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Análise Comparativa e Contrastiva de Mitos Chineses de Origem A Gramatica Universal do Mito w s f l João Marcelo Martins Centro Científico

A Gramática Universal do Mito Análise Comparativa e Contrastiva de Mitos Chineses de Origem Centro Científico e Cultural de Macau, I.P. CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ENSINO SUPERIOR 湛 尸 T 大 擘 UNIVERSIDADE DE MACAU UNIVERSITY OF MACAU

Título A Gramática Universal 血 Mito: Análise Comparativa e Contrastiva de Mitos Chineses de Origem Coleção Língua e Cultura Coordenação: Carmen Amado Mendes Autor João Marcelo Martins Publicado por Centro Científico e Cultural de Macau, LR Rua da Junqueira, 30 1300-343 Lisboa - Portugal www.cccm.gov.pt | geral@cccm.gov.pt Tbl. (+351) 21361 乃70 Universidade de Macau Avenida da Universidade, Taipa Macau —China www.um.edu.mo | info@um.edu.mo Tel. (+853) 8822 8833 Pré-impressão, impressão e acabamento Multitipo - Artes Gráficas, Lda. Ilustração da capa Fuxi (伏羲) Qiu Ying (仇英),c. 1494-1552 China, dinastia Ming (1368-1644) Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Fuxi,_Qiu__Ying_(painting).jpeg Tiragem 800 exemplares Lisboa | 2023 ISBN: 978-972-8586-63-8 Depósito Legal: 514 765/23 © Todos os direitos reservados

ÍNDICE Introdução .............................................................................................................. 13 Capítulo I - O Imaginário Humano através do Mito......................................... 23 Mito: uma Breve Contextualizaçâo ....................................................................... 23 A Contemporaneidade do Mito ............................................................................ 38 Mito, Lenda e Outros Fenómenos da Imaginação Humana ............................... 44 Capítulo II - A Coletividade do Pensamento Humano ...................................... 53 2.1. Mito e Inconsciente Coletivo ........................................................................ 53 2.2. As Imagens Arquetípicas do Imaginário Mítico ........................................... 58 Capítulo III - Mimetismo e Violência no Pensamento Humano ...................... 75 3.1. Desejo Mimético como Elemento Primevo do Mito ................................... 75 Capítulo IV - Introdução ao Pensamento Clássico Chinês................................. 97 4.1. As Três Grandes Vertentes Filosófico-Religiosas ........................................... 98 4.1.1. Confucionismo ........................................................................................ 99 4.1.2. Taoism o.................................................................................................... 102 4.1.3. B udism o................................................................................................... 104 4.2. Crenças Populares Chinesas {minjian xinyang 民间信仰)............. 107 4・3・ Caracterização do Sistema Mitológico Chinês ............................................. 111 4.3.1. A Mitologia Chinesa ao Longo da História: Uma Resenha.................. 112 4.3.2. Particularidades e Especificidades do Sistema Mitológico Chinês ........ 123 Capítulo V - Narrativas Míticas Comparadas: Aproximações e Afastamentos entre China e Ocidente .................................................................................. 136 5.1. A Origem do Mundo .................................................................................... 136 5.1.1. Pangu Separa o Céu e a Terra (Pangu kaitian pidi 盘古开天辟地)••… 142 5・2・ A Origem da Humanidade ............................................................................ 156 5

5.2.1. Nüwa, Fuxi e a Criação da Humanidade {Nüwa, Fuxiyu renlei de qiyuan 女蜗、伏羲与人类的起源)................... 157 5.2.2. Nüwa Remenda o Céu (Nüwa butian 女蜗补天) ................................ 171 5.3. O Dilúvio (Da hongshui 大洪水).................................................................. 175 5.3.1. A Pluralidade Diegética........................................................................... 176 5.3.2. Gun e Yu Controlam a Água (Gun Yu zhishui 稣禹治水)................... 182 5.4. Outras Narrativas Míticas .............................................................................. 198 5.4.1. Shennong, o Deus Agricultor (Shennong 神农) .................................... 200 5.4.2. O Mito Solar ........................................................................................... 212 5.4.2.1. Houyi Abate os Sóis {Houyi Sheri 后羿射日) ................................ 216 5.4.2.2. Houyi e Chang'e .............................................................................. 229 5・5・ Breves Contribuições sobre o Valor do Mito na Sociedade Sínica .............. 242 Conclusão .................. 254 Bibliografia e Webgrafia ......................................................................................... 268 Anexos .................................................................................................................... 279

