a China testemunhou profundas transformações políticas e sociais. No domínio da língua chinesa, após décadas de crescente contestação ao uso predominante de chinês clássico na escrita, viveu-se na era republicana uma mudança de paradigma, resultante de insistentes apelos a uma generalização do chinês vernacular. Para além da vertente linguística, diferentes vozes do movimento Nova Cultura incitavam a uma profunda reflexão sobre vários aspectos da cultura e da sociedade, defendendo para isso a criação de uma nova literatura a partir de uma livre experimentação literária em chinês vernacular. A chamada para uma revolução literária em 1917 marcaria o início da literatura moderna chinesa. Este trabalho tem como principal objectivo uma caracterização das primeiras experiências literárias em chinês vernacular que integraram a revista Nova Juventude, uma publicação central no debate cultural durante o movimento Nova Cultura. Tendo como ponto de partida as criações literárias que surgem como resposta aos primeiros apelos do movimento, olharemos para os contextos dos seus autores e para os elementos que contribuíram para a construção de uma nova literatura no país. Adicionalmente, são ainda analisadas algumas das mudanças linguísticas manifestas nos textos publicados neste período de revolução linguística e que persistem no chinês de hoje. ISBN 978-972-8586-69-0 Coleção Língua e Cultura 9 "789728"586690">
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