civilização chinesa. Embora também seja possível mencionar um certo envolvimento de Pangu nesta fase do desenvolvimento mitológico chinês, o papel de Nüwa e Fuxi é superior e encontra-se carregado de valor cultural. A forma como Nüwa procedeu à moldagem dos seres humanos, o tipo de material utilizado e o seu posterior envolvimento com a figura de Fuxi contribuem fortemente para a relevância deste episódio no conjunto de textos selecionados. Ademais, Nüwa parece também ter desempenhado um papel crucial numa das múltiplas versões do mito diluviano, o que justifica igualmente a preponderância atual desta figura no imaginário cultural chinês. No contexto do dilúvio, o terceiro grande ponto deste quinto capítulo, a análise proposta segue essencialmente duas vias: a primeira reconhece a pluralidade diegética associada a esta calamidade, pois vários foram os grupos étnicos que, ao longo do seu crescimento enquanto grupo, desenvolveram narrativas diluvianas de grandes dimensões, e a segunda foca-se no que é, porventura, considerado como o mais importante mito relativo ao dilúvio na China. Neste caso, apresenta-se a história de Gun (稣)e ¥u (禹),pai e filho, que, no decorrer de duas gerações, lutaram corajosamente contra a catástrofe que se abateu sobre o território. Yu, porventura a personagem mais preponderante nesta narrativa, terá sido o primeiro grande fundador do sistema dinástico que vigorou na China até ao século passado, motivo pelo qual, como suprarreferido, se constata que, no sistema mitológico chinês, persiste uma certa ambiguidade entre mito e história. Estas três narrativas compõem o grande foco do capítulo cinco, mas nâo constituem a totalidade do mesmo. Ao longo das narrativas expostas, para além da aplicação da teoria girardiana, estas foram igualmente analisadas tendo em conta a proposta junguiana dos arquétipos. Neste sentido, reconhecendo que os textos escolhidos poderiam nâo ser suficientes para fundamentar a aplicação destas duas argumentações, analisaram-se ainda dois outros mitos: o de Shennong (神农), o Deus Agricultor, e o de Houyi (后羿),o Arqueiro. Embora o seu enredo possa nâo atender às principais características presentes nos mitos de origem, estes mitos retratam, ainda assim, um momento fundacional importante. No primeiro caso, Shennong fundou o sistema agrícola, fornecendo ao povo chinês as técnicas e ferramentas necessárias para a sua subsistência. A sua morte, embora não totalmente passível de uma análise girardiana, constituiu um sacrifício pela sociedade. No segundo caso, é exequível considerar que a narrativa de Houyi, enquadrando-se no que se designa por mitologia solar, traça um paralelo com o mito diluviano de Yu, apesar de o cataclismo verificado neste episódio ser, efetivamente, provocado pelo sol (fogo) e nâo pela água. Ademais, pela importância sociocultural atribuída à figura, estuda-se ainda a imagem de Change (嫦娥)no imaginário chinês. Por fim, como término da obra, sâo tecidas breves considerações sobre o valor do mito na sociedade sínica, recuperando as influências que o mito detém ainda na cultura chinesa. Essas influências destacam-se nâo só no campo das artes em geral, desde 21
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