Ao meu pai, que não me viu a concluir esta etapa 7

AGRADECIMENTOS Primeiramente, gostaria de agradecer à Fundação Oriente cujo apoio disponibilizado, nomeadamente através da atribuição de uma Bolsa de Doutoramento, me possibilitou abordar este período de desenvolvimento de trabalho de forma mais focada e livre de preocupações nâo académicas. Agradeço também a possibilidade que me concederam no que toca à publicação do texto que agora apresento. Nesta linha, nâo esqueço a simpatia e cordialidade da Dra. Isabel Carvalho que procurou desde cedo solucionar qualquer dúvida ou questão relacionada com os processos da Fundação. O seu contributo foi, sem dúvidas, imprescindível. Com o mesmo grau de importância, gostaria também de agradecer ao Centro Científico e Cultural de Macau, em especial à sua Presidente, a Professora Doutora Carmen Mendes, por me ter lançado o desafio de publicar esta obra. O seu convite surgiu de um conjunto de planos e atividades novadoras que pretende implementar no CCCM. Tal causou em mim um grande entusiasmo académico, já que traduz o reconhecimento deste meu trabalho como uma plataforma que ajuda a promover e a divulgar conhecimento entre Portugal e a República Popular da China, missão que o CCCM se propóe concretizar. Espero que este trabalho possa marcar o início da publicação de um conjunto de obras que, no âmbito da atividade do CCCM, ajude a divulgar a investigação de autores e académicos portugueses que se debruçam nesta temática. Em seguida, gostaria de manifestar os meus mais profundos agradecimentos aos coorientadores do projeto que se materializa agora neste livro. À Professora Doutora Sun Lam, agradeço-lhe todo o apoio e confiança que depositou em mim. O seu profundo gosto e conhecimento pela língua e cultura chinesas foram desde cedo inspiradores e grande parte do meu entusiasmo pela área advém precisamente da sua atitude perante a área. Ao Professor Doutor Joâo Ribeiro Mendes, que abraçou esta aventura sem qualquer hesitação, agradeço-lhe as sugestões e conselhos dados ao longo destes anos. A sua sabedoria e sensatez estiveram sempre presentes na 9

elaboração do texto que se segue, ajudando-me a fundamentar e elaborar mais profundamente as diversas ideias expostas. Sem a ajuda e rigor de ambos os professores, o texto final não seria tão rico como acredito ser. Agradeço-lhes, no fundo, a inspiração, a motivação, a paciência e a insistência que demonstraram para comigo. Em seguida, uma palavra muito especial para o amigo Professor Luís Cabral. Foi graças às interessantíssimas e contagiantes conversas que tivemos ao longo deste período que pude abraçar o presente projeto com energias sempre renovadas. O seu auxílio foi fulcral para o texto que aqui apresento. A sua preocupação e carinho para com os alunos sâo incomparáveis e espero, algum dia, poder ter a mesma preponderância para os meus alunos que ele teve, e tem, no meu percurso académico e pessoal. À Carina Fernandes, que, pelo apoio demonstrado em todas as etapas do caminho, permitiu que o mesmo se tornasse mais relaxado e dinâmico, agradeço a sua amizade incondicional. Esteve sempre disponível para me ouvir e aconselhar, nunca me negando o espaço e tempo que, muitas vezes, retirei ao nosso convívio para trabalhar neste texto. Independentemente de tudo, ela foi a confidente que procurei quando me senti desgastado ou perdido. À Carolina Ferreira, Catarina Dias, Francisca Vaz Monteiro e Joana Ferreira, gostaria de agradecer as conversas, amizade e apoio que manifestaram em todos os diálogos que tivemos. Os momentos que passámos juntos, presencialmente e/ou em linha, contribuíram para afastar toda a fadiga acumulada. Sinto-me em casa quando estou convosco. À Vanessa Guerra que, pelos mais de dez anos de amizade, detém um lugar muito próprio no meu coração. Apesar da nossa distância física, nunca me senti longe dela. Os seus incentivos e sugestões mantiveram-me sâo em períodos mais conturbados. Ao Gil Pinto, agradeço a amizade, a paciência e a disponibilidade incansáveis ao longo destes anos, o que inclui a indulgência em momentos difíceis de ultrapassar. Apesar dos altos e baixos, a sua presença e apoio foram importantes para a conclusão da tese. À Bruna Peixoto, agradeço o facto de, durante este tempo, embora com muito trabalho, sempre se ter preocupado em possibilitar-me todas as condições para a realização desta tarefa. Sem ela, ainda estaria perdido em trabalho administrativo e teria demorado muito mais a concluir o texto. À Bárbara Urze de Araújo, exprimo os meus agradecimentos pelas conversas divertidíssimas e momentos de riso que intervalos entre momentos de trabalho proporcionaram. Agradeço igualmente a todos os meus colegas do Departamento de Estudos Asiáticos da Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas da Universidade do Minho por fazerem do meu local de trabalho um espaço mais agradável e intelectualmente 10

estimulante. Ademais, também quero enviar uma palavra de apreço aos alunos da Licenciatura em Estudos Orientais: Estudos Chineses e Japoneses e dos Cursos Livres do Instituto Confócio da Universidade do Minho que, mesmo ávidos por conhecimento, passaram indiretamente por esta etapa comigo, manifestando apoio e compreensão constantes pelo tempo que tive de dedicar à tese. À minha família, mâe e avós maternos, que percorreram este caminho a meu lado, quero dizer-lhes que, independentemente do lugar onde estiver, estarão sempre comigo. O amor e o carinho que me deram durante toda a vida fizeram de mim quem sou hoje. Por fim, um grande bem-haja a todos aqueles que, de uma maneira ou de outra, se cruzaram comigo ao longo destes anos e contribuíram para o meu crescimento profissional e pessoal. 11

INTRODUÇÃO 千里之行,始于足下] Uma longa viagem começa com o primeiro passo. O trabalho a seguir apresentado resulta de um conjunto de investigações e análises realizadas e descritas em sede de tese de doutoramento, pelo que os conteúdos em debate assumem, na sua essência, caráter académico-científico. Impressionado pelas ocorrências em seu redor, isto é, as imposições e contrastes do ambiente natural em que se inseria, como a oposição entre dia e noite ou entre frio e calor, o ser humano procurou desde cedo, e de forma relativamente rápida, justificar essas circunstâncias através da criação de um conjunto de seres sobrenaturais, com grande poder, que, pela própria influência manifestada, levavam a que ele próprio ora se aliasse, ora se afastasse dos mesmos. Essas explanações, claro, nâo surgiram espontaneamente, tendo-se assistido, durante um período inicial, à subsistência de um substrato naturista, sobretudo concernente às manifestações naturais do universo, como a presença de rios, plantas ou astros, e, posteriormente, à sua passagem para uma fase animista, traduzida pela crença em espíritos, almas ou divindades, isto é, forças de caráter sagrado que, por alguma razâo, administravam esses fenômenos. Desta evolução ou desenvolvimento da imaginação e criatividade humanas, surgiram o medo, o respeito e a devoção perante tais realidades que, ainda assim, no seu ponto de vista, pareciam inexplicáveis. Por conseguinte, nasceu, no ser humano, a esperança de que, por meio da realização de rituais ou estabelecimento de cultos, estas forças pudessem agraciá-lo com dádivas, ajudas e, no geral, toda a espécie de bênçãos ou benefícios. Aliás, este tipo de práticas, regulado por, porventura, o que se poderia designar por religião embrionária ou uQianli zhi xing, shiyu zuxia:' (TdA) 13

rudimentar, procurava garantir o perpétuo e constante funcionamento do universo, atribuindo-lhe e fornecendo-lhe força para os seus processos de criação e renovação. Por detrás desses comportamentos, encontrava-se a narrativa mítica. Estritamente ligado aos inícios de um sistema religioso primitivo, o mito foi formulado com o intuito de criar no grupo um estado mental comum ao mesmo tempo que, descrevendo aquilo que ocorreu in illo tempore, possibilitava a evocação de um exemplo anterior que, pelo seu caráter modelar, era tido como merecedor de repetição e solidificação na sociedade como história verdadeira. Num mundo em que o ser humano se sentia perdido, o mito traduzia-se frequentemente como sublimação de tudo aquilo que era constatado como dificilmente entendível. Vários são os exemplos que podem ajudar na ilustração desta afirmação, visto que a génese ou formação do universo, a constituição do mundo e dos seus respetivos fenómenos ou a criação do ser humano se constituem como realidades para as quais foram elaboradas narrativas míticas. Neste sentido, o culto decorrente da crença no mito constitui, como crê Zheng (1989, 10), “uma maneira de definir e regrar a existência [do ser humano] no seu ambiente natural, entendendo-se que o seu nascimento não se deve ao acaso, mas decorre de uma ordem cósmica5, o que “corresponde a uma função previamente definida que contribui para a restauração eterna do cosmos"?. Consequentemente, é essencial considerar a estrutura e o escopo do mito, pois, como visto, este não se afirma somente como comentário ao ritual executado. O mito refere-se ao evento original, justificando o rito. Juntos "constituem a religião e sâo a dinâmica do grupo, porquanto se erigem num corpo de práticas tradicionais com as quais cada membro concorda e se comporta" (Zheng 1989, 10), ou seja, o mito poderá ser uma primeira extensão ou elo da religião primitiva. No caso da civilização chinesa, esta cedo se afirmou como uma das quatro grandes sociedades do mundo antigo, tendo-se desenvolvido, à semelhança das congéneres egípcia, indiana e mesopotâmica, ao longo de um grande curso de água, o Rio Amarelo {Huanghe 黄河),que a influenciou profundamente no que tange ao seu entendimento enquanto unidade étnica. De facto, tido como “rio-mãe" do povo chinês ^muqinghe 母童7可),este curso de água constituiu-se desde logo como local ideal para o florescimento de uma comunidade primeva que, posteriormente, veio a atingir o estádio de sociedade agrícola. Como expectável, ainda que, por exemplo, ao longo da sua história inicial, estas civilizações se tenham governado através de um poder monárquico centralizado, o que se traduziu, efetivamente, num ponto convergente entre si e as mesmas acabaram por manifestar determinadas particularidades, amiúde dissemelhantes, nos seus processos subsequentes de desenvolvimento e evolução ( / Miyamoto 2016). No entanto, a dado período 2 Todas as citações utilizadas no contexto do presente trabalho e que têm uma proveniência em obras escritas em língua estrangeira são citações cuja tradução é da autoria do autor desta obra. (NdA) 14

histórico, em todas elas foi possível identificar, independentemente da intensidade dessas evidências, a urgente necessidade humana em encontrar o seu lugar num mundo dominado por múltiplas irregularidades verificadas no decorrer dos fenómenos, o que, em última instância, justificou a elaboração articulada de mitos que, passados oralmente, sobreviveram à passagem geracional e, atualmente, ainda permanecem vivos nestas comunidades3. 3 Ainda que, nos tempos modernos, a conceção de mito tenha sofrido algumas modificações. (NdA) Uma análise rápida à literatura existente sobre a história chinesa permitirá perceber que, dentro de um quadro temporal extenso, a China vivenciou diversas fases de construção da sua identidade, sendo que os seus primórdios ora se encontram alicerçados na existência de provas factuais relativamente a dadas eras ou períodos, ora se baseiam num primeiro momento dinástico fundado por um grande herói lendário. Ainda que não se revelem congruentes, as fontes permitem incursões a um passado nâo totalmente descoberto. Esse aspeto torna o estudo desta área atrativo, mas, ao mesmo tempo, dúbio, porquanto a apresentação e justificação dos dados disponíveis poderão ser completamente diferentes de investigação para investigação. O mito é, então, um reflexo da estrutura social, sendo coadjuvado pelo rito, que demonstra uma indicação significativa dos antigos modos de pensar e agir, neste caso, chineses. Outrossim, parece ser essencial entender as narrativas míticas que rodeiam o povo chinês para compreender uma série de características que, ainda hoje, continuam vivas na sua consciência coletiva. Por exemplo, os chineses veem-se como os legítimos descendentes do dragão {longde chuanren 龙的传人),conceito ou ideia que terá surgido como consequência de uma veneração totémica que, embora inicialmente verificada no norte do país, ultrapassou as barreiras físicas do Rio Amarelo e transformou-se numa crença solene para toda a civilização chinesa (" Xiang 2017). Aliás, como se verá adiante nas narrativas dos pais civilizacionais, a sua descrição como possuindo características dragontinas releva este aspeto, justificando uma vez mais essa descendência. Por outras palavras, a correlação entre mito e rito adveio do conjunto de manifestações religiosas cujos componentes propunham uma forma de pensar baseada e fundada na observação do mundo. O antigo povo chinês encontrava­ -se fortemente ligado à ideia de Céu {Tian 天),perspetivando-o como marca de perfeição e organização. Assim, desejoso por atingir tais ideais, buscou plasmar a ordem e a união do firmamento no ambiente em seu redor, o que influenciou, consequentemente, os seus comportamentos e valores e originou uma série de dúvidas, especulações ou questões sobre a própria ordenação celestial. À vista disto, foi-se formulando um certo código simbólico no qual se deveria conceber o universo como organismo vivo que, para manter o seu normal funcionamento, necessitava 15

de vivenciar dados ciclos, se assim for permitido afirmar, onde pudesse passar por fases de nascimento, crença, declínio, morte e regeneração. Uma outra investigação à história chinesa permitirá também identificar que a ordem ou sucessão dinástica funcionou exatamente da mesma forma, pois, como afirmado, era imagem refletida da ordem universal. É neste ponto em específico que principalmente o rito ganha a sua importância, porque, estabelecendo uma certa estrutura comportamental de acordo com as regras inalteráveis e universais da natureza, possibilitou igualmente que o ser humano manifestasse o seu esforço em se adaptar aos diferentes períodos do ciclo universal, isto é, permitia-lhe uma harmonia com a ordem natural. Neste âmbito, Zheng (1989, 21) considera que Os ritos nâo sâo regras estabelecidas arbitrariamente ou a esmo, mas são baseadas na observação cuidadosa e sistemática do universo. Os ritos representam regulamentos ditados pela natureza, cada um dos quais coerente e oportuno. A sua função é moldar o ser humano no universo, atribuindo-lhe um lugar muito preciso e fixando as distâncias que ele deve cumprir com os outros componentes. Os ritos são o segredo da harmonia universal. Assim, a responsabilidade por cataclismos e infortúnios humanos cabe exclusivamente ao homem que falhou na sua missão. Assim sendo, embora nâo seja certamente caso único a nível global, os primórdios das sociedade e cultura chinesas afiguram-se bastante interessantes, pois propalam uma visão muito própria do estado de mente de um povo que apresenta longos anos de existência. Neste aspeto, de uma perspetiva ocidental, a China afirma-se como o outro grande centro da experiência humana, dado que, como Leys (1991, 60 - 61) conjetura, Todas as outras grandes civilizações estão mortas (Egito, Mesopotâmia, América pré-colombiana), encontram-se exclusivamente absorvidas por problemas de sobrevivência em condições extremas (culturas primitivas) ou estão muito próximas a nós (culturas islâmicas, índia) para poder oferecer um contraste total, uma alte- ridade igualmente completa, uma originalidade tâo radical e esclarecedora quanto a China. Somente quando consideramos a China, podemos finalmente medir mais exatamente a nossa própria identidade e começar a perceber o quanto da nossa herança pertence à humanidade universal e qual parte reflete apenas simples idiossincrasias indo-europeias. A China é esse Outro fundamental sem o encontro do qual o Ocidente nâo se pode tornar verdadeiramente consciente dos contornos e limites do seu Eu cultural. Tendo estas variegadas considerações em mente, a presente monografia toma como objeto de estudo os mitos chineses de origem. Ambiciona-se com este 16

trabalho, pois, nâo somente alcançar uma compreensão mais abrangente da cosmovisâo, da mundividência e da mundivivência chinesas, mas também um aprofundamento na inteligibilidade do “poder do mito”,em particular do modo como este se liga à psique humana e, ao mesmo tempo, revela aspetos essenciais da mesma. Os resultados apresentados resultam de uma pesquisa impulsionada, desde logo, pela constatação de uma insuficiência ou de uma lacuna na área do saber em que se encontra inscrita, na qual, efetivamente, se verifica uma escassa abordagem no meio académico e na comunidade científica portugueses. Tal facto poderá porventura relevar do parco estudo que, no contexto nacional, tem sido devotado à mitologia chinesa em geral, quiçá mesmo à cultura chinesa nas suas múltiplas expressões. Por um lado, tais circunstâncias encorajam a enfrentar águas desconhecidas e a desbravar novos caminhos e> por outro, exigem uma responsabilidade acrescida na medida em que se traçará uma rota que, num futuro, servirá talvez como via para novas investigações. Esta constatação, embora motivo necessário, nâo foi suficiente para encetar a pesquisa cujos resultados são aqui expostos. No âmbito da exploração e compreensão dos mistérios chineses, destaca-se o trabalho desenvolvido pelo Departamento de Estudos Asiáticos (DEA) da Universidade do Minho (UMinho) que, desde a sua criação, tem conseguido ultrapassar nâo só diversos obstáculos linguísticos e culturais, como também inúmeros desafios que relevam de uma preponderância de estereótipos acerca da sociedade chinesa para, em consequência, apresentar múltiplas diligências no que se refere à elaboração de estudos e análises sobre a China em muitas das suas facetas, auxiliando na criação de um acervo rico concernente a um outro desconhecido e, por vezes, temido. A sua perspetiva tem, assim, contribuído fortemente para a fomentaçâo de uma academia mais inclusiva e completa. A monografia aqui apresentada enquadra-se, por conseguinte, na linha de pensamento e de trabalho da mencionada unidade, assumindo-se como uma contribuição para o fortalecimento das relações luso-chinesas, visto que se trata, sobretudo, de uma tentativa de investigar os primórdios das civilizações como pontos altamente criativos e convergentes da mente humana. Encontra-se aqui, porventura, o motivo que mais decisivamente determinou a realização deste trabalho: a relevância epistémica do entendimento da diversidade de práticas e da riqueza do discurso cultural associados aos mitos de origem. Este desígnio, vale acrescentar, já havia tido o seu embrião num trabalho publicado com o título A Cosmogonia Chinesa numa Visão Comparada. Destarte, a redação de 'A Gramática Universal do Mito: Análise Comparativa e Contrastiva de Mitos Chineses de OrigemM adequa-se à perspetiva holística que se tem vindo a defender na área dos Estudos Asiáticos. A escolha e importância do tema encontram-se conectadas à necessidade contínua em manter e estreitar laços de compreensão e aproximação entre culturas, qualquer que seja o campo 17

a percorrer. Neste seguimento, no âmbito desta obra, como já levemente desvendado, afigura-se essencial considerar que a formulação de ideias ou pensamentos sobre as origens é característica universal dos seres humanos, conquanto, por apresentarem enredos distintos ou se manifestarem através de diferentes prismas, sejam ainda vistos como elementos díspares e desassociados. Existem, efetivamente, diferenças no que diz respeito ao ambiente físico e metafísico que rodeia os povos em geral, o que, em última instância, se traduz como um frequente e certo afastamento neste tipo de elaborações. Tòdavia, dado que se afirmam como componentes essenciais ao entendimento do funcionamento mais básico do mundo, os mitos de origem tendem, na sua totalidade, a partilhar uma base comum, isto é, uma espécie de gramática universal a partir da qual se desenvolvem. Essa dita gramática é inevidente e releva possivelmente de uma primordialidade presente na mente do ser humano como um todo, permitindo-lhe uma conexão global que, embora nâo negue a sua individualidade e diversidade, se constitui como rede ou pano de fundo coletivamente acessível. Tendo esta possibilidade em conta, pretende-se analisar e interpretar cuidada e criticamente um conjunto selecionado de mitos chineses de origem e identificar, nas suas estruturas, mediante comparações com outras narrativas do género, uma série de pormenores reveladora nâo só de eventuais contactos e trocas culturais entre povos, como também, e talvez sobretudo, de resquícios de um pensamento uno humano. Dito de outra forma, apresentando como desiderato final a construção de uma ponte comunicacional entre China e Ocidente/Portugal de forma a quebrar barreiras e promover diálogos conscientes entre culturas com características muito específicas, a investigação aqui elaborada terá igualmente como objetivo a identificação, no conjunto das perceções humanas, da necessidade constante do eterno regresso às origens. Neste contexto, as diligências realizadas buscam do mesmo modo responder à referida necessidade de maior e melhor entendimento de aspetos estruturantes da cultura chinesa e da sua influência até à atualidade, como é certamente a narrativa mítica. Consequentemente, aspira compreender aspetos da complexa mentalidade e sociedade chinesas, tendo em conta os seus modos de sentir e agir, já que serão também tidas em conta as principais correntes filosófico-religiosas que, historicamente, contribuíram para o estabelecimento de uma cultura mais coesa. Nesta sequência, em termos metodológicos, o corpus bibliográfico mobilizado para esta obra provém de domínios do saber diversos, como, a título de exemplo, a sociologia, psicologia, teologia, antropologia e paleontologia. Os recursos escolhidos remetem para autores com diferentes backgrounds académicos, oriundos de geografias e línguas distintas e com propostas de interpretação das origens complementares. No entanto, os conteúdos expostos e analisados nâo serão abordados de forma meramente enumerativa, porquanto se intentará incutir uma perspetiva 18

heurística, mas sobretudo hermenêutica, das narrativas míticas em escrutínio. Destarte, o olhar dedicado a este texto nâo se submeterá única e exclusivamente a leituras comparadas confinadas a um determinado quadro ou padrão histórico­ -cultural, sendo que, na esfera das sociedade e cultura chinesas, se considerará os simbolismos inerentes e as origens etimológicas das palavras propaladas, posto que a língua chinesa apresenta um léxico extremamente rico e variado que quase sempre implica a imprescindibilidade de elaboração de comentários e interpretações à forma como esta é utilizada ou como determinados vocábulos sâo empregues em dado excerto ou contexto. Como narrativas, os mitos chineses encontram-se impregnados com tais subtilezas linguísticas. Assim sendo, o trabalho encontra-se estruturado em cinco capítulos, nâo apresentando necessariamente uma mesma dimensão, mas, com toda a certeza, igualmente relevantes, que buscam, através de um movimento inicialmente calmo e posteriormente mais ritmado, introduzir as várias vertentes analisadas neste estudo. No primeiro capítulo, “O Imaginário Humano através do Mito", indaga-se o pensamento mítico, tendo em vista fornecer de forma equilibrada uma reflexão dupla sobre o conceito, dado que a presente monografia é elaborada contemplando duas vertentes, ocidental e chinesa. Torna-se necessário que a análise do tema proposto tenha igualmente em atenção as principais linhas de pensamento veiculadas por cada uma destas dimensões. Ademais, a pesquisa versa também sobre a contemporaneidade do mito e as suas funçóes modernas, procurando igualmente fornecer uma linha de distinção entre este conceito e o de lenda, conto ou fabula. Em todo o caso, a investigação deste ponto em concreto nâo termina neste elen- car de ponderações, posto que sâo as suas influências na modernidade que mais interessarão na discussão da temática. Com efeito, independentemente da cultura onde se insira, o ser humano sempre sentiu, e sentirá, a necessidade de regressar ao papel primordial do mito, a reinvençâo do passado no presente, para acalmar as suas preocupações mundanas. Com o avançar da ciência, contudo, a capacidade criativa ou inventiva do mito foi sendo naturalmente substituída por explicações concretas e concisas da realidade. Ainda assim, tal nâo é impeditivo de que alguns resquícios dessa mentalidade talvez mais arcaica nâo se mantenham no inconsciente humano. Por conseguinte, nos capítulos seguintes, intitulados 'A Coletividade do Pensamento Humano" e “Mimetismo e Violência no Pensamento Humano” respetivamente, sâo abordadas as teorias de Cari Jung e René Girard. Ambos postulam perspetivas diferenciadas sobre a influência do mito nas sociedades atuais, crendo que, como este faz parte de um grande inventário mental do ser humano, por mais instituições ou convenções criadas para organizar ou ordenar o seu comportamento, haverá inevitavelmente um regresso ao tempo primordial, embora porventura nem sempre nos termos originais. Através destes capítulos, lançam-se duas bases importantes para a interpretação dos mitos dentro de uma perspetiva 19

humana universal: os arquétipos e a violência mimética presentes a um nível global de narrativas míticas. O quarto capítulo, wIntroduçâo ao Pensamento Clássico Chinês", introduz, como o próprio nome indica, de forma breve e sucinta o pensamento clássico chinês tendo como base as três grandes vertentes filosófico-religiosas que o influenciaram a nível histórico, designadamente Confucionismo, laoismo e Budismo. A estas três dimensões, juntou-se uma outra, aquela relacionada a um conjunto de crenças, costumes, práticas e superstições populares pré-existentes a estes pensamentos. A unidade resultante da combinação destes quatro fatores ajuda na explicitação da mentalidade tradicional chinesa e no entendimento global das narrativas míticas sínicas. O culto aos antepassados, por exemplo, é evidente nos comportamentos atuais do povo chinês, sendo que, no contexto dos mitos, dos seus heróis e dos grandes feitos destes, a reverência por tais figuras é plasmada em certos festivais que ainda hoje subsistem na sociedade, ideia que é mais bem explorada na parte final do último capítulo. Em todo o caso, antes de se prosseguir para as narrativas propriamente ditas, surge ainda a necessidade de analisar e caracterizar o sistema mitológico chinês, visto que este apresenta certas particularidades muito específicas ao contexto histórico, social e cultural do território em análise. Neste sentido, revela-se, por um lado, a importância de traçar uma pequena cronologia do estudo da mitologia chinesa, identificando e retratando as atitudes em geral perante esta área do saber. Por outro, o reconhecimento de dadas características dos textos existentes, como a fragmentação das fontes, nâo se verificando a sobrevivência de uma só obra completamente dedicada à mitologia, ou a historicizaçâo dos episódios míticos, atitude advinda da profunda influência que Confucio e os seus discípulos exerceram no antigo pensamento chinês, permitem uma abordagem mais atenta, cuidadosa e, acima de tudo, globalizante. Por fim, no último capítulo do trabalho, “Narrativas Míticas Comparadas: Aproximações e Afastamentos entre China e OcidenteM, o contributo prestado centra-se sobretudo nos pontos de contacto existentes entre múltiplas narrativas com diferentes origens geográficas. Num primeiro momento, analisa-se a génese do mundo, através da figura de Pangu (盘古),tido como pai criador do universo. Para além da mitografia em torno da temática em si, porquanto a narrativa de Pangu nâo é, efetivamente, a única proposta chinesa para a formação do universo organizado, o estudo desta figura revela a sua importância quando perspetivada através da teoria do desejo mimético e do bode expiatório preconizada por Girard. O autor francês não parece ter feito uso da mitologia chinesa para comprovar os seus argumentos, porém a sua linha de pensamento é aplicável, em diversos graus, a esta narrativa chinesa. Por isso, Pangu nâo só é pai do universo chinês, como também pode ser considerado como figura espelhada, e vítima, de uma triangulação mimética. Em seguida, surge a criação do ser humano por Nüwa (女蜗)e Fuxi (伏羲),os pais da 20

civilização chinesa. Embora também seja possível mencionar um certo envolvimento de Pangu nesta fase do desenvolvimento mitológico chinês, o papel de Nüwa e Fuxi é superior e encontra-se carregado de valor cultural. A forma como Nüwa procedeu à moldagem dos seres humanos, o tipo de material utilizado e o seu posterior envolvimento com a figura de Fuxi contribuem fortemente para a relevância deste episódio no conjunto de textos selecionados. Ademais, Nüwa parece também ter desempenhado um papel crucial numa das múltiplas versões do mito diluviano, o que justifica igualmente a preponderância atual desta figura no imaginário cultural chinês. No contexto do dilúvio, o terceiro grande ponto deste quinto capítulo, a análise proposta segue essencialmente duas vias: a primeira reconhece a pluralidade diegética associada a esta calamidade, pois vários foram os grupos étnicos que, ao longo do seu crescimento enquanto grupo, desenvolveram narrativas diluvianas de grandes dimensões, e a segunda foca-se no que é, porventura, considerado como o mais importante mito relativo ao dilúvio na China. Neste caso, apresenta-se a história de Gun (稣)e ¥u (禹),pai e filho, que, no decorrer de duas gerações, lutaram corajosamente contra a catástrofe que se abateu sobre o território. Yu, porventura a personagem mais preponderante nesta narrativa, terá sido o primeiro grande fundador do sistema dinástico que vigorou na China até ao século passado, motivo pelo qual, como suprarreferido, se constata que, no sistema mitológico chinês, persiste uma certa ambiguidade entre mito e história. Estas três narrativas compõem o grande foco do capítulo cinco, mas nâo constituem a totalidade do mesmo. Ao longo das narrativas expostas, para além da aplicação da teoria girardiana, estas foram igualmente analisadas tendo em conta a proposta junguiana dos arquétipos. Neste sentido, reconhecendo que os textos escolhidos poderiam nâo ser suficientes para fundamentar a aplicação destas duas argumentações, analisaram-se ainda dois outros mitos: o de Shennong (神农), o Deus Agricultor, e o de Houyi (后羿),o Arqueiro. Embora o seu enredo possa nâo atender às principais características presentes nos mitos de origem, estes mitos retratam, ainda assim, um momento fundacional importante. No primeiro caso, Shennong fundou o sistema agrícola, fornecendo ao povo chinês as técnicas e ferramentas necessárias para a sua subsistência. A sua morte, embora não totalmente passível de uma análise girardiana, constituiu um sacrifício pela sociedade. No segundo caso, é exequível considerar que a narrativa de Houyi, enquadrando-se no que se designa por mitologia solar, traça um paralelo com o mito diluviano de Yu, apesar de o cataclismo verificado neste episódio ser, efetivamente, provocado pelo sol (fogo) e nâo pela água. Ademais, pela importância sociocultural atribuída à figura, estuda-se ainda a imagem de Change (嫦娥)no imaginário chinês. Por fim, como término da obra, sâo tecidas breves considerações sobre o valor do mito na sociedade sínica, recuperando as influências que o mito detém ainda na cultura chinesa. Essas influências destacam-se nâo só no campo das artes em geral, desde 21

a música, passando pelo cinema até à literatura, como também na vida quotidiana do povo. Em todos estes momentos de análise, é desenvolvido um trabalho de comparação através do qual seja efetivamente possível comprovar não só que o mito é realidade ainda presente na mente humana, como também, e principalmente, que a forma como esse pensamento nasce e se desenvolve nâo é exclusivo de dada cultura, mas sim do ser humano em geral — ou seja, a capacidade para a elaboração mítica está presente em cada povo, variando, contudo, a forma como as narrativas sâo veiculadas e pormenorizadas. Em jeito de síntese, é o caminho percorrido entre estes pontos que permitirá entender 'A Gramática Universal do Mito: Análise Comparativa e Contrastiva de Mitos Chineses de Origem” como um trabalho que começa com passos lentos e pausados, os quais vâo paulatinamente ganhando velocidade e intensidade. Neste sentido, a monografia obtém uma maior densidade nos capítulos finais, porquanto os dados recolhidos e debatidos nos capítulos iniciais se unem e possibilitam uma visão mais pormenorizada sobre os mitos chineses de origem. 22

Impressionado pelas ocorrências em seu redor, isto é, as imposições e contrastes do ambiente natural em que se inseria, como a oposição entre dia e noite ou entre frio e calor, o ser humano procurou desde cedo, e de forma relativamente rápida, justificar essas circunstâncias através da criação de um conjunto de seres sobrenaturais, com grande poder, que, pela própria influência manifestada, levavam a que ele próprio ora se aliasse, ora se afastasse dos mesmos. Essas explanações, claro, não surgiram espontaneamente, tendo-se assistido, durante um período inicial, à subsistência de um substrato naturista, sobretudo concernente às manifestações naturais do universo, como a presença de rios, plantas ou astros, e, posteriormente, à sua passagem para uma fase animista, traduzida pela crença em espíritos, almas ou divindades, isto é, forças de caráter sagrado que, por alguma razão, administravam esses fenómenos. Desta evolução ou desenvolvimento da imaginação e criatividade humanas, surgiram o medo, o respeito e a devoção perante tais realidades que, ainda assim, no seu ponto de vista, pareciam inexplicáveis. Por conseguinte, nasceu, no ser humano, a esperança de que, por meio da realização de rituais ou estabelecimento de cultos, estas forças pudessem agraciá-lo com dádivas, ajudas e, no geral, toda a espécie de bênçãos ou benefícios. Aliás, este tipo de práticas, regulado por, porventura, o que se poderia designar por religião embrionária ou rudimental; procurava garantir o perpétuo e constante funcionamento do universo, atribuindo-lhe e fornecendo-lhe força para os seus processos de criação e renovação. Coleção Língua e Cultura

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